O Brasil de 1965 vivia tempos de mudanças. O país estava sob sérios conflitos políticos, a bossa nova ganhava espaço no exterior e os festivais de música começavam a despontar. Mas, entre os jovens urbanos, havia sede de novidade, de sons que falassem diretamente à sua realidade e de ídolos que refletissem seus desejos e comportamentos.
Foi nesse cenário que nasceu a Jovem Guarda. No dia 22 de agosto de 1965, a RECORD levou ao ar um novo programa dominical, comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa.
O palco do Teatro Record, em São Paulo, passou a receber, todos os domingos, centenas de adolescentes que lotavam as arquibancadas e gritavam pelos seus ídolos.
Em poucos meses, o programa alcançou números impressionantes: 3 milhões de espectadores só em São Paulo.
O sucesso levou a atração a ser transmitida também no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. O sucesso foi tão grande que o nome do programa acabou batizando todo o movimento cultural: o iê-iê-iê brasileiro.
Em entrevista ao Domingo Espetacular em fevereiro de 2022, Erasmo Carlos definiu aquele momento como único:
“Foi um período fértil de criação, quando conheci amigos importantes, que me ajudaram com todo o movimento. A Jovem Guarda era simplesmente um programa de televisão, mas tão grande que acabou dando nome a todo o movimento. Foi um sucesso estrondoso, só vi semelhança com os Beatles na Inglaterra.”
Cultura e memória: juventude em sintonia
A Jovem Guarda representou um marco cultural: pela primeira vez, a juventude brasileira urbana tinha um movimento só seu. Até então, os jovens consumiam a sofisticação da bossa nova ou a tradição das canções românticas da era do rádio. Com a Jovem Guarda, eles passaram a se ver no palco.
As gírias que surgiram no programa entraram no vocabulário cotidiano: “broto”, “carango”, “papo firme”, “coroa”, “é uma brasa, mora?”. O visual também se transformou: minissaias, botas de cano alto, calças boca de sino e botinhas coloridas invadiram as ruas.
O jornalista e colecionador Washington Morais, dono de um dos maiores acervos sobre o movimento no mundo, explica que o impacto foi além da música.
“O legado musical foi abrir espaço para o público jovem, criando novos ídolos e fortalecendo a indústria fonográfica. Já em comportamento, a Jovem Guarda deu aos jovens mais liberdade, com gírias, moda própria e até mudanças no campo sexual em relação à geração anterior”, detalha.
Desdobramentos e influência
A Jovem Guarda foi também um fenômeno industrial e midiático. Gravadoras estrangeiras e nacionais começaram a investir pesado na produção de discos voltados ao público jovem, enquanto fábricas brasileiras passaram a produzir guitarras e instrumentos elétricos em larga escala.
A publicidade explorava a imagem dos ídolos para vender roupas, acessórios e até bonecos colecionáveis.
O curador André Sturm, responsável pela mostra comemorativa no MIS-SP (Museu da Imagem e do Som de São Paulo), lembra que a repercussão chegou além da TV. “O impacto foi gigante. A juventude embarcou de tal modo no movimento que cinema, indumentária, linguagem e até o comportamento cotidiano foram influenciados”, conta.
Segundo André, a ideia de trazer os jovens como pauta principal foi revolucionária. “Foi a primeira vez que teve um programa de música com artistas jovens cujo objetivo era atingir os jovens. A música brasileira é riquíssima, maravilhosa, mas ela nunca teve esse foco de falar a linguagem jovem, de buscar o jovem”, explica.
A exposição no MIS-SP nasceu justamente desse desejo de resgatar a memória do movimento. Ingrid Morais, filha de Washington Morais e co-curadora da mostra ao lado de Sturm, destaca que transformar o acervo do pai em exposição ocorreu em um processo único.
“O aniversário de 60 anos da Jovem Guarda se aproximava, e, até hoje, não haviam feito uma exposição sobre este importante movimento musical da cultura brasileira. O maior desafio em trabalhos como este é resgatar a nossa história num país que não preserva sua memória e desvaloriza seus artistas”, constata.
Ingrid também ressalta que a paixão pelo movimento é uma herança que recebeu de Washington, um admirador incondicional da Jovem Guarda.
“Com meu pai, aprendi a importância de valorizar a nossa cultura, de manter a mente aberta sem preconceitos, o olhar atento aos movimentos e o entendimento de que o ‘sem importância’ de hoje poderá ser a tendência de amanhã”, diz.
Embora fosse vista por parte da crítica como alienada — em contraste com a bossa nova e as canções de protesto dos festivais —, a Jovem Guarda deixou uma contribuição fundamental: consolidou a guitarra elétrica na música brasileira, que depois seria incorporada à Tropicália.
Sua influência atravessou gerações: Rita Lee e os Mutantes beberam da rebeldia sessentista. A Blitz dos anos 1980 atualizou a irreverência pop. Bandas como Skank trouxeram o frescor do iê-iê-iê para os anos 1990. E até duplas contemporâneas, como Anavitória, que. em 2021 fizeram referência à sonoridade do movimento no álbum “COR”, reconhecem a herança de Roberto, Erasmo e Wanderléa.
Legado e memória afetiva
O programa Jovem Guarda acabou em 1968, com a saída de Roberto Carlos, mas o movimento seguiu reverberando por décadas.
Muitos artistas migraram para a música romântica de forte apelo popular, outros se aproximaram do rock, enquanto alguns, como Sérgio Reis, encontraram um novo caminho no sertanejo.
Washington Morais recorda que os destinos dos ídolos foram bastante contrastantes. “A memória mais marcante é o paradoxo. Muitos desfilaram de carrões e sucesso, mas acabaram não sendo tão lembrados como outros. Por outro lado, Roberto Carlos segue há 60 anos no topo do cancioneiro popular.”
Para André Sturm, a permanência de figuras como o trio de apresentadores revela a força do movimento que a RECORD apostou há seis décadas. “O legado da Jovem Guarda acabou sendo muito maior do que ela própria. Sua evolução acompanhou a sociedade e permanece até hoje na música brasileira”, salienta.
Sessenta anos depois, a Jovem Guarda continua sendo lembrada como um dos maiores fenômenos culturais do século 20 no Brasil. Mais do que música, foi um estilo de vida que uniu comportamento, moda e linguagem. Um marco de juventude e liberdade que inspira novas gerações.
*Sob supervisão de Leonardo Meireles

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