Paredões de janelas que se erguem comendo uma fatia de céu. Placas anunciam studio, dois ou três dormitórios, vaga de garagem. Visite o decorado. Tapumes cercam o que já foi, e não é mais. Memórias se dissipam na nuvem de poeira das demolições. Este R7 Estúdio narra, em capítulos independentes, três histórias que simbolizam o processo de verticalização pelo qual passa a cidade de São Paulo: o clube Piritubão (A Lembrança), o centro de arte Atelier Paulista (A Mudança) e a vilinha da Vila Mariana (A Luta). Em seguida, um Posfácio aborda os dilemas da metrópole a partir do Plano Diretor, a lei que rege a ocupação urbana do município há mais de uma década.
Capítulo 1: A Lembrança
O GPS do carro sinaliza a chegada à avenida Cristo Rei, número 44. Os tapumes que vão de uma igreja à esquina, cercando uma vasta área aberta, indicam que estou mesmo no lugar certo. Do outro lado da rua, me posiciono para tirar uma foto que pegue tanto a placa da construtora quanto o símbolo que, cravado na parede, rememora o clube que lá existiu. Carregando um pacote da farmácia, padaria ou mercado, um homem de cabelos grisalhos e camisa vermelha se aproxima. Recuo para deixá-lo passar pela calçada, e fazemos contato visual.
“Sabe quantas torres vão ser aí?”, ele pergunta.
Serão duas torres com 760 apartamentos. Essa era a resposta, mas eu só saberia dela cerca de uma hora e meia depois, da forma mais surpreendente possível.
“Na verdade, estou fazendo uma reportagem sobre lugares que deixaram de existir e deram lugar a novos prédios. E quero falar do Piritubão”, respondo.
“Ah sim, aí era muito bom, joguei muita bola aí”, ele diz. Não seria difícil mesmo encontrar por Pirituba quem teria lembranças do clube demolido no final de 2025. Fundado no ano de 1920, tornou-se parte integrante da vida do bairro da zona noroeste de São Paulo por mais de um século. Mas houve um auge.
“Aí eram muito legais as Domingueiras. A gente chamava a menina pra dançar, aquelas músicas lentas. Isso já não tem mais hoje em dia”, recorda.
“Eu vou entrevistar logo mais o DJ das Domingueiras. Ele tem um salão de festas aqui na avenida Paula Ferreira”, informo. “O Porto? Mas ele está vivo?”, ele questiona.
Porto. Nas pesquisas sobre a história do Piritubão e o auge das Domingueiras esse é um nome quase onipresente. José Ferreira Porto, de fato, não está mais vivo, faleceu em 2015. Eduardo Porto, o filho, hoje arquiteto e empresário, é quem traz as lembranças dos tempos áureos do clube.
As Domingueiras do Piritubão começaram no final dos anos 60, uma criação do Porto pai. As festas de salão logo ganharam destaque local, impulsionadas por um show do grupo Os Incríveis, um dos mais famosos da Jovem Guarda. Eduardo nasceu em 1973 e não demorou muito para frequentar os bailes e shows.
A primeira vez em uma Domingueira foi com 10 anos de idade, em um show dos Paralamas do Sucesso. “Era um playback, né? Mas eles tinham só Vital e Sua Moto e uma outra música, era um compactozinho pequenininho. Tocou Vital e Sua Moto umas três vezes. Eu lá atrás, vendo, achei um máximo aquilo. Daí peguei gosto", revela. Não parou mais de ir. Aos 12, o pai, vendo que seria impossível proibir, determinou: já que vai, vai para trabalhar. Da iluminação passou para o som e, entre 1985 e 1986, assumiu o posto de DJ. Naquela época, o salão modesto que abrigou os primeiros shows já havia dado lugar ao ginásio, inaugurado no final da década de 70, junto com a piscina, outro acontecimento no bairro.
Eduardo acompanhou de perto toda a geração dos anos 80 do rock nacional no Piritubão: Titãs, Ultraje a Rigor, Sempre Livre, Roupa Nova. “Só o Legião Urbana que não veio”, lembra. Mas teve Faroeste Caboclo.
Naquela época, conta, o baile só parava em duas situações. Uma era a chegada da Polícia do Exército, que ia atrás de reservistas que não podiam estar na rua depois das 22h. Outra era a presença do juizado de menores. Numa dessas ocasiões, o DJ adolescente teve que se virar. Colocou para tocar uma música longa o suficiente para que pudesse se esconder até a saída dos agentes. “Lembra que música era?”, pergunto. “Possivelmente, Faroeste Caboclo”.
Nenhuma banda do rock nacional, porém, superou o público de Guilherme Arantes. “Entraram umas 4.000 pessoas, a média eram 2.000. Ele ganhou o festival com a música Planeta Água um dia antes de vir”, recorda. Uma pequena imperfeição da memória. Na verdade, Guilherme Arantes ficou em segundo no Festival da MPB de 1981, atrás de Purpurina, interpretada por Lucinha Lins. Mas era a favorita do público e a derrota gerou tanta comoção que impulsionou a carreira do artista. Inclusive, no dia seguinte.
As Domingueiras foram até 1991. Um desacerto entre Porto pai e a diretoria do Piritubão gerou a ruptura. Porto criou a casa noturna Paradise, na mesma rua, para onde migrou a família e o público. Por volta de 1996 ainda houve uma tentativa de reedição das festas, mas o auge havia mesmo ficado para trás.
O Piritubão seguiu pelas três décadas seguintes, com o número de sócios caindo, uma decadência lenta, mas decisiva. Os clubes de bairro perderam espaço para o lazer de condomínio e as academias. Quando, no ano passado, a demolição comoveu parte de Pirituba, o lugar já trazia a lembrança de bons tempos que não voltam mais.
A história de Eduardo com aquele lugar continua, se não mais com o clube, agora com o terreno.
Ele e a esposa se conheceram no Piritubão, no final dos anos 80, quando ele tinha 15 anos, e ela, 13. Como só podiam entrar maiores de 14 anos nas Domingueiras, ela usava a identidade da irmã. Os dois jovens se conheceram nos bailes e lá viveram o primeiro amor de cada um deles. O namoro logo terminou. Ele se casou e teve um filho. Ela se casou e teve dois filhos. Em 2021, durante a pandemia, o reencontro. Logo engataram um namoro e, como não se recomenda duvidar do destino, casaram-se já em 2023. Juntos, ajudaram o filho dela e enteado de Eduardo a realizar o sonho de comprar o primeiro apartamento. O prédio ainda será construído. No terreno do antigo Piritubão.
“Lembra que o cara te perguntou quantas torres vão ser? Então, a resposta é: duas torres e 760 apartamentos”, ele revela.
Capítulo 2: A Mudança
Saio da estação Sumaré do Metrô, desço a primeira à esquerda e já estou na Rua Amália de Noronha. Começa a chover, aperto o passo. Para chegar ao Atelier Paulista são apenas dois quarteirões, mas já é possível ver que naquele pedaço de Pinheiros a verticalização anda acelerada. Um corredor de tapumes cerca casas que já foram desocupadas, mas ainda não demolidas.
Quem abre a porta é Katia Speck, doutoranda em Artes Visuais pela USP e assistente do Atelier. Entro rapidamente na casa que agora em março já pode vir abaixo. A sensação é de estar em um espaço tão impregnado de arte que se teme entrar no banheiro e sujar uma réplica da Fonte de Duchamp.
A antessala da entrada funciona como uma bifurcação. À esquerda, o espaço abriga uma enorme mesa para trabalhos e reuniões, além de uma prensa, muitos livros e todo tipo de material destinado à produção artística, como tintas, tesouras, serras, recortes... À direita, três salas pequenas e contínuas de exposição, unidas por uma escada de poucos degraus que levam ao pavimento inferior. Abre-se, então, a maior sala da casa, com sofás e cadeiras para alunos dos cursos, forrada de obras do chão ao teto. Produções e memórias perpassam mais de quatro décadas.
“Foi um choque, eu não estava preparada para sair daqui. Achei que nunca sairia”, conta Branca de Oliveira, artista e pesquisadora amazonense, docente da graduação e da pós do Departamento de Artes Plásticas da USP.
Ela criou esse pequeno oásis artístico incrustado no coração de Pinheiros em 1984, logo após voltar de uma exposição em Veneza, com a amiga e também artista Marilu Beer. Marilu era argentina, assim como León Ferrari. Era ele quem ocupava o espaço à época e telefonou para as duas informando a vacância de uma parte da casa alugada. Logo León saiu, e Branca e Marilu transformaram o Atelier naquilo que ele é hoje. Ou era.
Em abril de 2025 veio a notícia de que uma construtora havia comprado o terreno para construir um novo empreendimento imobiliário. O prazo de desocupação era de 90 dias. Branca conseguiu postergá-lo para março de 2026. Nesse período, comprou uma casa no Pacaembu. A mudança, levada a cabo durante todo o mês de fevereiro e início de março, tem uma série de desafios. A começar pelo tamanho do imóvel. De 230 metros quadrados, o espaço disponível caiu para 180. Branca e Katia têm tirado fotos de cada canto do Atelier para orientar a reprodução fiel das exposições depois que quadros, pinturas, gravuras, colagens e esculturas forem parar dentro de um caminhão. Outro problema é como levar a prensa de meia tonelada. Branca conta que ela deve ser a última transportada, só depois da demolição de uma parede, com a ajuda de uma máquina conhecida como ‘braço’. La fora, a chuva aperta.
Mas talvez o desafio maior seja levar memórias de mais de 40 anos, ou descolá-las do lugar onde foram geradas. Marilu ainda está presente em cada canto do Atelier.
Nascida em Buenos Aires, ela se mudou para São Paulo em 1953. Morreu em 2019, vítima de câncer. O velório aconteceu no Atelier Paulista, onde um pequeno memorial exibe os sapatos extravagantes e característicos da artista, além de suas obras, uma delas inacabada, ou “em movimento”, como diz Branca. Sobre uma estante improvisada, caixas plásticas reúnem centenas, talvez milhares de bitucas de cigarro que contariam e ainda contam, por meio da arte, a história de uma fumante inveterada.
Branca e Marilu se completavam. A amazonense, mais conceitual, a portenha, de saber empírico, mais despojada. Branca ri ao relembrar o dia em que ministrava um curso sob os olhares de soslaio de Marilu, que aparentava não gostar do que ouvia. Até o momento em que interrompeu a aula e disse: “Isso aqui está um c...”.
A ligação era tanta entre as duas que, em 1989, às voltas com a gravidez complicada de Júlia, a primeira filha, Branca deixou de ir por seis meses ao Atelier. Marilu, então, não quis mais frequentar a casa. As duas só voltaram juntas. E não saíram mais.
Branca chegava a passar dias e noites seguidas no Atelier. Um dia, ao voltar para casa, Júlia teve uma crise de choro e não queria contato. Outras vezes, quando chegava tarde da noite, encontrava o lar marcado por recados da filha para a mãe olhar a lição de casa ou lembrar de comprar o remédio para espinhas.
Ana Maria Tavares, Regina Silveira, Carmela Gross, José Miguel Wisnik. Branca recorda com orgulho dos muitos nomes que fizeram a história do espaço, artistas residentes ou professores. Um lugar para diferentes formas de arte. E de transgressão. “Tinha umas duas artistas que eram casadas e marcavam os encontros com os amantes aqui no Atelier”, ri Branca ao revelar a memória.
Katia também recorda de momentos inusitados. Nos últimos meses, com a sanha das construtoras e o quarteirão parecendo um canteiro de obras, as quedas de energia se tornaram mais frequentes. Durante um dos cursos, acabou a luz. Branca não queria parar. Pegou velas e manteve a aula mesmo no escuro.
À mesa de reuniões, as memórias vão e vem. Katia se encarrega de conduzir as trocas de energia, internet, telefone para o novo endereço. Branca pega o celular, abre o Google Maps e olha a nova vizinhança, na Rua Catanduva.
“Será que os vizinhos vão reclamar do barulho na festa de fim de ano?”, pergunta.
“A gente convida eles”, responde Katia.
“Você precisa ir à inauguração”, pede Branca na hora da despedida. Deixo o Atelier e viro à direita rumo ao metrô. Pego o celular. Um alerta da Defesa Civil anunciava tempestades na zona oeste. Mas a chuva já passou.
Capítulo 3: A Luta
Pedro caminha pelo lugar onde passou os primeiros anos de vida. Olha para cima e avista os prédios que não existiam. Na altura dos olhos não estão mais as casas e comércios que circundavam a morada da infância. Não reconhece mais o bairro onde nasceu. Pedro tem 12 anos.
Quem conta a inusitada história, que mais parece retratar o retorno de um octogenário ao lugar de infância, é Ana Petta, atriz, cineasta e mãe do Pedro. Do Pedro e da Maria. Os dois nasceram em um lugar ameaçado pelo processo de verticalização em São Paulo. Da luta pela preservação desse espaço nasceu o documentário Amora, lançado em 2025.
O nome do filme faz referência a um personagem singular da vilinha, localizada na Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, na Vila Mariana. A enorme amoreira, de onde Pedro e Maria colhiam as amoras para fazer geleia, é uma árvore generosa. O tronco enverga-se para que as crianças subam e nele descansem, como um avô se curva suportando as dores nas costas para abraçar os netos.
Ana se mudou para a vilinha em 2003. Já estava atenta ao momento em que vagasse uma das casas originais da década de 1930 para alugar. Maria nasceu em 2007, e Pedro, em 2012. Cresceram acostumados a olhar para cima e ver o farfalhar das folhas, ouvindo a passarinhada triscar a copa das árvores, cercados pelo carinho dos vizinhos Herman e Renato e pela companhia do gato Procópio. No cenário idílico em que Pedro procurava as pistas de um tesouro deixado por piratas e convivia com duendes. A imaginação pulsante que só uma criança de 5 anos pode ter. Peripécias de uma infância glauberiana de filho de cineasta: uma câmera na mão e mil ideias na cabeça!
“A gente tinha uma relação de amizade entre os vizinhos. Quando meus filhos nasceram, eles passaram a fazer parte dessa pequena comunidade, a gente organizava festas juninas, almoços comunitários, rodas de samba. Era coisa rara de viver numa cidade como São Paulo. As crianças tinham uma vida que a vilinha proporcionava, que era uma vida comunitária mesmo”, conta Ana.
Quando Ana se mudou para a vilinha, em 2003, já se tinha a noção de que era um lugar especial e que poderia sofrer com a especulação imobiliária. O primeiro pedido de tombamento foi feito em 2006 no Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo). Em 2017 veio a notícia sempre temida pelos inquilinos: a venda para uma construtora e o prazo de um mês para deixar as casas. Ana brigou, ainda conseguiu ficar três meses no local, mas teve que sair. Na pipa presa por Pedro na traseira do caminhão de mudança residia a mesma mensagem escrita por Ana nas paredes: não deixem essa vila ser demolida.
Em 2019, a construtora consegue o alvará de demolição. Uma mobilização é feita na frente da vilinha e tem resultado. O Conpresp aprova a abertura do processo de tombamento. A partir desse momento, a demolição está embargada. Só que já se passaram quase sete anos sem uma definição. Segundo Ana, em 2025 a vilinha foi colocada na pauta do Conselho, mas foi retirada por três seções seguidas. Não há mais previsão de quando o assunto será retomado. Como não há nenhuma obrigação aos novos donos para que conservem a vilinha, ela se deteriora, sem moradores e cercada por tapumes.
Ana, porém, segue esperançosa de que esse não seja o fim da vilinha quase centenária. “Tenho uma esperança de que ela não seja demolida. Que o Conpresp aprove o tombamento e a restauração dela. E que ela seja usada para moradia ou para algum fim educacional, uma escola, um centro cultural, um centro comercial. Como muitos que têm no mundo, né? As pessoas viajam pela Europa e acham lindo entrar naqueles lugares antigos, e aqui ‘é tudo casa velha, tem que derrubar tudo’. Então, eu tenho esperança”, afirma a cineasta.
Posfácio: O Plano Diretor
A verticalização não é um processo exatamente novo em São Paulo. Considerado o primeiro prédio da cidade, o Edifício Guinle teve sua inauguração em 1913. Nas décadas de 1920 e 1930 surgiram os edifícios Sampaio Moreira e Martinelli, os primeiros arranha-céus. Mais e mais prédios foram erguidos acompanhando a industrialização e o crescimento populacional da metrópole. Em 2014, a verticalização passou a ganhar impulso por meio de uma legislação, o Plano Diretor Estratégico.
O PDE 2014, sancionado pelo então prefeito Fernando Haddad (PT-SP) e relatado pelo vereador Nabil Bonduki (PT-SP), teve como diretriz primordial o adensamento urbano em áreas próximas aos eixos de transporte público, como estações de trem e metrô e corredores de ônibus. A lógica era permitir a verticalização nesses locais para ter mais gente morando perto do transporte público, usando mais esse tipo de locomoção e menos o carro, e reduzindo os grandes deslocamentos casa/trabalho, periferia/centro.
Quase 12 anos depois da sanção da lei, números do mercado imobiliário impressionam. De acordo com pesquisa da Secovi-SP, divulgada em fevereiro, nos últimos 12 meses foram lançadas 139 mil unidades residenciais na cidade de São Paulo, um salto de 34% em relação a 2024. Mais de 60% das unidades comercializadas estão enquadradas no programa Minha Casa, Minha Vida. Já de acordo com a plataforma Data Lello, desde 2022 o município ganha, pelo menos, 700 novos condomínios por ano.
Tal expansão já não acontece sem reações na cidade. Um movimento com nome autoexplicativo, o ‘Chega de Prédios’, criado por moradores da Vila Mariana e Aclimação, pede o fim da verticalização predatória e do assédio das construtoras, já que não é incomum ver no bairro moradias com a placa ‘Esta casa não está à venda’. Já no Brooklin e no Campo Belo surgiu outro movimento com reivindicação bem clara, o ‘30 Andares Não’. Além do temor de que a proliferação dos ‘espigões’ ameace a infraestrutura dos bairros, o desaparecimento de lugares icônicos, de importante memória afetiva, também recebe críticas.
Para Nabil Bonduki, o processo de verticalização “saiu do controle” em São Paulo. “Uma série de preocupações previstas não foram adiante”, relata o vereador, que também é professor titular da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). Segundo Nabil, o mercado criou um produto imobiliário diferente do que se havia pensado para os objetivos do PDE. A ideia era ter apartamentos de tamanho médio de 80 m², limitando vagas de garagem, tendo assim moradias mais baratas e reduzindo déficit habitacional. As construtoras, segundo o vereador, encontraram mecanismos não ilegais de manejar a lei de acordo com seus interesses. Surgiram assim torres com unidades de tamanhos variados, ou muito pequenas, com menos de 30 m², ou muito grandes, com mais de 160 m² e duas ou três vagas de garagem. Houve, segundo Nabil, uma oportunidade para correção de rota, em 2023.
A Revisão Intermediária do Plano Diretor foi sancionada em julho de 2023 pelo atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB-SP), após relatoria na Câmara de Rodrigo Goulart (PSD-SP), então vereador e hoje Secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho de São Paulo. A revisão, prevista originalmente para 2021, mas adiada devido à pandemia, não agiu no sentido de frear a verticalização, pelo contrário.
De acordo com o texto do Plano Diretor de 2014, prédios mais altos podiam ser construídos num raio de até 600m das estações de trem e metrô. Na revisão de 2023, o raio foi ampliado para 700m. Já em relação aos prédios mais altos construídos perto de corredores de ônibus, o raio passou de 300m em 2014 para 400m em 2023. Outra ampliação se deu no coeficiente de aproveitamento máximo, isto é, a relação entre área útil construída e área total do terreno. Pelo texto de 2014 era possível construir, no miolo dos bairros, edifícios com duas vezes a área do terreno. Na revisão de 2023, o coeficiente passou de dois para três, permitindo edificações maiores nessas áreas.
Rodrigo Goulart não acredita que essa ampliação tenha levado o processo de verticalização a “sair do controle”, como defendeu Nabil. “Não é que houve uma expansão sem nenhum tipo de critério ou aleatoriamente. Alguns eixos, algumas das zonas de estruturação urbana que foram aumentadas, mas num raio com controle, com análise [...]. [Os casos] onde havia condição de expandir foram discutidos, foram levados às audiências públicas, e onde realmente não há condição não houve expansão”, pontua.
A reportagem ainda consultou a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, que também negou eventual “descontrole”. “O atual processo de verticalização e adensamento da cidade ocorre em conformidade com as diretrizes estabelecidas pelo Plano Diretor Estratégico de 2014 e pela Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (Lei de Zoneamento) de 2016”, respondeu em nota, sem citas as revisões do PDE, em 2023, e da Lei de Zoneamento, em 2024.
A Lei de Zoneamento é responsável pela aplicação do Plano Diretor. É ela que divide o território em zonas, estabelecendo regras específicas para construções, de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo PDE. Numa analogia que cabe ao tema, o Plano Diretor é a planta, e a Lei de Zoneamento, a obra.
No que diz respeito a lugares que estão desaparecendo da cidade, há um instrumento do Plano Diretor de 2014, mantido na revisão de 2023, criado para protegê-los. Trata-se da Zepec (Zona Especial de Preservação Cultural). Ela permite o tombamento de lugares de valor cultural, histórico, simbólico e afetivo da cidade; não se trata de um tombamento do imóvel, mas de seu uso. Nabil Bonduki cita o exemplo da Mercearia São Pedro, um bar da Vila Madalena com mais de 50 anos de história, reduto de escritores. Se enquadrado como uma Zepec, o bar poderia ter sido preservado, ainda que se construísse um prédio sobre ele. Mas isso não aconteceu. A tradicional “Merça” já não existe mais. No lugar, hoje cercado por tapumes, um novo prédio está sendo construído. O mesmo poderia ter acontecido com o Piritubão e o Atelier Paulista, retratados nessa reportagem. No caso da vilinha, trata-se de um tombamento de imóvel, o que responde a uma legislação bem anterior ao PDE.
Mais de uma década depois da sanção do PDE 2014, a cidade de São Paulo tem apenas um local reconhecido como Zepec, o Cine Belas Artes. Para outros três, o Conpresp já deliberou a abertura do processo de enquadramento, o Espaço Itaú de Cinema da Augusta, o Santa Marina Atlético Clube e o Bar Ó do Borogodó.
Rodrigo Goulart, que é conselheiro titular do Conpresp com mandato até junho, diz que as análises do Conselho, para enquadrar ou não determinado local como Zepec, precisam ser bem criteriosas, o que demanda tempo. “Há dois anos chegaram mais de 600 processos de tombamento de uma determinada região da cidade. Além desses, existem vários outros [...] e que estão sendo analisados pelo corpo técnico, estritamente técnico do Conselho [...] Então, não é que está parado, é que existe toda uma questão técnica que deve ser avaliada, tanto para o tombamento ou para o não tombamento”, argumenta.
Já para Nabil, a Prefeitura deveria ter tido uma postura mais ativa para mapear esses espaços antes que eles sucumbissem ao processo de verticalização. “Esses lugares não conseguem competir com o capital imobiliário. A tendência é desaparecer. A Prefeitura tem que se antecipar”, analisa. Ele ressalta que a sociedade também deve se mobilizar, mas no fim das contas, ela está sempre “correndo atrás do prejuízo”.
No mais recente capítulo do embate criado entre cidade e verticalização, o Órgão Especial do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) determinou, no último dia 24 de fevereiro, a suspensão imediata da emissão de alvarás para demolições e construções de novos prédios na capital paulista. A decisão diz respeito às quadras afetadas pela revisão da Lei de Zoneamento de 2024 para atender à revisão intermediária do Plano Diretor de 2023. A Câmara afirmou que vai recorrer.
Em Santana, um conjunto de casas foi desocupado e parcialmente demolido; do terreno, agora à venda, sobressaem as ruínas de memórias nunca contadas

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