O cartão de crédito deixou de ser apenas um meio de pagamento e virou parte do orçamento mensal de milhões de famílias brasileiras. Sem renda estável ou alternativas mais baratas e sujeitas a juros entre os mais altos do mundo, pessoas de diferentes regiões e classes sociais recorrem ao crédito para fechar o mês — e acabam presas a dívidas que crescem muito mais rapidamente do que a capacidade de pagamento. Especialistas ouvidos pelo R7 apontam que esse sistema não apenas endivida, mas aprofunda desigualdades e transforma o crédito em um mecanismo de exclusão financeira.
Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, divulgada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), mostram que 8 em cada 10 famílias brasileiras estavam endividadas em outubro de 2025, o maior patamar da série histórica. Entre as de menor renda, o índice chega a 90% em algumas capitais. A modalidade mais comum é a mesma em todo o país: o crédito vinculado ao cartão.
Os números revelam ainda que famílias com contas em atraso levam, em média, 65 dias para regularizar pagamentos. Entre os endividados, o comprometimento médio é de 7,2 meses até a quitação integral das dívidas, o que sinaliza ciclos prolongados de pagamento mesmo em modalidades não rotativas.
Segundo o especialista em educação financeira da Serasa Fernando Gambaro, parte relevante da inadimplência no país se explica por choques de renda e pressões do custo de vida.
Pesquisa mostra que 19% dos consumidores apontam o desemprego como principal motor do endividamento, seguido por gastos emergenciais (18%) e pelo empréstimo de nome a terceiros (14%).
Gambaro destaca ainda que 1 em cada 10 brasileiros não consegue pagar despesas básicas como luz, água ou gás, e que 53% dos endividados são reincidentes, o que indica ciclos repetidos de endividamento associados à perda de renda e ao encarecimento da vida.

A lógica que empurra para o cartão
O economista e pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) Flávio Ataliba aponta três fatores que explicam por que o cartão se tornou dominante entre as famílias brasileiras: acesso fácil, parcelamento sem juros e atalhos mentais que reduzem a percepção do custo real.
“O cartão é o instrumento de crédito mais disseminado no país, haja vista que é fácil de se obter, com limite pré-aprovado e sem exigência de garantias. Para famílias com renda curta e instável, ele funciona como um mecanismo informal de liquidez, assumindo, na prática, o papel de renda complementar”, argumenta.
O parcelamento, na avaliação do economista, reduz o custo percebido pelas famílias, que acabam não calculando a despesa total, apenas se a prestação cabe no bolso naquele mês. “Isso favorece o acúmulo silencioso do estoque da dívida”, adverte.
Levantamento da Serasa mostra que esse uso cotidiano do cartão não é exceção. Gambaro afirma que 50% dos inadimplentes têm suas maiores dívidas de cartão ligadas a compras de supermercado, e outros 41% a itens essenciais do dia a dia, como roupas, calçados e eletrodomésticos. “O cartão tem sido usado como extensão do orçamento”, diz.
Outro mecanismo, segundo Ataliba, é o “adiamento da dor do pagamento”, quando o cartão separa o consumo do pagamento, tornando o ato de comprar menos aversivo no momento da decisão.
“O resultado é um ambiente em que o cartão se torna a escolha dominante, não porque seja a melhor, mas porque é a mais conveniente e a mais alinhada aos atalhos cognitivos que todos usamos, especialmente quando o orçamento é apertado.”
O economista da FGV lembra que, nas faixas de renda mais baixas, a capacidade de recompor o orçamento após um choque é muito limitada. A irregularidade da renda empurra famílias ao rotativo — modalidade com juros superiores a 400% ao ano — e cria uma sensação de “esteira”, em que mesmo pagamentos elevados não reduzem o saldo devedor.
“Basta um único mês de pagamento parcial para que o estoque da dívida cresça rapidamente, e essa deterioração financeira quase nunca é revertida quando a renda melhora, porque o déficit acumulado é muito maior que o ganho temporário”, diz o pesquisador do Ibre.
Ele aponta três fatores de travamento no ciclo do rotativo:
- juros muito altos
- otimismo irrealista sobre a renda futura
- ilusão do pagamento mínimo, percebido como “recomendação implícita” do banco
O resultado é um sistema que empurra para a modalidade mais cara e oferece pouca alternativa para sair dela.
“Sem aumento de renda ou reestruturação profunda do orçamento, a pessoa fica presa em um ciclo em que cada renegociação limpa o limite apenas para permitir novo endividamento”, diz Ataliba.

A espiral na vida real
A trajetória do assessor Luís Fernando*, 50, mostra como a dívida pode se formar e multiplicar rapidamente mesmo entre pessoas com salário fixo. Em 2021, ele vivia um período tranquilo da vida financeira: emprego formal, renda extra e despesas divididas em casa. O dinheiro sobrava no fim do mês.
O cenário mudou quando ele perdeu a renda complementar. “Faltou um pedaço do orçamento. Comecei a fazer empréstimos achando que estava resolvendo. O problema é que o empréstimo resolve na hora e te prende depois”, diz.
Sem dar conta dos saldos, ele passou também a usar cheque especial. A dívida que era de R$ 5.000 se transformou em mais de R$ 50 mil rapidamente. “Quando você vive no cheque especial, a dívida não acaba, ela cresce”, alerta.
A partir daí, o cartão de crédito virou ferramenta de sobrevivência. “Eu usava para pagar conta, comprar comida. Não era consumo, era sobrevivência.”
Com choques sucessivos — conserto de carro, atrasos acumulados, renegociações parciais — Luís afirma que tentativas de acordos com os bancos, na prática, acabaram apenas adiando o problema. “Se eu fizer outro empréstimo, vou viver só para pagar banco. Não sobra para comer ou para o aluguel”, conta.
Para Lauro Gonzalez, professor da Eaesp (Escola de Administração de Empresas de São Paulo) e coordenador do Cemif (Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira), ambos da FGV, o que aprofunda o ciclo da dívida não é apenas a renda curta ou os juros altos, mas a ausência de crédito adequado ao perfil das famílias vulneráveis.
“O Brasil avançou muito em acesso. A maior parte da população, inclusive a de baixa renda, já tem cartão ou algum tipo de empréstimo. O ponto crítico hoje é a qualidade desse crédito”, afirma.
Ele avalia que o modelo de oferta — baseado em cartões e crédito pré-aprovado — funciona como porta de entrada para o superendividamento. “Existe também um ecossistema de oferta de crédito muito agressivo”, diz. Para Gonzalez, essa lógica mantém famílias por longos períodos em dívidas caras, que se renovam a cada renegociação e reforçam desigualdades financeiras já existentes.
Mães solos e informais sentem mais
Segundo Flávio Ataliba, trabalhadores informais, mães solo e jovens que sustentam o lar formam o grupo mais propenso a permanecer preso por meses — às vezes anos — na dívida do cartão. Todos enfrentam, simultaneamente, renda instável, ausência de proteção social e pouca margem para absorver choques financeiros. “Famílias com renda volátil usam o cartão como amortecedor de choques, um mecanismo informal de seguro. Essa dependência aumenta a probabilidade de entrar no rotativo quando a renda falha”, afirma.
No caso das mães solo, diz ele, a vulnerabilidade é ainda maior: responsabilidade dupla, rede de apoio limitada e interrupções frequentes no trabalho. A carga mental elevada reduz a capacidade de tomar decisões financeiras complexas, ampliando erros como subestimar o custo do rotativo ou superestimar a renda futura.
Jovens que sustentam o lar também sofrem: entram cedo nas responsabilidades financeiras, mas com renda incipiente e pouca experiência para lidar com compromissos de longo prazo.
“Vulnerabilidade econômica, volatilidade de renda, carga mental, menor rede de proteção e vieses comportamentais convergem para tornar esses grupos muito mais propensos a permanecer presos à dívida do cartão, mesmo com esforços genuínos para sair dela”, explica o economista.
Do ponto de vista comportamental, Gambaro, da Serasa, identifica fatores adicionais que elevam o risco de permanência na dívida. Segundo ele, 1 em cada 4 inadimplentes concentrou seus gastos no cartão nos últimos 12 meses, e 46% das dívidas já ultrapassam um ano de atraso. Para o especialista, esses sinais mostram que o crédito deixou de ser pontual e passou a fazer parte da rotina financeira.
“Um dos principais sinais é o uso do cartão não apenas para compras planejadas, mas para despesas essenciais. Outro indicativo é a dificuldade crescente de quitar a fatura integral, levando ao parcelamento ou ao giro permanente de dívidas que se acumulam ao longo do tempo.”
Endividamento que atravessa gerações
É o caso do comerciante Carlos*, 50, que há quase duas décadas sustenta a família com um quiosque de churrasquinho perto do Banco Central, no centro de Brasília. Ali trabalham quatro parentes, entre eles a filha Stefani*, 25, e a nora Patrícia*, 31. Todas as gerações convivem com dívidas.
Carlos relata que já não sabe quando a bola de neve começou. Segundo ele, a irregularidade do faturamento força a recorrer a empréstimos e ao uso constante do limite do cartão. “É muito difícil ser comerciante no Brasil. Quando você não tem fundos, como compra mercadoria? O jeito é pedir para o banco”, afirma.
Sem renda suficiente para cobrir os gastos, Carlos viu as dívidas crescerem, sobretudo com empréstimos bancários e o rotativo do cartão. Ele conta que evita calcular o montante devido. “Se eu somar, eu desabo. Prefiro nem saber. Nossa realidade é vender o jantar para comprar o almoço e vice-versa”, revela.
A falta de fôlego financeiro atravessa a rotina e impacta até nos momentos de lazer da família. “A gente trabalha o ano inteiro esperando descansar 10 dias. Quando chega dezembro, percebe que não tem recurso nem para isso”, lamenta.
Quando o erro custa caro
A nora de Carlos, Patrícia, conta que o marido tentava complementar renda construindo muros para moradias do Minha Casa, Minha Vida. Um dos muros caiu por erro na execução. Sem fundo de caixa, o casal assumiu o prejuízo. Vieram atrasos de pedreiros, retrabalho, mais custos.
“Foi nesse momento que começou nossa tormenta com dívidas. Pegamos cartão emprestado, empréstimo, até dinheiro com agiota. Virou uma bola de neve”, relembra.
Depois de muita renegociação e ajuda de terceiros, quitaram as dívidas consideradas urgentes. “O perigoso já não tem mais. Hoje estamos com 90% das dívidas quitadas, mas ainda restam pouco mais de R$ 3.000 no cartão”.
O exemplo da família de Luís ilustra o que Hugo Garbe, doutor em economia e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, chama de “espiral” da dívida. Segundo ele, o design do cartão cria uma ilusão de acessibilidade.
“A baixa compreensão de juros compostos impede que o consumidor perceba o verdadeiro custo da dívida. Do lado dos bancos, o rotativo é extremamente lucrativo, criando um incentivo natural para que as instituições não ofereçam alternativas mais baratas de forma ativa”, explica.
Endividamento precoce
Stefani convive com dívidas desde que fez o primeiro cartão, aos 18 anos. Hoje, aos 25, ela acredita ter cerca de R$ 10 mil em dívidas, além do nome negativado na Serasa. “Eu gastava mais do que ganhava. Anos depois, ainda não consegui organizar minha vida financeira.”
Ela descreve os impactos das dívidas no bem-estar. “Atrapalha diretamente o sono, a rotina. A cabeça fica cheia, pensando em como pagar.”
Já tentou negociar, mas não conseguiu quitar débitos simultâneos. “Quando você tem um limite maior do que recebe, uma hora você se embola.”
A engrenagem estrutural do rotativo
Segundo Garbe, o rotativo do cartão de crédito no Brasil é resultado de fatores estruturais que encarecem o crédito muito além do padrão internacional.
“O rotativo brasileiro resulta da combinação de spreads elevados, inadimplência estruturalmente alta, forte assimetria de informação e ineficiências operacionais do sistema financeiro”, afirma.
Para ele, o spread — diferença entre o que o banco paga para captar recursos e o que cobra do cliente — incorpora tributos, compulsórios e baixa concorrência.
Outro elemento é o “risco de liquidação”. Como o banco não controla o gasto nem o uso do limite, financia pagamentos futuros sem visibilidade plena do risco. “O resultado é uma taxa muito acima do padrão internacional, onde há maior competição, menor inadimplência e regras mais rígidas para cartões.”
Garbe explica que famílias de menor renda sofrem mais por lidarem com renda volátil. “Há fatores estruturais relevantes, como baixa concorrência, pouca oferta de crédito alternativo, alto custo regulatório e um mercado em que o perfil de renda baixa se concentra em produtos sem garantias.”
Como consequência, ele afirma, esses consumidores ficam restritos a linhas caras — cheque especial e rotativo — que amplificam desigualdades financeiras.
Para o economista Ricardo Summa, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o patamar elevado dos juros cobrados no crédito às famílias não deriva apenas do risco ou da inadimplência, mas da própria estrutura institucional do sistema bancário brasileiro. “Os bancos públicos acabam funcionando como referência na formação dos spreads. Quando reduzem, os privados acompanham; quando mantêm níveis altos, todo o mercado segue o padrão”, afirma.
Ele lembra que nem a entrada de bancos estrangeiros nos anos 1990 nem o crescimento recente de instituições menores e fintechs conseguiram alterar essa engrenagem. “Esses bancos simplesmente se adaptaram ao spread praticado aqui”, diz. Para Summa, a competição, isoladamente, não tem sido suficiente para reduzir o custo final do crédito rotativo e do cheque especial.
O professor destaca ainda que os juros altos cobrados no rotativo e no cheque especial não apenas aprofundam desigualdades, mas também são consequência delas. “Metade da força de trabalho brasileira é informal. Sem renda comprovada ou estabilidade, essas pessoas ficam restritas justamente às linhas mais caras do sistema. É como se o crédito cobrasse um imposto adicional de quem já está em pior condição”, afirma.
Para ele, qualquer política que busque reduzir a dependência das famílias do crédito caro precisa atuar sobre a informalidade estrutural do país. “Sem renda estável e sem mecanismos de proteção social mais robustos, o consumidor é empurrado para modalidades que são caras por definição. Formalização e maior cobertura social reduziriam o risco, ampliariam o acesso a crédito mais barato e diminuiriam a pressão sobre as famílias de renda mais baixa.”
Quebrando o ciclo da dívida
Flávio Ataliba explica que, para reduzir a dependência do cartão de crédito como “orçamento mensal” entre as famílias mais pobres, é preciso atuar simultaneamente em três dimensões: estabilização da renda, arquitetura do crédito e comportamento financeiro. “Nenhuma intervenção isolada é suficiente, porque o uso intenso do cartão é resultado de necessidades urgentes, falta de alternativas e incentivos distorcidos.”
Para ele, reduzir a dependência do cartão exige criar melhores alternativas, e não apenas restringir seu uso.
O economista afirma que a medida prioritária para frear o endividamento caro nas regiões mais vulneráveis do Brasil, especialmente Norte e Nordeste, onde a renda é mais baixa e a informalidade é maior, seria a criação de um programa nacional de substituição de dívidas caras por crédito barato, estruturado como política pública permanente, e não como ação pontual de renegociação.
“O fundamento central para essa medida é que, nessas regiões, o problema não é apenas o excesso de dívida, mas o tipo de dívida, haja vista que famílias vulneráveis recorrem ao cartão de crédito não por escolha, mas por falta de alternativas.”
Segundo ele, o rotativo com juros altíssimos funciona como um multiplicador de fragilidades. “Substituir essa dívida por linhas a juros baixos, com pagamento previsível e limite condicionado à renda, teria impacto imediato na saúde financeira das famílias e reduziria drasticamente o risco de inadimplência futura.”
Esse programa, explica Ataliba, poderia funcionar de forma semelhante ao modelo de “refinanciamento automático” adotado em alguns países: ao atrasar a fatura, o consumidor seria automaticamente migrado para um crédito pessoal com juros limitados, prazo maior e parcelas fixas.
“Isso não só retira a família da armadilha dos juros compostos como também reduz a carga mental associada às decisões financeiras de curto prazo, um problema especialmente relevante em contextos de pobreza. [...] Ao aliviar o orçamento dessas famílias, libera-se renda para consumo essencial, reduz-se vulnerabilidade social e melhora-se a capacidade de planejar o futuro”, finaliza.
*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados

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