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Estúdio|Monise Souza*, do R7

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Antes de o Brasil se tornar potência mundial do surfe, as mulheres já lutavam para encontrar espaço entre pranchas de madeira, olhares atravessados e ondas dominadas por homens.

Mas esse cenário começou a mudar na década de 1930, quando a norte-americana naturalizada brasileira Margot Rittscher (1910-2012) mandou o preconceito para o fundo do oceano e fez história ao provar que o mar também podia ser dropado — principal movimento da prática — pelo público feminino.


Image (full-screen) | Title "GRÁFICO 1: "AS 5 FASES DO SURFE FEMININO"

Considerada a primeira surfista do país, Margot se tornou lenda do esporte, pavimentando o caminho para as futuras gerações. Anos mais tarde, em 1990, a carioca Brigitte Mayer, de 57 anos, consolidou-se como a primeira surfista brasileira profissional da história, escancarando as portas para nomes como Silvana Lima, Andrea Lopes, Jacqueline Silva e Maya Gabeira — recordista em ondas gigantes.

Hoje, uma promessa brasileira da modalidade é destaque da WSL (World Surf League) 2026: Luana Silva, de 22 anos, é a única representante do país na elite feminina do surfe mundial. Ganhadora da Tríplice Coroa Australiana ao lado do campeão olímpico Gabriel Medina, ela chega à etapa brasileira do Circuito Mundial — que começa nesta sexta-feira (19) em Saquarema, no Rio de Janeiro — mostrando boa fase em meio a um maior protagonismo feminino no esporte.


Luana Silva comemora boa performance ao lado do técnico Leandro 'Grilo' Dora Beatriz Ryder/WSL

Após quebrar o jejum de quase duas décadas e assumir a liderança do ranking da WSL na etapa da Austrália, em maio, Luana conta que passou a enxergar seu lugar entre as melhores do mundo mais recentemente. “Agora eu tô acreditando que eu mereço estar aqui, porque eu já fiz três finais na minha carreira. Então, agora que eu tô acreditando, agora que eu tô realizando. Eu mereço estar aqui, mereço estar entre as melhores do mundo”, afirma.

Para algumas atletas, no entanto, entrar no mar ainda significa provar que pertencem àquele espaço. “Acontece muito de você entrar na água, não deixarem você pegar onda, te desrespeitarem, te tirarem como um ‘enfeite’ que está ali dentro da água”, conta a surfista Maya Carpinelli, de 19 anos, outra promessa da modalidade.


Primeira campeã da história do surfe nos JASC (Jogos Abertos de Santa Catarina), a jovem se destaca atualmente pelo free surf internacional, com sessões em picos desafiadores, como os tubos de Teahupo’o, no Taiti.

Uma das promessas da modalidade no Brasil, Maya Carpinelli vive o surfe desde a infância Arquivo pessoal/Maya Carpinelli

A jovem, que é natural de Garopaba, em Santa Catarina, começou a praticar o esporte aos 9 anos, após compartilhar com o pai o desejo de ocupar um espaço que, até então, era direcionado ao irmão mais velho. “Pai, mas eu quero surfar, me bota para surfar, eu quero”, relembra.

Dois anos depois da investida, ela passou a frequentar uma escolinha de surfe e, em apenas um ano, começou a participar de campeonatos regionais e já enxergava o surfe como uma profissão.

Desigualdade estrutural

No fim dos anos 1990, a desigualdade aparecia até nos detalhes mais básicos das competições. Segundo Diolanda Vaz, de 69 anos, presidente da ABSF (Associação Brasileira de Surfe Feminino), as mulheres pagavam o mesmo valor de inscrição que os homens, mas recebiam premiações inferiores e competiam nos piores horários do mar.

Diolanda Vaz, de 69 anos, é presidente da ABSF (Associação Brasileira de Surfe Feminino) Arquivo pessoal/Diolanda Vaz

“Enquanto os meninos ganhavam blocos [pranchas] e premiações melhores, as meninas ganhavam um chinelo surrado que estava na vitrine, masculino ainda. Achava aquilo um absurdo”, relembra.

Parte dessas diferenças começou a ser corrigida nas últimas décadas. Em 2019, a WSL se tornou a primeira liga global de esportes profissionais a garantir igualdade de premiação entre homens e mulheres. Atualmente, atletas das duas categorias recebem os mesmos valores em cada etapa do Circuito Mundial.

Diolanda conta que as baterias femininas antigamente costumavam acontecer quando as condições das ondas já estavam ruins. “Sempre as colocavam para competir na hora do pior horário do mar, quando a maré ia dar uma baixada”, afirma.

Foi dessa indignação que surgiu, oficialmente em 2001, a ABSF. A entidade nasceu da mobilização de mães, atletas e surfistas que buscavam espaço em um cenário dominado por homens. “Eu queria fazer uma paulista, uma municipal, uma coisa pequena. Mas as meninas falaram: ‘Não, faz uma brasileira’”, revela.

Sem estrutura e antes mesmo da popularização da internet, ela escreveu o estatuto da associação em um computador emprestado por amigos e enviou o documento pelo correio para coletar assinaturas de surfistas espalhadas pelo país. “O nosso estatuto fez um tour. Foi para o Havaí, Ubatuba, Santa Catarina, litoral sul, até voltar para mim para conseguir registrar”, conta.

A criação também coincidiu com um momento de transformação do esporte no país. Nos anos 2000, o surfe brasileiro começou a ganhar projeção internacional, movimento que resultou na ascensão da Brazilian Storm, a Tempestade Brasileira do surfe, geração masculina liderada por nomes como Gabriel Medina, Adriano de Souza e Ítalo Ferreira. Enquanto isso, as mulheres ainda lutavam por espaço em campeonatos, premiações e patrocínios.

Mas, apenas em 5 de agosto de 2001, ocorreu a primeira competição de surfe feminino dividida por categorias do Brasil, na Praia do Tombo, no Guarujá, no litoral paulista. A competição foi uma das pioneiras em oferecer às surfistas prêmios mais justos, como pranchas e kits de surfe.

Inclusive, teve premiação em dinheiro. E, quando eu dei premiação em dinheiro, lá em 2001, tinha gente falando que eu não podia fazer isso porque era amador. E eu falei: ‘Não, eu vou fazer, o campeonato é meu, é da Associação Brasileira de Surf Feminino. Vou fazer premiação em dinheiro’. E dei

Diolanda Vaz

De lá pra cá, surgiram outras atividades em prol do surfe feminino, como a primeira escola exclusiva para meninas, a Hot Girls Surf School, em Guarujá (SP). O projeto oferecia uma formação que ia além das aulas no mar, com atividades de surfe, yoga, skate, primeiros socorros, educação ambiental e viagens de treinamento. As alunas passavam por diferentes etapas de aprendizado, que iam desde o longboard às pranchas menores. A iniciativa buscava ampliar a presença feminina no esporte e formar novas gerações de surfistas.

Presença feminina além-mar

Suzana Till é uma das pioneiras em buscar soluções voltadas para as necessidades das mulheres no surfe Divulgação/Gabriel Concato

Desde a prancha oca criada por Tom Blake nos anos 1920 até a popularização das triquilhas nos anos 1980, as principais transformações no desenvolvimento das pranchas também foram conduzidas por homens.

Essa realidade motivou a designer e shaper Suzana Till a buscar soluções voltadas para as necessidades das mulheres. “Tem detalhes que só a gente percebe. O corpo feminino entende do corpo feminino. Eu acho que são detalhes que os homens, às vezes, deixam passar, e que são muito importantes para que a gente consiga entrar nesse mercado com diferencial”, comenta.

A prática de desenvolver os equipamentos, liderar projetos, disputar circuitos internacionais e participar das decisões sobre o surfe também faz parte da luta da categoria no esporte. Para Suzana, a presença feminina precisa alcançar essas áreas e o desenvolvimento técnico.

O movimento também começa a ser percebido fora das competições. Segundo Suzana, o número de mulheres produzindo pranchas vem aumentando gradualmente. “Eu acho que está crescendo exponencialmente. A cada três meses eu descubro novas shapers”, afirma.

A presidente da ABSF também destaca que o surfe feminino passou a ocupar espaços fora da água. Segundo ela, mulheres hoje atuam na arbitragem, produção de eventos, fotografia, psicologia esportiva e gestão dentro do esporte. “Estamos conquistando bastante espaço nessa parte também. Hoje, já temos bastante mulheres no staff técnico e produzindo grandes eventos”, conta.

Image (full-screen) | Title "GRÁFICO 2: "A evolução das pranchas de surfe"

Ascensão construída onda por onda

A presença feminina brasileira no circuito internacional foi avançando e cresceu ainda mais nos últimos anos. Agora, a nova geração tenta ampliar ainda mais esse espaço. Luana cresceu olhando para referências que antes quase não existiam, entre elas Tatiana Weston-Webb, que foi medalha de prata nas Olimpíadas de 2024. “A Tati me inspirou desde pequena. Ela nunca teve medo de errar, de perder ou de defender aquilo em que acredita.”

Campeonato promovido pela ABSF entre 2003 e 2004, na praia de Itamambuca (Ubatuba/SP), teve a primeira juíza mulher Arquivo pessoal/Diolanda Vaz

Nascida no Havaí e filha de pais brasileiros, ela vive o surfe desde a infância e considera o esporte seu estilo de vida. Ele tem se consolidado como destaque mundial da modalidade após representar o Brasil nas Olimpíadas de Paris 2024 e ser a primeira brasileira campeã mundial Pro Júnior da WSL.

A surfista faz parte de uma geração que já chega ao circuito com mais estrutura, visibilidade e apoio técnico. “A minha geração está sem medo de perder, sem medo de puxar o limite. As meninas estão andando de aéreo, indo no tubo, indo para a cabeça mesmo.”

Para Maya, essa mudança ganhou força principalmente nos últimos cinco anos, quando atletas mais jovens passaram a treinar manobras consideradas, até pouco tempo atrás, quase exclusivas do surfe masculino. “As meninas começaram a mostrar que conseguem dar aéreo tão bem quanto os homens. Hoje existe uma mentalidade diferente. Antes, parecia que falavam para a gente não tentar porque provavelmente ia cair.”

Segundo Diolanda, a evolução técnica das atletas está diretamente ligada ao aumento de oportunidades e treinamentos específicos para mulheres. Ela cita projetos como o Talento Feminino, iniciativa apoiada pela CBSurf (Confederação Brasileira de Surfe), que identifica jovens atletas em diferentes estados brasileiros e oferece preparação técnica, psicológica e física.

“A nova geração está muito afiada. Hoje, as meninas treinam aéreo, treinam em piscina de ondas e chegam às competições com uma preparação que antes não existia”, afirma a presidente da ABSF.

O avanço técnico também veio acompanhado de mudanças estruturais. A reformulação da CBSurf e do Dream Tour, que foi fundido à Taça Brasil e agora funciona integrado ao novo Campeonato Brasileiro de Surfe (Surf Brasil), ajudou a ampliar a profissionalização do circuito e abriu novas possibilidades para as atletas.

Maya Carpinelli também conta que projetos recentes passaram a oferecer suporte para treinamentos internacionais, acompanhamento técnico e experiências fora do Brasil. “Hoje tem atletas indo para o Havaí com tudo pago: treinador, alimentação, casa. Isso faz toda a diferença para formar um atleta”, complementa.

Luana avalia que o cenário encontrado pelas jovens surfistas hoje é mais favorável do que quando iniciou a carreira. “O surfe cresceu muito nos últimos dez anos. Tem mais gente assistindo, mais marcas investindo e mais oportunidades surgindo a cada temporada”, diz.

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Remar e lutar

“Você perde muito mais do que ganha”, resume Maya Carpinelli ao falar sobre a pressão psicológica das competições. “Teve época em que eu saía da água chorando. O surfe é a coisa que eu mais amo no mundo, e eu não estava conseguindo encontrar felicidade ali.”

A surfista conta que, por um período, a cobrança por resultados transformou completamente sua relação com o esporte. “Se você não consegue equilibrar o surfe como profissão e o surfe como prazer, aquilo te consome”, diz. Atualmente, ela faz acompanhamento psicológico esportivo e considera o suporte mental indispensável para atletas de alto rendimento.

Luana também aponta o aspecto psicológico como um dos maiores desafios da carreira. “Eu fazia as mesmas coisas que outras meninas da minha idade, mas parecia que eu não acreditava em mim dentro das baterias”, relembra. “Agora, eu entro pensando: é só mais uma adversária.”

Além da pressão emocional, as atletas, especialmente as iniciantes, ainda enfrentam dificuldades financeiras para sustentar a carreira competitiva. Viagens internacionais, inscrições, equipamentos e temporadas de treino no exterior continuam sendo obstáculos para muitas surfistas brasileiras.

"ASPAS - DESAFIOS PARA O CRESCIMENTO DO SURFE FEMININO"

Diolanda também aponta a falta de patrocinadores como um dos principais problemas para a evolução da categoria. “Hoje, as meninas pegam apoio daqui, apoio dali. Mãe faz rifa, pai corre atrás. O que falta é patrocínio”, reflete.

Apesar dos avanços, ela afirma que o machismo ainda faz parte da realidade de muitas surfistas, dentro e fora das competições. “Ainda existem locais muito machistas”, comenta.

A realidade também aparece nos bastidores da indústria. “Eu saí do meio do yoga, vindo de situações de assédio, de abuso, que tinham me deixado muito traumatizada, e fui parar num meio que é um dos mais machistas de todos”, relata Suzana. Segundo ela, o preconceito faz parte da rotina profissional. “Você tem que ter muita resiliência, porque é o dia inteiro você sendo questionada.”

Para Diolanda, o objetivo agora é ampliar ainda mais o espaço das mulheres no cenário internacional. “Elas querem chegar lá em cima, conquistar a lycra amarela”, afirma. “E eu acredito que, nos próximos anos, a gente vai ter ainda mais brasileiras chegando lá.”

Apesar disso, Luana conta que o crescimento do surfe feminino envolve a capacidade de inspirar novas gerações. “Eu sei o quanto é difícil chegar até aqui, então fazer diferença na vida de outra garota é muito especial. Faça o que você ama e faça por diversão. Eu não estaria aqui se não amasse o que faço”, conclui.

  • Diretora de Conteúdo Digital e Transmídia: Bia Cioffi
  • Coordenadora de Produções Originais: Renata Garofano
  • Redator: Monise Souza
  • Editora: Júlia Ramos
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  • Arte: Gabriela Lopes Oliveira
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