Quem chega ao Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (GRAACC) em São Paulo (SP), demora alguns segundos para lembrar que está em um hospital. As paredes são coloridas, os corredores têm painéis pintados e o mobiliário foge do branco e do cinza que dominam a maioria dos prédios de saúde. Há brinquedos, espaços de convivência e voluntários de camiseta amarela e avental azul circulando por todos os andares. A escolha não é decorativa. O hospital trata crianças e adolescentes com câncer, e o ambiente foi desenhado para que o tratamento não pareça uma punição.
Referência em oncologia pediátrica no Brasil, o GRAACC é uma instituição filantrópica, sustentada por doações e parcerias. A taxa média de cura do hospital chegou a 80%, patamar que coloca o país entre os melhores índices do mundo no combate ao câncer infantojuvenil.
Foi nesse espaço que, a apresentadora da RECORD, Rafa Brites, e os jurados do Canta Comigo Teen, Graça Cunha, Laura Carolinah, Ana Preta, Lorena Alexandre, Lívia Cruz, Paloma Marques, Júuh Sales, Mikael Mendes, Ricardo Hora, Matheus Noquelli, Junior Souzza e Rose Rocha passaram algumas horas cantando com os pacientes. A ação foi organizada pelo Instituto Ressoar, e a ideia partiu da comandante do reality musical.
Papel da música no tratamento
A música é mais do que só uma forma de entreter ou distrair o paciente, ela atua como uma terapia complementar associada aos tratamentos convencionais, como a quimioterapia e a radioterapia, explica o CEO do GRAACC, Dr. André Luis Negrão Albanez.
“Todo o movimento de ludoterapia e de descompressão é fundamental para as crianças. O tratamento é um momento muito difícil, elas ficam sob forte tensão, e a gente tenta deslocar o foco delas da doença para as coisas lúdicas. Cantar, brincar e contar histórias faz com que a criança diminua o estresse, e assim, diminuímos vários hormônios prejudiciais, como o cortisol, e essa regulação hormonal faz com que até a terapia responda melhor. Por isso, para nós, é de extrema importância tratar brincando, cantando e se divertindo. Isso é essencial para o bem-estar e até mesmo para a cura delas”.
“O tratamento é um momento muito difícil, as crianças ficam sob forte tensão, e a gente tenta deslocar o foco delas da doença para as coisas lúdicas. Cantar, brincar e contar histórias faz com que diminua o estresse, e assim, diminuímos vários hormônios prejudiciais, como o cortisol, e essa regulação hormonal faz com que até a terapia responda melhor.
Uma visita como a do Canta Comigo Teen não é musicoterapia. É outra coisa, e isso não a torna menor. O que ela oferece é interrupção de rotina. A criança internada vive um cotidiano de horários, exames, agulhas e restrições, quase todos decididos por adultos. Uma tarde de música devolve, por algumas horas, uma experiência de vida comum, daquelas que acontecem fora do hospital.
“O tempo médio de tratamento das crianças é de dois anos, passar dois anos dentro de um ambiente totalmente diferente do seu habitual pode fazer com que a criança desenvolva alguns traumas, por isso tentamos deslocar a atenção dela de volta para as coisas do universo infantil. Já temos alguns trabalhos mostrando ex-pacientes que nos contam que não se lembram do tratamento em si, mas sim das brincadeiras. Quando ouvimos isso, sabemos que o nosso objetivo foi alcançado: fazer com que elas não se lembrem desse período de uma maneira dolorosa, mas apenas como uma fase da vida”.
“Já temos alguns trabalhos mostrando ex-pacientes que nos contam que não se lembram do tratamento em si, mas sim das brincadeiras”
A ideia de tirar os jurados do estúdio
O Canta Comigo Teen se apoia em um painel de 100 jurados formado por cantores, músicos, atores e profissionais da indústria musical. No programa, eles avaliam adolescentes entre 9 e 17, é uma dinâmica de competição, com placar e eliminação.
A proposta de Rafa Brites inverteu essa lógica. No GRAACC, os jurados não avaliaram ninguém. Cantaram para as crianças e com elas, em visita aos leitos, apresentação na brinquedoteca e show na recepção.
A apresentadora conta que a ação nasceu de um vídeo nas redes sociais: “Eu estava em casa, vi no Instagram alguns voluntários cantando em um hospital e pensei: ‘Poxa, eu tenho o maior coral do Brasil bem aqui no meu celular, no meu WhatsApp, que são os nossos jurados.’ Mandei uma mensagem à meia-noite perguntando: ‘Gente, quem topa essa ação?’ Muitos jurados nem moram em São Paulo, alguns vieram do Rio de Janeiro hoje só para isso. Eles me apoiaram demais. E o melhor: eles sabem cantar! Eu não sei. Sem eles, eu até poderia vir como contadora de histórias, porque amo o voluntariado, mas cantar eu não ia conseguir, não”.
“Eu tenho o maior coral do Brasil bem aqui no meu celular, no meu WhatsApp, que são os nossos jurados [do Canta Comigo Teen].’ Mandei uma mensagem à meia-noite perguntando: ‘Gente, quem topa essa ação?’
Levar o elenco de um programa de auditório para dentro de um hospital pediátrico tem um efeito prático: transfere para o paciente a atenção que normalmente fica com o artista. A criança que está em tratamento não vira plateia de um show. Ela canta.
Glória, de 13 anos, tratou uma leucemia no GRAACC. Felizmente, hoje ela está curada da doença e vai ao hospital apenas para fazer os exames de manutenção, garantindo que o câncer não volte. Dona de uma voz linda, a adolescente canta na igreja e ficou sabendo da visita dos jurados ao hospital. Nem era o dia de sua consulta no GRAACC, mas ela e sua mãe fizeram questão de ir e dar um show. No corredor de leitos, elas soltaram a voz em uma música gospel.
“Nós nascemos em uma família musical e faz toda a diferença em nossas vidas. Ela nos revigora e nos renova. A música tem um poder muito grande de transformar vidas, tanto para o bem quanto para o mal, mas nós sempre escolhemos a melhor parte. Ver iniciativas como essa visita do projeto Canta aqui dentro traz uma força inexplicável para o tratamento”, contou a mãe de Glória, Damaris.
Sons e emoções
Para os jurados, a mudança de função foi o ponto central do dia. Na visita, o papel deles não era dizer quem passa para a próxima fase e quem deve voltar para casa. No GRAACC, o único objetivo era tirar um sorriso daquelas crianças e adolescentes que lutam contra o câncer.
Laura Carolinah descreveu a sensação: “Julgar é muito difícil, porque temos uma empatia enorme pelos participantes, principalmente por serem crianças. Então, estar aqui traz uma leveza muito grande, por saber que estamos fazendo o oposto de julgar. O julgamento no programa não é ruim, claro, é uma questão de avaliação técnica e de participação. Mas aqui, tudo isso vira apenas emanar amor. Se torna algo sublime”.
“Estar aqui traz uma leveza muito grande, por saber que estamos fazendo o oposto de julgar. O julgamento no programa não é ruim, claro, é uma questão de avaliação técnica e de participação. Mas aqui, tudo isso vira apenas emanar amor”
A jurada Ana Preta falou sobre o alcance e poder da voz fora do palco: “Olha, a nossa voz e a nossa mensagem podem mudar a vida de uma pessoa. O GRAACC tem uma importância extrema para nós e para toda a sociedade. Poder estar aqui hoje trazendo a minha voz e a minha presença para alegrar a vida dessas crianças e adolescentes é algo imensurável. Estou muito feliz! Não tem como explicar o quanto esse projeto é importante, e estar aqui com o Canta Comigo Teen é simplesmente indescritível”.
“O GRAACC tem uma importância extrema para nós e para toda a sociedade. Poder estar aqui hoje trazendo a minha voz e a minha presença para alegrar a vida dessas crianças e adolescentes é algo imensurável”
Lorena Alexandre contou que a reação mais forte não veio das crianças: “Quando a gente olhava para o rostinho dos pais e via os olhos deles cheios de lágrimas... Acho que hoje nós conseguimos confortar o coração de cada um deles. Todo mundo vai sair daqui muito feliz”.
“Conseguimos confortar o coração de cada um deles [pais das crianças atendidas]. Todo mundo vai sair daqui muito feliz”
O papel do Instituto Ressoar
Criado em 2005 pela RECORD, o Instituto Ressoar é o braço de responsabilidade social da emissora. Atua em áreas como cultura, educação e cidadania, promove voluntariado e organiza campanhas de arrecadação.
Na prática, o instituto é quem viabiliza ações como esta. Articula a agenda dos artistas, faz a ponte com a instituição que recebe a visita e garante que a ação siga as regras do hospital.
A relação entre as duas instituições é antiga, segundo a presidente do Ressoar, Ionice Silva: “A nossa sinergia existe desde o início do Instituto, porque nascemos com o propósito de dar visibilidade a boas práticas e a projetos que impactam a vida das pessoas. Desde o começo, apoiamos as ações do GRAACC, como os jantares e as corridas que eles promovem. Além disso, eles trabalham muito fortemente com a prevenção, que é uma causa que o Ressoar também defende. Temos um trabalho muito alinhado nessa mesma linha de transformar positivamente a vida das pessoas”.
Ionice também falou sobre o que move o instituto: “Acredito que o que dá sentido à nossa vida e a tudo o que fazemos, seja no trabalho ou na família, é a oportunidade de servir. É podermos usar aquilo que Deus nos dá, seja o talento da voz, no caso dos voluntários do Canta, ou a visibilidade da Rafa. É maravilhoso ver esse amor no coração de cada um que se uniu a nós para vir aqui hoje e proporcionar um dia tão especial para essas crianças”.
“Acredito que o que dá sentido à nossa vida e a tudo o que fazemos, seja no trabalho ou na família, é a oportunidade de servir”
Rafa, a apresentadora do reality, fez um paralelo entre os competidores do Canta Comigo e com as crianças que fazem tratamento no GRAACC, e enfatizou a importância do trabalho voluntário: “Hoje o dia acordou frio e chuvoso, e o meu filho me perguntou: ‘Mãe, mas você vai lá com essa chuva e esse frio?’ Eu respondi: ‘Filho, eu estou indo para cantar. As pessoas estão saindo de casa com chuva e frio para se tratarem’. Quando olhamos para o programa, vemos que o grande sonho daquelas crianças é conquistar o palco. As crianças que estão aqui no hospital são exatamente as mesmas: têm sonhos, querem brincar, ir à escola, fazer provas, acordar cedo e até levar bronca dos pais. Elas só querem a oportunidade de ter saúde para seguir a vida inteira que têm pela frente. Ouvi uma coisa linda hoje: de que elas estão no melhor lugar possível para se tratarem, é um privilégio estar aqui. No voluntariado, a gente entrega um pouquinho e recebe uma imensidão. Sou voluntária desde que me conheço por gente; minha família sempre cresceu envolvida nisso”.
“Hoje o dia acordou frio e chuvoso, e o meu filho me perguntou: ‘Mãe, mas você vai lá com essa chuva e esse frio?’ Eu respondi: ‘Filho, eu estou indo para cantar. As pessoas estão saindo de casa com chuva e frio para se tratarem’.
Veja momentos da visita nas redes sociais:
*Estagiária sob supervisão de Juliana Lambert

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