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Venezuela Bastidores de uma reportagem em território hostil. Arte R7

Estúdio|Lumi Zúnica, do Núcleo Investigativo da Record

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A captura de Nicolás Maduro repercutia em todos os noticiários. A operação comandada pelo governo dos Estados Unidos ocorreu na madrugada de sábado, 3 de janeiro, e terminou com a prisão do presidente da Venezuela e de sua esposa, Cilia Flores.

No mesmo dia, às 17h50, uma equipe da RECORD — composta pelo apresentador e jornalista Roberto Cabrini, o jornalista investigativo Lumi Zúnica e o cinegrafista Lúcio Severino — embarcou no Terminal 2 do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.


O destino? Bogotá, na Colômbia, seguindo no dia seguinte para Cúcuta, na fronteira com a Venezuela. Por que a Colômbia? O espaço aéreo venezuelano estava fechado devido à operação militar.

Na bagagem da equipe, além de equipamentos, havia um turbilhão de incertezas sobre os desdobramentos daquela missão.


Domingo, 4 de janeiro: chegada a Cúcuta

Localizada no extremo leste da Colômbia, Cúcuta faz divisa com a Venezuela por meio da Ponte Internacional Simón Bolívar. Do lado venezuelano da ponte fica San Antonio del Táchira.

A equipe permaneceu em Cúcuta até quarta-feira, 7 de janeiro, abastecendo a emissora com informações sobre a tensa situação na região — sempre do lado colombiano da fronteira. Durante todo esse período, a equipe da RECORD compartilhou com dezenas de jornalistas vindos de várias partes do mundo a angústia e a frustração de ter que narrar os fatos à distância. Era jornalismo às cegas.


A proibição da entrada de jornalistas na Venezuela era rigorosa. Soldados armados vigiavam a ponte e impediam a passagem dos profissionais da imprensa.

Alguns arriscaram atravessar, mas foram obrigados a apagar as poucas imagens que conseguiram gravar e a retornar. Pelo menos 14 jornalistas foram detidos.

Em um território onde mais de 400 veículos de comunicação foram fechados nas últimas duas décadas, o cenário era previsível.

Os venezuelanos que circulavam pela ponte se recusavam a falar. Nos olhos, um temor profundo — o medo de retaliações.

Controle rígido Presença militar reforçada na fronteira Colômbia–Venezuela em meio à escalada de tensão. Lumi Zúnica/RECORD

Terça feira 6 de janeiro: construindo a rede de apoio

Especialistas, que permanecerão no anonimato, auxiliaram a equipe da RECORD, a partir da Europa, na montagem de uma complexa logística para a entrada na Venezuela. Não havia garantias, apenas uma pequena janela de oportunidade.

Foi formada uma rede de contatos estratégicos: um motorista do lado colombiano; outro responsável por conduzir o grupo desde a imigração venezuelana até Santo Antonio e, depois, ao aeroporto da cidade; além disso, uma equipe de três pessoas que atuaria como guia em Caracas.

Toda a estrutura era comandada à distância por um ex-militar com vasto conhecimento do território. A tentativa seria de entrada legal no país.

No entanto, houve advertências. Não seria permitido portar câmeras, microfones, notebooks ou quaisquer equipamentos que denunciassem a condição de jornalistas. Também foi alertado que o grupo seria submetido a uma entrevista com policiais da imigração e que celulares e redes sociais seriam inspecionados.

Os desafios na Venezuela

Sem equipamentos profissionais, foi necessário encontrar um recurso discreto para gravar a reportagem. A solução foi a compra de telefones celulares idênticos e de fácil identificação. Dois aparelhos foram escolhidos na cor verde. Em um deles seriam gravadas imagens de turismo; no outro, o conteúdo da reportagem.

A razão dessa escolha estava na possibilidade de serem vistos por policiais durante as gravações. Em uma eventual abordagem, o celular utilizado para a reportagem seria guardado no bolso e, caso fosse solicitado, seria entregue o outro aparelho, contendo apenas registros turísticos. A cor ajudaria a reforçar a percepção de que se tratava do mesmo telefone visto antes da abordagem.

Outra medida drástica foi a exclusão dos aplicativos de comunicação, especialmente o WhatsApp, já que os telefones seriam revistados na imigração.

A qualidade do áudio era outra preocupação, solucionada com o apoio da equipe, que forneceu um microfone de lapela compatível com celulares.

Para a transmissão dos vídeos, a intenção inicial era adquirir chips de telefonia móvel na Venezuela, mas a reportagem descobriu que apenas residentes podem comprar linhas telefônicas no país.

Quanto à rotina, após cada gravação, os vídeos seriam transmitidos imediatamente e apagados dos celulares. No entanto, diante da impossibilidade de obter chips locais, isso não foi viável. As transmissões passaram a ser feitas apenas à noite e durante a madrugada, utilizando o wi-fi precário do hotel.

Ser flagrado com as gravações poderia resultar em prisão, e manter as imagens armazenadas por horas antes da transmissão aumentava significativamente os riscos e a tensão.

Microcâmera

O único equipamento levado, além dos celulares, foi uma microcâmera adaptada a um par de óculos. Foi com ela que a RECORD obteve imagens do prédio da imigração, onde o grupo permaneceu por mais de 6 horas antes de conseguir entrar na Venezuela.

Imigração venezuelana Seis horas de espera, entrevistas repetidas e a incerteza sobre a entrada no país. Lumi Zúnica/RECORD

Entrada: entrevista ou interrogatório?

Às 17h da quarta-feira, a equipe chegou a uma fileira de cabines dispostas como pedágios, onde policiais armados, acompanhados por cães, fiscalizavam os veículos e ordenavam que estrangeiros desembarcassem e se dirigissem ao prédio da imigração.

As autoridades cobraram os passaportes, a carta-convite de um residente na Venezuela e outros documentos. Ali, surgiu o primeiro obstáculo: a carta-convite havia sido emitida por um estrangeiro residente no país, quando a exigência era que fosse de um venezuelano nato.

O contato local foi acionado e, após uma espera angustiante de 2 horas, a carta foi substituída por um documento válido.

Ainda assim, o grupo permaneceria na imigração até as 23h, a maior parte do tempo aguardando a entrevista. Por mais de 90 minutos, a equipe respondeu repetidamente as mesmas perguntas. A cada pausa do militar, surgia a dúvida: os jornalistas conseguiriam entrar no país?

Os momentos mais tensos ocorreram quando o agente examinou o passaporte do apresentador Roberto Cabrini e encontrou um visto dos Estados Unidos e quando tentou acessar as redes sociais do grupo. Aquilo poderia ter sido o fim da viagem, mas a conexão precária de internet acabou ajudando a equipe.

Não era possível revelar que eram jornalistas. A história apresentada era outra: dois aposentados visitando a Venezuela. Os detalhes ficaram por conta da imaginação.

Às 22h50, faltando apenas 10 minutos para o fechamento da fronteira, os vistos foram finalmente aprovados. Antonio — nome fictício do motorista que os havia transportado a partir da Colômbia — conduziu o grupo até o Hotel Internacional, no centro de Santo Antonio del Táchira.

No caminho, a equipe da RECORD parou em um carrinho de cachorro-quente e hambúrgueres, onde jantou e registrou, pelo celular, as primeiras impressões de venezuelanos.

A hospedagem incluía diárias simples, banho de água gelada, instalações modestas e ausência de café da manhã.

Quinta-feira, 8 de janeiro: chegada a Caracas

Às 5h da manhã, Antonio conduziu o grupo até o aeroporto, onde o embarque ocorreu às 9h, em um voo da companhia Estelar.

Cerca de 1 hora depois, já no aeroporto de Caracas, o grupo foi recebido por dois contatos locais. Mais tarde, um terceiro integrante se juntaria à equipe. Um deles era responsável pela segurança, outro pelo transporte e o terceiro atuava como elo de comunicação com o coordenador militar no exterior.

Sua função era informar cada deslocamento e aguardar autorização para definir se o grupo poderia ou não acessar determinados locais e em que condições. Cabia a ele avaliar se seria possível descer do veículo ou apenas gravar do interior, o tempo máximo de permanência em cada ponto e o momento exato de abortar as ações.

Naquela quinta-feira e nos dias subsequentes, a equipe testemunhou cenários que marcariam a história da Venezuela.

Danos no principal porto da Venezuela Acesso fechado e estruturas danificadas no porto estratégico da Venezuela. Lumi Zúnica/ RECORD

Os locais atacados

La Guaira: primeiro alvo dos ataques

Nos quatro dias seguintes, o grupo percorreu locais atingidos por mísseis norte-americanos.

No estado de La Guaira, região próxima a Caracas, a equipe foi até o porto de mesmo nome, o principal do país. O acesso estava fechado, mas foi possível registrar as grades de proteção retorcidas pelo impacto do ataque.

Ainda em La Guaira, o grupo seguiu até a rua Suplé, em um bairro da periferia, onde um prédio residencial de quatro andares havia sido severamente danificado. Oito apartamentos foram destruídos. Uma moradora de 80 anos, Rosa Gonzales, morreu, e outra vítima ficou gravemente ferida.

Marcas do bombardeio em área urbana da Venezuela Imagens registradas pela equipe mostram os efeitos do bombardeio norte-americano em área civil. Reprodução/ RECORD

Operários do Estado trabalhavam na retirada dos escombros. Prédios no entorno estavam crivados por fragmentos balísticos, com janelas quebradas e telhados parcialmente destruídos. A cena era de guerra.

Algumas entrevistas chegaram a ser gravadas, mas a aproximação de seis policiais interrompeu a ação. Alertado pela equipe de apoio, o grupo deixou o local rapidamente. O nervosismo aumentou ao perceber que um dos policiais passou a segui-los de motocicleta. Após alguns minutos, a perseguição cessou.

Outro ponto bombardeado foi a Base Aérea de La Carlota, uma das principais fortificações militares da capital. O ataque teve como objetivo a destruição de baterias antiaéreas. O local estava sob vigilância rigorosa de soldados, e a orientação recebida foi clara: as imagens só poderiam ser gravadas de dentro do carro, em movimento.

Sem qualquer estabilizador de imagem, o tremor das gravações tornou-se um grande obstáculo — uma dificuldade recorrente ao longo de toda a viagem. Descer do veículo estava fora de cogitação, sob risco imediato de prisão.

Mesmo assim, foi possível identificar vestígios do ataque, como ônibus queimados, árvores derrubadas e instalações militares atingidas.

O ataque deixou ônibus carbonizados e destruição ao redor Entre os destroços, ônibus destruídos revelam a dimensão dos ataques. Reprodução/RECORD

Seguindo a rotina, a equipe dirigiu-se ao Fuerte Tiuna, o maior e mais importante complexo militar da Venezuela. O local abriga um dos bunkers em que Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, pretendiam se refugiar. Foi ali que 32 cubanos de sua escolta teriam sido mortos, além de outros 90 soldados venezuelanos.

Com a segurança reforçada, era impossível se aproximar a menos de 1 quilômetro do complexo. Em um acesso alternativo, foi possível chegar à área residencial dos militares e a algumas instalações secundárias. Seguindo as instruções do contato local, as gravações foram feitas exclusivamente do interior do veículo.

Praça Venezuela e Praça Altamira: apoiadores e oposição

A reportagem buscava ser o mais isenta possível, ouvindo tanto apoiadores quanto opositores de Nicolás Maduro.

Com esse objetivo, a equipe seguiu até a Praça Venezuela, no centro de Caracas, onde milhares de apoiadores do presidente participavam de uma manifestação, portando faixas e fotografias. Contando com a sorte, o grupo se misturou à multidão e conseguiu realizar diversas entrevistas, entre elas a do prefeito de La Guaira, figura de destaque da política nacional.

Em seguida, a equipe deslocou-se até a Praça Altamira, tradicional ponto de encontro da oposição, onde costumavam ocorrer comícios contra o regime. O local, no entanto, estava vazio.

Não foi possível encontrar opositores dispostos a conceder entrevistas. O receio era compreensível: no dia 3, havia sido publicado um decreto que declarava o “Estado de Conmoción”, uma espécie de estado de emergência, alertando que manifestações ou pronunciamentos desfavoráveis ao governo poderiam resultar em prisão e apreensão de bens.

As incursões continuaram por bairros de alto padrão, como Las Mercedes e La Lagunita, além da prisão de El Helicoide e da favela 23 de Janeiro, considerada uma das mais perigosas da capital por abrigar diversos “colectivos” — grupos paramilitares armados, formados em grande parte por criminosos.

Toda a reportagem foi gravada com um único aparelho celular, utilizando um microfone de lapela simples, fornecido pela equipe de apoio.

Saída ou Extração

Precisávamos deixar a Venezuela antes de a reportagem ir ao ar no Domingo Espetacular. Nosso voo da Companhia Estelar sairia às 11h do Aeroporto Internacional Simon Bolívar, mas o risco de prisão havia aumentado muito. Nosso contato avisou que estrangeiros estavam sendo submetidos a entrevistas a procura de jornalistas.

Mas nosso contato mostrou a força da sua influência na madrugada de domingo quando nos informou que embarcaríamos pelo “Corredor diplomático”, destinado apenas a diplomatas e autoridades venezuelanas.

Chegando ao aeroporto por uma entrada privativa um homem elegantemente trajado com paletó vinho e calça cinza nos aguardava do lado de fora. Ele nos levou até um balcão quase vazio, no qual despachamos as bagagens e carimbamos a saída.

Em seguida, a reportagem foi levada pelo mesmo homem até uma sala VIP, em que tomou café e aguardou até o retorno às 10am, quando a guiou para uma área com um scanner corporal e um detecto de metais. Logo, o grupo da RECORD estava na área exclusiva de embarque.

A tensão só baixou depois de o avião decolar com uma hora de atraso. Pousar no Panamá trouxe uma sensação de segurança e dever cumprido.

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