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Estúdio|Eloá Fernandes, Laura Prates, Luis Machado, Nickolas Vilela e Yasmin Gomes, alunos de Jornalismo da ESPM São Paulo.

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“Meu pai contava que algumas pessoas choravam ao comer a comida. Eles (clientes) diziam que estavam comendo a mesma comida do Líbano. Chegavam lá e iam beijar a mão da minha mãe.” Assim começa a nossa conversa com Regina Maatouk, hoje chef e proprietária do restaurante Alice Monte Líbano.

O negócio abriu em 1973, em uma porta na Rua Basílio Jafet, travessa da Rua 25 de Março, local conhecido pelo comércio popular de São Paulo. Dona Alice e seu Halim Maatouk vieram do Líbano na década de 1970. Hoje, o restaurante mudou de endereço e está na Vila Olímpia, mas as receitas de Dona Alice continuam vivas na cozinha e na memória.


A história dos Maatouk é apenas uma entre milhões. Do final do século 19 até os dias atuais, sucessivas ondas migratórias vindas do Líbano atravessaram guerras, crises econômicas e instabilidades políticas para recomeçar a vida em outro país.

O Brasil abriga hoje a maior comunidade de libaneses e descendentes fora do Oriente Médio. Por muito tempo, as estimativas careceram de embasamento científico: o governo brasileiro calculava, sem metodologia declarada, entre 7 e 10 milhões de pessoas. O quadro ganhou mais rigor em julho de 2020, quando a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira encomendou ao IBOPE Inteligência e à H2R Pesquisas Avançadas o primeiro levantamento nacional sobre o tema.


O estudo identificou 11,6 milhões de árabes e descendentes no país (cerca de 6% da população nacional), dos quais 27% declararam origem especificamente libanesa — aproximadamente 3,2 milhões de pessoas. Esses dados dimensionam o fluxo migratório que atravessou séculos.

Do Império Otomano às Terras do Café: a chegada dos “turcos”

O primeiro contato entre brasileiros e libaneses teria ocorrido durante a visita de D. Pedro II às terras libanesas, em 1876. No Museu Imperial de Petrópolis há cadernos de estudos da língua árabe, desenhos de rotas e, é claro, fotografias — uma das paixões do monarca.


A imigração em massa teve início no final do século 19 e ganhou força nas três primeiras décadas do século 20. Naquela época, o atual território do Líbano integrava o Império Otomano. O cenário era marcado por instabilidade política, dificuldades econômicas e tensões religiosas. O Brasil surgia como uma promessa, pois o país vivia a transição da monarquia para a república e exibia uma economia em franca expansão, liderada pelo café.

Ao chegarem ao país, esses imigrantes eram frequentemente identificados como “turcos”, em razão dos passaportes emitidos pelo império, uma classificação que, além de imprecisa, carregava conotações pejorativas.

“Era uma maneira negativa de se referir a essas pessoas, inclusive no começo do século 20”, explica o jornalista e pesquisador Diogo Bercito, autor de dois livros sobre a história da imigração libanesa no Brasil.

Embora as estimativas da primeira era migratória variem entre 100 mil e 140 mil ingressos oficiais, os pesquisadores alertam para a complexidade desse recorte.

“A grande migração mesmo foi no começo do século 20. E eu não diria libanesa, porque vieram também muitos sírios e muitos palestinos. Essas três comunidades se misturaram muito, então é difícil fazer um recorte exclusivamente libanês”, esclarece a historiadora Silvia Antibas, diretora do Projeto Memória da Imigração Síria e Libanesa.

Veja abaixo a linha do tempo da imigração libanesa no Brasil:

Um momento delicado dessa história ocorreu durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, que transformou comunidades imigrantes em alvo de vigilância cultural. O ensino de idiomas estrangeiros foi proibido, jornais em árabe deixaram de circular e famílias passaram a “aportuguesar” sobrenomes e hábitos como forma de proteção e assimilação. O preço do pertencimento foi, muitas vezes, o apagamento parcial da própria memória.

Hoje, pesquisadores ligados ao Projeto Memória da Imigração Síria e Libanesa no Brasil reconstroem essa trajetória. Em parceria com a Universidade de Kaslik (USEK), no Líbano, a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira coordena um processo de digitalização de arquivos históricos, cartas, jornais, fotografias e documentos migratórios espalhados pelo Brasil e por outros países da América Latina.

“Esse projeto é uma oportunidade única de revermos as fontes e identificarmos novos vieses dessa história, que a própria academia ainda não conhecia ou aos quais não tinha acesso”, afirma Christina Queiroz, coordenadora do Projeto Memória da Imigração Síria e Libanesa.

O mascate, o café e a culinária

A iconografia clássica do imigrante árabe no Brasil é a do mascate: o homem destemido que, sem falar o idioma, cruzava estradas com malas pesadas, vendendo armarinhos, tecidos e utilidades domésticas. Embora o comércio ambulante tenha funcionado como uma importante engrenagem de inserção urbana e gerasse enclaves célebres como a paulistana Rua 25 de Março — que inclusive ficou conhecida como “rua dos turcos” —, novas pesquisas desafiam o monopólio dessa narrativa.

Muitos trabalhavam na colheita do café, eram proprietários de fazendas ou atuavam no beneficiamento do grão no interior de São Paulo

Diogo Bercito, jornalista e pesquisador

O campo dividia espaço com o balcão. Mas, na cidade, a vocação mercantil sobressaía. De acordo com os registros históricos preservados pela Câmara Árabe, o tino comercial tinha raízes culturais milenares ligadas à circulação de mercadorias pelo Mediterrâneo. Em São Paulo, o crescimento demográfico acelerado e a circulação de capital gerada pelo café transformaram a metrópole no epicentro ideal para esse ecossistema de negócios.

Outro marcador cultural importante é a culinária. Grande parte das mulheres libanesas trouxe, nas malas e no coração, receitas que se tornaram patrimônio familiar. Elas são as guardiãs desse conhecimento. Talvez por isso existam tantos restaurantes libaneses no Brasil.

Diogo Bercito alerta que não é apenas a culinária que atravessa o Atlântico: “São saberes que acompanham as receitas”.

As especiarias são o grande destaque da culinária árabe. Conheça os principais temperos, raízes e grãos.

Na casa de Patrícia Nassif Cury, a comida foi um elemento de união familiar desde sua infância. Brasileira e neta de libaneses, ela cresceu cercada por vestígios da imigração, mas não enxergava essa herança com clareza. Foi apenas quando se mudou para São Paulo e passou a integrar uma comunidade libanesa maior que começou a investigar a própria história.

A virada de chave aconteceu durante uma viagem ao Egito. O jeito de negociar e suas características físicas fizeram com que ela se sentisse parte de um mundo até então distante.

“Já te falaram que você parece muito com alguém daqui?”

A pergunta a levou a refletir sobre sua identidade, sua origem e suas raízes.

“Se todo mundo me reconhece, se todo mundo sabe, por que eu não sei?”, relembra.

A partir daí, Patrícia começou a pesquisar a árvore genealógica da família, aprofundou-se na história do Líbano e passou a aprender árabe. Esse processo de resgate identitário não é incomum entre descendentes de imigrantes e demonstra como, mesmo depois de mais de 100 anos desde a primeira migração de sua família, a identidade cultural permanece viva.

Mais libaneses que brasileiros

Hoje, o Brasil continua recebendo imigrantes libaneses. É o caso de Samah El Khatib, que chegou ao país em 2011, com 21 anos. Ela se mudou após se casar com um libanês que havia imigrado ainda criança para o Brasil.

Ao recordar os primeiros meses no país, as memórias surgem em fragmentos: ônibus errados, ruas desconhecidas, medo de não conseguir voltar para casa e horas circulando sem compreender o funcionamento da cidade.

Mas, assim como ocorreu com os primeiros imigrantes, as redes sociais hoje fazem a ponte entre o profissional e o cliente. Samah é maquiadora e divulga seu trabalho on-line, uma forma de construir sua trajetória profissional sem abandonar a própria identidade.

O bairro do Canindé, na zona norte de São Paulo, abrigou muitos portugueses no início do século 20. Hoje, porém, é um restaurante libanês que movimenta suas ruas. O Beit Jede — ou, em tradução livre, “a casa do vovô” — é um espaço onde os visitantes podem saborear a culinária libanesa e dançar ao som de músicas típicas.

Fomos até lá para conhecer a história de Moussa Atwi, que chegou ao Brasil em 2015. Confira o minidocumentário abaixo.

A imigração libanesa para o Brasil não foi um acontecimento histórico isolado, mas um movimento que atravessa gerações e conecta os dois países de forma singular. Mais de um século após os primeiros navios que ligaram Beirute a Santos, essa história continua viva não apenas nos registros históricos, mas também na identidade daqueles que carregam consigo um pedaço do Oriente Médio.

Entre tradições preservadas, novos costumes e histórias que seguem sendo construídas, descendentes e imigrantes reinventam, todos os dias, o significado de ser brasileiro — sem deixar para trás as próprias raízes.

  • Diretora de Conteúdo Digital e Transmídia: Bia Cioffi
  • Coordenadora de Produções Originais:: Renata Garofano
  • Supervisor de Conteúdo Transmídia: Bruno dos Santos Oliveira
  • Coordenadora de Arte Multiplataforma: Sabrina Cessarovice
  • Arte: Gabriel Marques
  • Reportagem: Eloá Fernandes, Laura Prates, Luís Whatley Machado, Nickolas Dias, Yasmin Gomes
  • Supervisão ESPM: Heidy Vargas
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