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Notícias|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília

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Desafios climáticos e eventualidades globais, como o tarifaço dos Estados Unidos e a pandemia da Covid-19, passaram a exigir da agricultura mais eficiência e capacidade de adaptação. Diante de um cenário de incertezas e da rápida transformação digital, o setor acelerou a modernização do campo, ampliando o uso de tecnologias de automação e conectividade.

Para especialistas, essas ferramentas permitem aumentar a produtividade, reduzir desperdícios e diminuir impactos ambientais. Entre as soluções mais adotadas estão a agricultura de precisão, a internet das coisas, a inteligência artificial e os sistemas automatizados.


Uma pesquisa do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), entidade ligada à CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), indica que o uso de tecnologias como drones, big data e sensores pode elevar em até 29% a produtividade das propriedades rurais. O estudo também aponta uma economia média de 23% no uso de insumos, a depender do nível tecnológico já adotado pelo produtor.

Um exemplo prático aparece na produção de soja. Dados do Censo Agropecuário 2017, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), indicam que, entre 2006 e 2017, a produção mais que dobrou: saltou de 46,2 milhões para 103,1 milhões de toneladas — alta de 123%.


A expansão da área cultivada foi significativa, mas em ritmo menor. No período, o plantio avançou 72%, passando de 17,8 milhões para 30,7 milhões de hectares, o que evidencia ganho de produtividade no campo.

Segundo o levantamento, o ganho de produtividade está associado ao maior uso de tecnologias no campo e aos avanços em melhoramento genético, que permitiram elevar a produção sem ampliar proporcionalmente a área de cultivo.


O milho também apresentou avanço expressivo. A produtividade cresceu 56% (passou de 41,4 milhões para 88 milhões de toneladas), saindo de 3,6 toneladas por hectare, em 2006, para 5,6 toneladas, em 2017.

Uma das explicações para esse fenômeno, além das tecnologias de melhoria genética, é o uso de técnicas como o plantio direto, que permitiu a melhor execução da produção intercalada entre o milho e a soja, comum nos grandes estabelecimentos. A agricultura de precisão também é apontada como um dos fatores que possibilitaram esse aumento de produtividade.

IBGE

O pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Giampaolo Pellegrino explica que existem tecnologias atualmente capazes de fazer um mapeamento do risco climático. O sistema é baseado em dados históricos capaz de fazer simulações de plantios naquelas condições meteorológicas.

“Você consegue fazer várias simulações e, a partir disso, fazer o mapeamento do risco para determinada cultura, dependendo da condição do solo, da capacidade de armazenamento de água, da água disponível para a planta crescer e também da temperatura”, comenta.

Impacto dos eventos extremos

A elevação da temperatura global, provocada principalmente pela emissão de gases de efeito estufa, tem intensificado eventos climáticos extremos, como secas, enchentes, ondas de calor e padrões irregulares de chuva.

Essas mudanças pressionam os sistemas produtivos agrícolas, ampliando riscos ambientais, sanitários e também à segurança alimentar.

Um exemplo recente ocorreu no Rio Grande do Sul. As enchentes de 2024 provocaram prejuízo de quase R$ 520 milhões à agricultura e à pecuária, segundo o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, ligado à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil.

Em âmbito nacional, entre 2019 e 2024, os desastres naturais causaram perdas estimadas em R$ 253 bilhões no setor privado. Desse total, 67,7% correspondem à agropecuária.

Prejuízos por desastres naturais Luce Costa/ Arte R7

Além do prejuízo material, as enchentes afetaram diretamente o preço dos alimentos, comprometendo a segurança alimentar de diversas famílias.

Na época, a produção de arroz foi uma das mais afetadas, o que fez o preço do grão subir e impactar a cesta básica em 15 das 17 capitais pesquisadas pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

Mais recentemente, as chuvas intensas que atingiram o Distrito Federal em janeiro e fevereiro deste ano causaram prejuízos para produtores de hortaliças.

Além das mudanças climáticas, eventos imprevisíveis, como a pandemia de Covid-19, também impactam a agricultura. No auge da crise sanitária, parte das perdas foi mitigada com o apoio da tecnologia.

Segundo a Embrapa, uma das iniciativas foi a ferramenta “Plantio Certo”, que indica as janelas ideais de plantio para as culturas contempladas no zoneamento agrícola de risco climático.

Durante o período, a autorização para a comercialização por meio de leilões virtuais também facilitou a distribuição de insumos aos produtores e o escoamento da produção até o consumidor.

O papel da tecnologia

No contexto das mudanças climáticas, a agricultura ocupa uma posição ambígua. Ao mesmo tempo em que contribui para a emissão de gases de efeito estufa, é altamente vulnerável às variações do clima.

Esse duplo papel reforça a necessidade de ampliar investimentos em práticas de baixo carbono e em tecnologias capazes de reduzir os impactos sobre as lavouras.

Entre os sistemas mais resilientes estão a irrigação inteligente, a captação e o armazenamento de água nas propriedades e a agricultura de precisão.

Esta última se baseia no uso de ferramentas como drones, big data e sensores, que permitem monitorar as áreas de cultivo com maior precisão, reduzir desperdícios e elevar a produtividade com menor impacto ambiental.

A efetiva ampliação do uso do mix de tecnologias terá impactos importantes na produção agrícola, na segurança alimentar, no comércio e na qualidade ambiental. A diversidade dessas opções tecnológicas ilustra as principais vertentes de pesquisa em face da crescente escassez de recursos naturais, mudança do clima e maiores demandas de alimentos.

Embrapa

Especialistas ouvidos pelo R7 entendem que o Brasil não está atrasado no uso de tecnologias na agricultura. Pelo contrário, é um dos mais tecnológicos do mundo.

Segundo o consultor em agronegócio da BMJ Associados Victor Nogueira, os produtores rurais do Brasil estão entre os que mais empregam soluções tecnológicas, o que não é um fenômeno recente.

“Além de ser um país dos que mais utiliza, o Brasil também é um grande desenvolvedor de novas tecnologias, com destaque para as adequadas ao nosso clima. O país é líder em agricultura tropical e exporta conhecimento, técnicas e expertise para diversas nações no mundo”, destaca.

Agricultura digital Luce Costa/ Arte R7

Mesmo na liderança da adoção de tecnologias como inteligência artificial e internet das coisas, uma pesquisa realizada pela PwC e Fundação Dom Cabral aponta que o agronegócio brasileiro ainda enfrenta desafios para chegar à modernização digital.

O levantamento analisa a maturidade digital das organizações brasileiras, medindo o avanço da transformação digital e as principais estratégias para o avanço tecnológico sustentável, por exemplo.

“O levantamento mostrou que o índice de maturidade digital do agronegócio é de 3,1 em uma escala de 6, abaixo da média geral de 3,7 pontos. Esse resultado destaca uma contradição em relação à ampla adoção de tecnologias emergentes no setor, sendo a ausência de governança e de estratégia as principais lacunas”, diz o estudo.

Segundo Nogueira, para o Brasil continuar avançando nessa pauta é necessário tornar o ambiente local mais atrativo e receptivo à inovação.

“Isso requer o fortalecimento da defesa à propriedade industrial e do sistema de patentes do país. Com isso se incentiva a criação de novas empresas brasileiras e a instalação de estrangeiras em solo nacional, além do surgimento de mais AgTechs [startups do agronegócio]”, completa.

Outros fatores que impedem o uso de tecnologias mais inovadoras são o custo elevado e a mão de obra especializada.

“Isso esbarra em dificuldades relacionadas à educação e capacitação dos trabalhadores, um ponto que também possui relação com o tema da manutenção das novas gerações no campo. Além disso, existem limitações de divulgação das novas tecnologias e na amplitude da conectividade rural, pois existem áreas que ainda não possuem acesso à internet em velocidade e estabilidades necessárias”, pontua Nogueira.

Forças e fragilidades do agro Luce Costa/ Arte R7

Para Pellegrino, a desigualdade tecnológica sempre vai existir no meio agrícola, em especial por causa da constante mudança das inovações. Apesar disso, ele entende que existe um avanço no país.

“Tem coisa que a gente ainda não incorporou, claro, devido à rápida evolução da tecnologia. Mas isso vem sendo adotado no campo ao longo do tempo. Você pode até pegar as fotos simples de agricultores usando celular para se comunicar, ou estações meteorológicas, ou o agricultor que colocou uma antena que consegue internet via satélite, melhorando a ciência e acesso à informação”, completou.

Agricultura extraterrestre

A intensificação dos eventos climáticos extremos aumentou a frequência de ondas de calor, chuvas irregulares e períodos de seca. Muitas vezes, essas condições deixam o solo infértil e não oferecem condições para que as plantas se desenvolvam, cenário semelhante, mesmo que escala menor, a ambientes espaciais.

O interesse no desenvolvimento de tecnologias destinadas à agricultura espacial não é novidade no Brasil. Em 2022, foi criado o programa Space Farming Brazil, uma parceria entre a Embrapa e Agência Espacial Brasileira.

A iniciativa tem por objetivo inovar na produção de alimentos em ambientes extraterrestres, garantindo o desenvolvimento em condições de elevada radiação, baixa gravidade e ausência de solo.

Além do foco da adaptação de alimentos em ambientes inóspitos, os estudos podem contribuir para resolver os desafios enfrentados na Terra em relação às mudanças climáticas, segundo a Embrapa.

Mesmo com as tecnologias usadas atualmente na agricultura, o projeto é mais uma oportunidade para o agro conseguir driblar as mudanças climáticas.

Uma das expectativas da rede de pesquisa brasileira é de que o desenvolvimento da agricultura espacial inspire também inovações para a agricultura na superfície terrestre, cada vez mais desafiada pela crise climática.

Embrapa

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