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Por trás do terror Arte R7

Estúdio|Ciro Barros, da RECORD

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“Vocês têm que sair daí agora. Os ‘falcões’ chegaram em algumas motos”. A ligação do guia interrompe uma entrevista que estava sendo gravada por celular em Arroyo Hondo, na periferia de Guadalajara, capital do estado de Jalisco, no México. Marcela Esparza, uma integrante do coletivo Luz de Esperança, um dos muitos grupos dedicados à busca de desaparecidos no México, nos mostrava uma fossa coletiva aberta em agosto de 2024, onde o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) enterrou mais de 70 corpos.

O alerta do guia faz Marcela interromper imediatamente a entrevista. “Falcões” é como são chamados os olheiros do Cartel. Eles fazem questão de serem vistos, e estender nossa presença ali seria uma afronta.


Nossa equipe desembarcou no México dias depois dos ataques que pararam o país após a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, no último dia 23 de fevereiro. O país vivia uma calma repleta de tensão. Foram dois dias de terror impostos pelos chamados “narco-bloqueios”, ações coordenadas dos traficantes para promover bloqueios em estradas e ataques a estabelecimentos comerciais e instalações policiais. O saldo final: mais de 70 mortos, 252 bloqueios em 20 estados do México, além de dezenas de imóveis e veículos incendiados. Nas ruas, a suspeita de que novas ondas de violência poderiam ocorrer.

Os ataques dão a dimensão do poder do CJNG e sua capacidade de controle sobre boa parte do país. O cartel é hoje considerado um dos mais poderosos do México, com 15 a 30 mil integrantes diretos e presença em 27 dos 32 estados mexicanos, além de conexões em 40 países, inclusive o Brasil. Não há um dado preciso de faturamento do cartel, mas as estimativas variam entre 3 e 58 bilhões anuais. Os números mostram um poderio bélico e financeiro praticamente sem paralelos em outros países no continente.


Registros contábeis divulgados pela imprensa mexicana também mostram o poder de penetração e pagamento de autoridades governamentais por parte do cartel.

As covas mostradas por Marcela revelam uma face ainda mais cruel da organização.


A máquina de desaparecimentos

Os desaparecimentos são hoje um dos maiores dramas nacionais do México. Dados do Registro Nacional de Personas Desaparecidas y No Localizadas (RNPDNO), do governo mexicano, apontam que o país possui mais de 130 mil pessoas desaparecidas e ainda não localizadas. Jalisco, estado natal do CJNG, é o que mais registra desaparecimentos, com pelo menos 16 mil desaparecidos. Especialistas apontam que a maior parte desses desaparecimentos está ligada aos cartéis do narcotráfico.

Marcela Esparza nos explicava, antes da interrupção da entrevista, que o CJNG, assim como outras organizações criminosas, adotou as desaparições forçadas como um método para engrossar suas fileiras. Os criminosos sequestram principalmente adolescentes e jovens, e alguns meninos também. Jovens de 15 a 20 anos são o público preferencial do cartel. Recrutados forçosamente, eles são obrigados a adentrar as fileiras do cartel e a ocupar as diversas funções que a organização possui, principalmente trabalhar como sicários e manejar drogas.

Esse foi o destino de Hector Daniel Flores, filho de Hector Rodolfo Flores González, cofundador da organização Luz de Esperanza. González conta que seu filho foi alvo de uma falsa busca e apreensão levada a cabo por membros do cartel em conjunto com supostos integrantes da Procuradoria Geral do México. Ao chegarem, os homens alegaram que iriam cumprir um procedimento judicial, posteriormente classificado como falso.

Soube por meio de algumas pessoas que estiveram com meu filho que ele tinha sido levado pelo Cartel de Jalisco

Hector Rodolfo Flores González, cofundador da organização Luz de Esperanza

Fotos dos filhos de González estão por toda a casa, lembrando a dor que perdura desde 2021.

Marcela também conta que entrou para o coletivo de busca de desaparecidos em maio de 2024, após sua amiga, Laura García Munguia, ter sido declarada desaparecida. “Eu a tenho buscado de todas as formas possíveis. Já a busquei em vida e agora também como morta. Eu a tenho que encontrar de alguma maneira e a entregar a seu pai. Já faz um ano e 10 meses, mas ela é uma irmã de coração e, por isso, estou aqui, na luta, buscando nas fossas, nas fichas, em buscas noturnas”, relata.

O luto do desaparecimento é acompanhado pelos riscos. Marcela carrega no pescoço um botão de emergência para chamar a polícia em qualquer eventualidade. No cemitério clandestino de Arroyo Hondo, na periferia de Guadalajara, ela nos conta que corpos foram encontrados a dezenas de metros abaixo da terra, com indícios de que foram enterrados com escavadeiras.

Há muitas formas de atrair os jovens forçosamente ao cartel. Propostas de emprego falsas colocadas nos postes das cidades mexicanas ou divulgadas nas redes sociais, sequestros, falsos procedimentos policiais, vale tudo para alimentar a sanha de uma organização bilionária em sua busca por mão de obra.

Um centro de treinamento clandestino chamado Rancho Izaguirre foi descoberto em Teuchitlán, município a cerca de uma hora de Guadalajara. Segundo as investigações, além de treinamento do CJNG, o local também abrigava corpos de jovens descartados pelo cartel. Foram encontradas ao menos 27 bolsas com restos humanos, além de covas clandestinas e restos de corpos carbonizados. Anotações sugerem que pelo menos 70 recrutas passaram pelo local, onde eram treinados para adentrar o quadro de sicários do cartel.

O drama dos desaparecimentos forçados já mudou o México institucionalmente. Há promotorias especializadas sobre o tema no Ministério Público, grupos policiais, além dos milhares de familiares que buscam jogar luz sobre o tema, que deve ganhar força no país com a chegada da Copa do Mundo.

Familiares prometem protestos na Copa do Mundo

Em cerca de três meses, o México será um dos países-sede da Copa do Mundo. Os grupos de familiares de desaparecidos buscam pautar o tema na imprensa internacional. “Será uma oportunidade para que o Estado mexicano ouça os nossos apelos e nos entregue nossos entes queridos vivos ou mortos”, afirma Héctor Gonzalez.

A esperança é que a visibilidade do tema traga mais ênfase do Estado mexicano no esforço de busca pelos desaparecidos.

“Hoje, o Estado mexicano é cúmplice nos desaparecimentos. Há casos em que há claro envolvimento das forças do Estado, mas também há muita omissão. Não podemos permitir essa conivência com um tema tão grave”, pondera Marcela Espaza.

  • Diretora de Conteúdo Digital e Transmídia: Bia Cioffi
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