“Sendo sincera, eu não gosto de ler. Me dá sono”. Aos 15 anos, Clara Gonçalves é uma jovem aspirante à faculdade de Medicina, inteligente, extravagante em sua espontaneidade, com um sorriso contagiante, apaixonada por crianças e por bateria. Quando o assunto é leitura, porém… Clara se mostra relativamente indiferente à literatura por trazer à tona sentimentos e efeitos que para ela são pouco produtivos e, em sua opinião, tediosos, caso não abordem temas de sua preferência. No tempo livre, a preferência de Clara se direciona a outro meio onde encontra as distrações que considera perfeitas para seu dia a dia: as telas.
Se o posicionamento de Clara for compreendido de maneira rasa, ela se enquadra nos padrões do estereótipo da Geração Alpha, ou simplesmente Gen A — jovens nascidos a partir de 2010, adeptos e dependentes da hiperconectividade e imersos na tecnologia avançada —, uma expansão ou continuidade direta da Geração Z, ou apenas Gen Z, os chamados zoomers — nascidos a partir da segunda metade dos anos 90 e início dos anos 2000, nativos digitais, que já deram seus primeiros passos na alfabetização em um mundo dominado pela internet.
Mas, para além do enquadramento citado, a real questão a ser abordada está no porquê de Clara ainda não ter encontrado “a menina dos olhos” dentro dos livros, e como isso influencia seu gosto pela literatura.
É como o caso de Elizabeth Bennet — uma das protagonistas do romance Orgulho e Preconceito da renomada Jane Austen —, que se conformou com a ideia de que seu destino amoroso estava fadado ao fracasso após se decepcionar com o Sr. Wickham, um militar com charme superficial, tornando-o popular no início, mas que escondeu uma personalidade complexada no decorrer da narrativa. O que ‘Lizzie’ não esperava era encontrar sua paixão e amor devoto no homem que ela jurava odiar. É como dizem, amor e ódio são faces da mesma moeda. Será que Clara ainda vai encontrar sua paixão naquilo que a deixa entediada e com sono?
Gabriela Vargas, de 16 anos, e Enzo Bucheroni, de 14, que também estão entre os adolescentes entrevistados por este R7 Estúdio, tampouco demonstram grande interesse pelos livros. “Não gosto de ler, de 0 a 10 eu diria que eu estou no 1 [...]. Sinto que se eu começar a ler alguma coisa e não prestar atenção em pelo menos 3 linhas, preciso voltar tudo, eu desfoco de uma coisa muito rápido”, diz Gabriela. “Não tenho interesse em ler, assisto filmes, séries e jogo online. Nunca me sugeri isso”, responde Enzo.

Uma pesquisa realizada pelo Iede (Interdisciplinaridade e Evidência no Debate Educacional) em parceria com a Árvore, plataforma gamificada de leitura, traz um dado que corrobora o que Clara, Gabriela e Enzo expressam. A partir de dados do Pisa 2018, Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, 19,6% dos estudantes entre 15 e 16 anos responderam que o texto mais longo lido naquele ano tinha uma página ou menos, enquanto 46,7% responderam que tinha entre duas e dez páginas. Ou seja, para 66,3% dos estudantes o texto mais longo lido durante um ano inteiro não passava de dez páginas.
O maior e mais recente estudo sobre o hábito de leitura no país também traz dados preocupantes. Realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o IPEC (Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica), a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024 revelou em sua última edição que apenas 47% da população brasileira com 5 anos ou mais pode ser considerada leitora, menor índice registrado desde 2007.
No recorte de faixa etária, o grupo que mais lê no Brasil é justamente o de crianças e adolescentes. De 5 a 10 anos, o percentual de leitores é de 62%; de 11 a 13 anos, 81%; de 14 a 17 anos, 62%; de 18 a 24 anos, 53%. O título desta reportagem pode até parecer um contrassenso a partir desses dados, mas algumas considerações são importantes. A pesquisa também considerou a leitura de livros didáticos como parte da investigação, o que naturalmente inflou os números nessas faixas de idade. Ademais, em relação à edição de 2019 da pesquisa, os índices estão caindo. Era de 71% de 5 a 10 anos (9 pontos percentuais maior); de 67% de 14 a 17 anos (5 pontos percentuais maior); e de 59% de 18 a 24 anos (6 pontos percentuais maior) — apenas a faixa etária de 11 a 13 anos se manteve estável.
Mas, afinal, que fatores explicam esses números e as declarações de Clara, Gabriela e Enzo?
Internet e livros: uma relação ambivalente
Neuropsicopedagoga especialista em educação, Adalgisa Cristina não faz parte da Geração Z, tampouco da Alpha. Nasceu em outra época, quando computadores, celulares e a internet não faziam parte do cotidiano das pessoas.
A neuropsicopedagoga enfatiza que a tecnologia pode moldar o indivíduo que a utiliza, se sua maturidade — desenvolvida pela região frontal, especificamente o córtex pré-frontal durante a infância — ainda não estiver formada. Ou seja, se uma criança tem muito acesso às telas, quando ela se tornar um adolescente/jovem suas distrações e hobbies vão girar em torno da mídia.

Para ela, a internet e os livros funcionam como uma balança. Se os jovens já gostavam de ler antes, então as redes sociais ficam em segundo plano, mas se o caso for o contrário, para ela, um abismo pode ser criado entre a literatura e os jovens.
“Eu vejo por dois lados. Depende da formação desses jovens e do quanto eles gostam da leitura. Tem alguns que ainda gostam, mesmo tendo acesso às redes sociais numa quantidade muito significativa, praticamente o dia inteiro, né? Mas isso é só para quem ama ler. Quanto aos demais, bom, isso tem se perdido”, diz Adalgisa.
Hoje há uma distância entre os jovens e a literatura porque os próprios se prenderam às facilidades oferecidas pela tecnologia, gerando o sedentarismo cognitivo — quando deixamos de exercitar nossas habilidades mentais — e elevando consequentemente os percentuais de queda do anseio pela leitura.
“Acho que por um prisma, o déficit de atenção dos jovens está maior; a gente tem visto que os vídeos curtos fazem com que as pessoas tenham menos atenção, ou também as séries da Netflix e da Prime, que são escritas pensando nas pessoas que vão estar assistindo à série enquanto estão nas redes sociais. Então sabemos que esse sedentarismo cognitivo vem acontecendo”, argumenta Rafaella Machado, editora executiva do Galera, o selo do Grupo Editorial Record para literatura infantojuvenil.
Mas, como uma moeda sempre tem dois lados, Rafaella observa um papel ambivalente da web nessa questão: “Ao mesmo tempo, a internet ajuda muito no aumento do protagonismo do leitor; com a migração para a venda online as coisas mudam muito, porque a pessoa vai entrar na Amazon buscando aquilo que ela já sabe o que vai comprar, e é aí que entram as redes sociais”, argumenta a editora, sobre a disseminação de visibilidade que as mídias deram para a literatura.
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Uma contradição, de fato; dois extremos, dependentes de um mesmo fator: os jovens leitores, que podem derrubar ou impulsionar a literatura conforme destacado pela escritora Keka Reis, três vezes finalista do Prêmio Jabuti na categoria infantojuvenil. Ela observa que a maioria do público encontrado em eventos literários é formada por jovens.
“Mais da metade dos frequentadores das bibliotecas de São Paulo são jovens. Aí, você vai nas bienais, e quando você vê as bienais cheias, elas estão cheias de jovens”, enfatiza Keka.

A escritora e influencer no ramo da literatura Karine Leôncio — mais conhecida como Kabook — traduz este dilema explicando que a inserção dos livros no mundo digital é como uma bolha, tem um crescimento diário, causado pela internet, mas se for realizada uma pesquisa entre amigos, familiares ou até mesmo estudantes, os livros têm o espaço semelhante a um grão de mostarda na vida dos jovens.
“Então assim, onde que estamos crescendo, mas aonde que a gente não tá crescendo? É como se estivéssemos sempre subindo um degrau e voltando dois”, diz Karine. Ela é crítica sobre o meio em que vive. Fala de literatura para jovens, tem centenas de milhares de seguidores e vê muitos jovens, inspirados nela também, se aventurarem ao falar dos livros no TikTok, Instagram e outros meios. Porém, nota que, por trás da aparente paixão pela literatura, muitas vezes, esconde-se o desejo de exibir uma performance.
“Eu acho que leitura é hobby, só que o que as redes estão fazendo é esse hobby performar. Então, por exemplo, a gente tem agora as pessoas consumindo muito um determinado estilo literário, aí essas pessoas criam uma estética e performance em cima dessa leitura, aí todo mundo não quer mais ter aquele hobby ou ser um leitor, na verdade, as pessoas passam a querer performar aquelas técnicas e aquele estilo de vida nas redes. É quase como se você fosse um tipo de pessoa offline e outro tipo de pessoa online”, enfatiza.
É como um ciclo vicioso: a internet surge e, com ela, vem as tendências; encontrada uma tendência se cria uma estética; e alcançar a estética se torna o alvo dos jovens. Tendo um objetivo e um meio por onde propagá-la, a performance acontece, ou seja, a estética se transforma em algo performático dentro das redes e é exatamente isso o que acontece com os livros. Não que seja algo necessariamente ruim, na realidade, a possibilidade da literatura ter a mídia como ponte para o aumento de visibilidade no país era o que este setor precisava, mas para aqueles que ainda não compreenderam que as narrativas dos livros podem ser tão divertidas e prazerosas quanto a internet, a literatura passa a ser apenas uma ferramenta de engajamento, facilmente descartável até que a próxima tendência surja.
Para além da internet
A questão da conectividade e suas vertentes abrange os múltiplos desafios que os jovens enfrentam em relação a uma tentativa de aproximação da literatura, mas é preciso lembrar que não foi pelos corredores tecnológicos oferecidos pela mídia que obstáculos como a falta de incentivo e o déficit de acesso à leitura surgiram.
Para a romancista e influencer literária Paola Aleksandra, os livros são as janelas de encontro “consigo mesmo”, um meio de amadurecer os leitores, fazendo com que cresçam “em meio aos conflitos”. O problema, porém, é que não estão acessíveis a todos.
Os livros se tornaram o produto do mercado de luxo
O Iede, já citado nesta matéria, realizou um estudo a partir de dados divulgados em 2023 pelo PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study), uma avaliação internacional que mede a habilidade leitora de estudantes do 4º ano no Ensino Fundamental. O estudo traz à tona a questão da grave desigualdade educacional no Brasil e sua influência no hábito e na capacidade de leitura.
83,9% dos alunos brasileiros de alto NSE (nível socioeconômico) atingiram aprendizado adequado em leitura. No caso de baixo NSE, esse índice cai para 26,1%. A diferença de 58 pontos percentuais é a maior entre os países participantes da avaliação. Vale destacar ainda que os alunos com NSE baixo representam 64% da totalidade, ou seja, é na maior parte da população que está o menor índice de proficiência leitora.
Se há um déficit no aprendizado de leitura de grande parte dos jovens, como cobrar que eles desenvolvam esse gosto pelos livros?
Em paralelo a isso, há a questão familiar e institucional, onde a falta de incentivo à leitura se destaca. A escritora e influenciadora literária Kabook afirmam que os pais e os colégios deveriam ser os grandes incentivadores da leitura para os jovens, afirmando que não adianta ansiar por um filho leitor se não há bons exemplos em casa e uma estratégia bem efetuada pelas instituições.
De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, para 14% dos entrevistados considerados leitores, quem influenciou o gosto pela leitura foi a mãe ou responsável do sexo feminino. Em seguida, com 11%, aparece algum professor ou professora. Essas duas figuras, de acordo com o estudo, são as principais influenciadoras para quem tem o hábito de ler.
“Os pais que não leem, nunca vão ter filhos leitores. É muito difícil [...] o exemplo arrasta, eles vão copiar [...] O incentivo primário para literatura vem de fora da internet. A internet não vai criar novos leitores, ela vai ampliar essa característica”, expressa Kabook.
Paola Aleksandra sabe o significado de passar à filha a importância da leitura. Ela conta que as duas se divertem ao construir de pouquinho em pouquinho a estante de livros da pequena, que hoje já sabe o papel dos livros e consegue diferenciar um Ipad de um kindle.
Trocando telas por páginas
Apesar das dificuldades para que as gerações Z e Alpha desenvolvam o hábito da leitura, há quem já tenha encontrado nos livros algo valioso que de alguma forma ainda não apareceu aos seus amigos e colegas da mesma idade.
Livia Reginato, influenciadora literária, retrata o núcleo dos amantes de livros como aqueles que se descobriram e entenderam que pode haver lazer dentro de narrativas repletas de camadas e complexidades, que acabam muitas vezes carregando simbologias únicas para os respectivos leitores:
Eu acho que o grande problema é como as pessoas pararam de conseguir ver a leitura como uma possível diversão, como um hobby
Em comparação a toda uma população, são poucos, mas neles é percebida uma paixão singular pela literatura.
Jean Werneck é um estudante universitário de 22 anos. Carioca de nascença mas um clássico sobrevivente paulista que se mostra radiante perante as novas narrativas que surgem de tempos em tempos. Desde sempre foi encorajado a adquirir novos conhecimentos pela mãe e acredita que, sem esse empurrão, não teria descoberto o universo que se desnuda ao virar de cada página.
“Minha mãe era a diretora da escola onde eu fui alfabetizado, e ela que me incentivou a ler, e isso para mim foi muito importante. Eu era muito tímido e tinha dificuldade de ler em voz alta, então acabou sendo um exercício pessoal e foi importante ter ela ali comigo nesse processo”, expressa Jean.
A também carioca Jullia Siston, de 20 anos, se encontrou na literatura. Filha de um treinador profissional de futebol e acostumada a mudar de estado constantemente, Jullia afirma que os livros trouxeram para ela uma alegria ilimitada de liberdade, e que aos poucos a fez se desprender de uma realidade opaca e sem brilho: “É um lugar de prazer, um lugar onde eu fujo da realidade e me divirto”, diz.
Ambos se destacam por serem considerados as exceções da juventude atual em relação ao distanciamento literário. Tanto para Jean, quanto para Jullia, os Zommers e a Gen A se perderam nas redes sociais e se movem por elas, seja pela performance ou para se inteirar das informações alheias.
“As pessoas não leem mais, elas preferem muito mais ficar nas redes sociais e ver as fofocas dos influencers do que ler”, diz Jullia.
*Sob supervisão de Arnaldo Pagano, editor do R7

R7 Estúdio
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