
Nos últimos quatro anos, os atendimentos realizados nos Caps (Centros de Atenção Psicossocial) aumentaram 34,8%: o número saltou de 39.339.383 procedimentos em 2022 para 53.052.233 no ano passado. Ao todo, nesse período, foram 190 milhões de atendimentos. O número se refere aos procedimentos totais, ou seja, uma mesma pessoa pode ter sido atendida mais de uma vez.
Os dados são de levantamento exclusivo feito pelo R7, que mapeou a presença dos centros de atenção e a quantidade de psiquiatras atuando em todo o país. Hoje, o Brasil conta com 3.097 Caps espalhados pelas 27 unidades da Federação, com uma equipe de 5.450 psiquiatras.
Os números de Caps e profissionais já estiveram muito abaixo do que hoje, conforme relata o professor da Universidade Federal do Paraná, Deivisson Vianna dos Santos, mas ainda não são suficientes para a demanda por saúde mental da população.
“O número de atendimentos no campo da saúde mental nas duas últimas décadas cresceu devido a diversos fatores. Um deles é o aumento de pontos de atenção. A gente teve nesse período a criação de diversos Caps. Para se ter ideia, lá em 2006, a gente tinha menos de 500 Caps no país e quase nenhum profissional de saúde mental atuando nos postinhos”, conta.
Deivisson também é membro da diretoria da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), entidade sem fins lucrativos que defende o fortalecimento do SUS (Sistema Único de Saúde).
Em duas décadas, muita coisa mudou, inclusive na atenção primária à saúde, etapa fundamental do atendimento da população. “Um exemplo: a cidade do Rio de Janeiro, em 2006, tinha uma cobertura de atenção primária menor que 3%. E hoje tem uma cobertura próxima de 70%. Ou seja, temos mais serviços de saúde disponíveis para a população”, explica.
Ao falar sobre a atenção primária, o professor explica que a saúde mental é multifatorial e que médicos generalistas e especialistas em saúde da família também precisam atuar nas demandas relacionadas ao bem-estar mental.
Desafio contra a psicofobia
O presidente da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), Antônio Geraldo da Silva, ressalta que os dados brutos não conseguem traduzir se a sociedade está mais doente ou se apenas houve mais disponibilização de acesso.
“São números que, sozinhos, não permitem afirmar que houve melhora na oferta de assistência ou redução do preconceito em relação à saúde mental. O que sabemos, de fato, é que ainda temos de combater a psicofobia [preconceito contra pessoas que sofrem com transtornos mentais], lidar com uma demanda importante por tratamento e defender uma rede assistencial completa, integrada e hierarquizada, cujo centro de assistência seja o paciente”, defende.
A reportagem cobrou do Ministério da Saúde o déficit de profissionais de saúde mental, em pedido feito via Lei de Acesso à Informação. Os dados, no entanto, foram compartilhados sem detalhamento. O R7 levantou, contudo, que 324 Caps estão sem psiquiatras no quadro de funcionários, o equivalente a 10,4% do total — veja abaixo o que diz o Ministério da Saúde.

Para o presidente da ABP, o “ponto central não é apenas ampliar o número de profissionais, mas garantir que os serviços tenham condições de oferecer o cuidado e o tratamento adequado às necessidades clínicas de cada paciente”. “Nesse sentido, a presença do psiquiatra também é imprescindível na assistência às pessoas com transtornos mentais”, acrescenta.
Ele avalia que o SUS ainda tem limitações importantes quando falamos de saúde mental.
A rede é insuficiente e fragmentada, com desafios como a falta de psiquiatras, a escassez de leitos especializados, as dificuldades de acesso à atenção ambulatorial, a deficiência de serviços de urgência e emergência psiquiátrica e a pouca integração entre saúde, assistência social e Justiça
É o que vive Lígia Moreira de Souza, 60 anos, moradora do Riacho Fundo I (DF). Ela faz tratamento desde os 21 anos de idade e sente falta de ações intersetoriais. “Eu faço terapia, mas às vezes é mais vantajoso ir no postinho de saúde do que no Caps. É sempre muito difícil ter psicólogo; psiquiatra então, temos quase nenhum”, conta.
Ela relata que antes havia mais oficinas e uma rede de apoio melhor na comunidade. “Agora, quase não tem esses projetos. Para mim, isso piorou. Antes, tínhamos grupos que ajudavam muito”, relata.
Fortalecer essas medidas intersetoriais é o que defende a ABP. “O grande desafio desse contexto é superar a ideia de que um único serviço pode atender a todas as necessidades em saúde mental. O Caps exerce um papel vital dentro dessa rede, mas não pode ser tratado como a única resposta para todos os casos”, explica.
Por isso, para o psiquiatra, são necessários recursos complementares, como a atenção primária, ambulatórios especializados, serviços de urgência e emergência, leitos de saúde mental em hospitais gerais, serviços residenciais terapêuticos e hospitais psiquiátricos.
Indivíduos com diferentes quadros e níveis de gravidade exigem diferentes níveis de assistência. Logo, o desafio é construir uma rede verdadeiramente articulada, completa e hierarquizada, na qual haja continuidade do cuidado e do tratamento
Suporte é fundamental
Carla de Oliveira, 46 anos, é diagnosticada com transtorno bipolar, TEA (Transtorno do Espectro Autista) e lida com ideação suicida. Ela mora em Florianópolis (SC) e usou o serviço do Caps local de forma contínua de 2011 até meados de 2024. “Em momentos de crise e quando necessário, recorro ao serviço até os dias de hoje”, detalha.
Hoje, ela faz acompanhamento na Raps (Rede de Apoio Psicossocial) e afirma que esse suporte é fundamental. “É um processo de reorganização, estabilização, autoconhecimento, socialização e reinserção. Isso é extremamente necessário e precisa ser contemplado com equipes multidisciplinares”, defende.
Ela reconhece que o psiquiatra é fundamental. “Mas não só o psiquiatra: também a assistente social, com esse olhar voltado às condições sociais e financeiras do sujeito; o psicólogo, com a escuta para lidar com o sofrimento e permitir o autoconhecimento; um clínico para olhar para a parte física; nutricionista para a questão alimentar, como deficiências nutritivas que desencadeiam depressão e outros problemas; o endocrinologista para avaliar as questões hormonais; e o neurologista para avaliar possíveis questões neurodivergentes, por exemplo”, observa.
No caso de Carla, por exemplo, ela ficou anos apenas com o diagnóstico de bipolaridade, sem que fosse reconhecido o Transtorno do Espectro Autista. O TEA é mais difícil de identificar em mulheres, que muitas vezes conseguem “mascarar” (processo conhecido como masking) melhor do que os homens.
Eu passei anos apontando que não era só a bipolaridade, e infelizmente não fui escutada. Quando busquei apoio no Caps, não tinha um profissional para fazer uma avaliação. Infelizmente, com as crises sensoriais na faculdade, precisei buscar ajuda
A moradora de Santa Catarina brinca que pode parecer uma utopia, mas se os serviços forem integrados, com ações como prontuário terapêutico singular, é sim possível melhorar o atendimento para os pacientes. Por outro lado, ela alerta para outro ponto: a sobrecarga dos próprios profissionais de saúde.
“É visível o esgotamento e adoecimento. Temos apenas um psiquiatra no Caps Ponta Coral. E há muita rotatividade, principalmente dos psiquiatras. Eles acabam pedindo transferência ou se desligando devido à sobrecarga”, conta.
Carla defende investimento, tratamento humanizado e outros recursos para além do medicamentoso, que acaba, em suas palavras, “dopando” o paciente para parecer que está tudo bem sem atender as demandas reais de quem precisa.
“Hoje, ainda se oferta soluções paliativas, com excessos de medicamentos e invalidação [dos relatos] dos pacientes”, lamenta.
Como lidar com o sofrimento?
Na avaliação de Deivisson, o membro da Abrasco, nos últimos anos mudou-se a forma como a população lida com o sofrimento mental.
Hoje temos um aumento da desigualdade, ampliação da jornada de trabalho, mudança nos processos que tornam as atividades mais mecanizadas, e o trabalho perde sentido. Temos também a redução do número de pessoas nas famílias e a perda de crença nas instituições. Isso tudo cria um caldo comunitário e social que aumenta o grau de sofrimento
Aliado a isso, o professor cita a mudança nos padrões diagnósticos que se tornaram mais flexíveis. “Mais condições de sofrimento passaram a ser consideradas transtornos mentais. Na década de 1960, tínhamos menos de 40 diagnósticos de transtornos mentais. Hoje, os manuais classificam mais de 400 tipos de transtornos”, informa.
Para ele, esse processo é importante porque vai além da classificação de uma doença, mas a nomeação do sofrimento enquanto um diagnóstico.
Ampliação da rede de assistência psicossocial
Questionado sobre o cenário da saúde mental no país, o Ministério da Saúde disse que vem ampliando a Rede de Atenção Psicossocial para fortalecer o acesso ao cuidado em saúde mental em todo o Brasil.
“Entre 2023 e julho de 2026, foram habilitados 867 novos serviços, elevando para 6.488 o número de pontos de atenção da rede, entre eles os Centros de Atenção Psicossocial. Para dar conta desse cuidado, o SUS tem 6,2 mil equipes multiprofissionais atuando, com psiquiatras, psicólogos e outros profissionais”, disse.
A pasta reforçou que também incluiu atendimentos online para quem tem problema com jogos e apostas, mulheres em situação de violência e jovens de 13 a 24 anos. “Os serviços podem ser acessados em todas as regiões do Brasil por meio do aplicativo Meu SUS Digital”.
Além disso, o Ministério citou que neste ano, pela primeira vez, oito centros de convivência cultural receberam habilitação federal.
“O Ministério da Saúde também desenvolve ações de comunicação e formação em saúde mental, como o Guia de Boas Práticas de Comunicação em Saúde Mental para produtores de conteúdo digital. A prioridade é seguir fortalecendo a RAPS com mais serviços, formação de profissionais, cuidado comunitário e integração com a Atenção Primária, de acordo com as necessidades de cada território”, finaliza.

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