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Notícias|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Em um ano, o Brasil registrou mais de 1.300 feminicídios, evidenciando a violência contra as mulheres.
  • Casos como o de Jane Oliveira e Tainara Souza Santos ilustram a brutalidade do feminicídio, com assassinatos frequentemente relacionados a términos de relacionamento.
  • Apesar de avanços legais, como a tipificação do feminicídio e o aumento das penas, ainda há lacunas na proteção e atenção às vítimas.
  • O governo federal busca implementar um pacto contra o feminicídio, mas há desafios na execução de planos e na articulação entre diferentes níveis de governo.

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A morte tem nome de mulher Arte/Record

No último dia de vida, Jane acordou cedo, se arrumou como gostava e foi às compras. Esperou o irmão, que chegava de viagem com a família, e passou a manhã preparando um almoço especial. À tarde, esteve com os filhos e a neta de dois anos. A família se reunia para o casamento da irmã de Jane, marcado para a semana seguinte.

Ao fim daquele sábado, porém, a Polícia Militar encontrou um corpo amarrado e enrolado em um lençol, abandonado em uma construção em Valparaíso de Goiás. Era Jane Oliveira, de 47 anos. O assassino, Wesley Santos, de 36, que um dia a chamou de “amor”, matou-a com múltiplas facadas, inconformado com o fim do relacionamento e com vê-la feliz sem ele. O homem foi preso em flagrante.


Jane, Maria, Jéssica, Sheila, Edilene, Cláudia, Adrielle. No Brasil, a morte parece ter nome de mulher. Segundo dados do ACNUDH (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos), o país registra mais de 1.300 vítimas de feminicídio em 2025.

Mais do que números, são mães, filhas e irmãs assassinadas pela condição de serem mulheres, arrancadas de suas vidas em qualquer dia da semana — como Jane, em um sábado com a família.


Na véspera de Natal, foi Tainara Souza Santos, de 31 anos, que morreu após 25 dias internada. Ela foi arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê por Douglas Alves da Silva, de 26, teve as duas pernas amputadas e não resistiu após nova cirurgia.

Brasil registra mais de 1000 feminicídios em 2025 Agência Brasil - Arquivo

Os casos reforçam a escalada da violência, apesar dos mecanismos de proteção. Segundo o Ministério da Mulher, o Ligue 180 registrou, nos primeiros 11 meses de 2025, cerca de 2.900 atendimentos por dia — alta de 20% em relação ao ano anterior.


No mesmo período, foram contabilizadas 126.455 denúncias de violência. Em 2024, o país fechou o ano com 1.459 vítimas de feminicídio, média de quatro mulheres mortas por dia.

Para a secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, Estela Bezerra, o aumento pode ser visto sob duas perspectivas: a urgência de ações mais efetivas e a melhoria na identificação dos crimes.

“O feminicídio está cada vez mais qualificado. O sistema de justiça reconhece melhor esses casos e a sociedade acompanha”, afirma.

Ela ressalta, no entanto, que a falta de integração entre os sistemas de segurança pública contribui para a persistência do problema.

“Não temos um sistema nacional integrado, como o SUS. Também não existe um protocolo único de atendimento às vítimas, o que faz com que o acolhimento varie de delegacia para delegacia”, explica.

Crime milenar, legislação recente

Até pouco mais de dez anos, matar uma mulher por ser mulher era tratado legalmente como qualquer homicídio. A tipificação do feminicídio é recente e acompanha avanços como a Lei Maria da Penha, de 2006, e a criminalização da violência psicológica, em 2021. Em 2025, o crime passou a ser autônomo, com pena de 20 a 40 anos de prisão.

Para a professora da Faculdade de Direito da UnB Janaína Penalva, não faltam mecanismos legais para conter a escalada da violência, mas sim estudos, protocolos nacionais e políticas específicas sobre o feminicídio. “É preciso levar a sério cada relato, proteger mulheres e meninas e entender que poucas estão preparadas para enfrentar um agressor”, afirma.

Ela também destaca a ausência de políticas voltadas às famílias das vítimas. “A história do feminicídio precisa registrar que aquela mulher, em sua singularidade, foi assassinada porque era mulher”, defende.

“Toda punição é só punição e nada mais. Se queremos um mundo em que as mulheres estejam livres de violência, teremos que construir isso no nível da cidadania”

Janaína Penalva, professora da Faculdade de Direito da UnB

‘Eu vi a minha irmã reduzida a uma manchete horrorosa’

“A última coisa que minha irmã me disse foi: ‘Beijo, a gente se vê na segunda-feira para ficarmos ansiosas juntas pelo casamento’. A segunda-feira não chegou”, lembra Janete Fontenele, de 41 anos, irmã de Jane.

Segundo ela, as violências continuam após o crime. “Vi minha irmã reduzida a uma manchete horrorosa. Meus sobrinhos viram imagens que nunca deveriam ver”, diz. Janete também questiona a atuação do Estado, já que o assassino usava tornozeleira eletrônica por um crime anterior. “Será que ele estava sendo realmente monitorado?”, questiona.

Ela conta que sua irmã havia terminado o namoro meses antes, e que não havia contado sobre alguma violência física sofrida, apenas mostrado longos áudios de seu ex, chorando e inconformado com o término.

“Quando ela foi ao encontro dele, foi para receber um dinheiro que ele havia pego emprestado com ela. Minha irmã foi ao encontro da morte achando que estava segura”, disse.

Jane (esquerda) e Janete eram muito próximas

A psicóloga forense Arielle Sagrillo explica que o feminicídio costuma ocorrer no momento em que a mulher tenta romper a relação. “Quanto mais o agressor sente que perde o controle, maior o risco”, afirma.

“Do ponto de vista psicológico, quanto mais o agressor percebe que está perdendo o controle sobre a mulher, maior o risco. Por isso o ponto de ruptura, como uma separação, denúncia ou tentativa de autonomia, costuma ser um momento perigoso para a mulher”, ressalta.

Segundo Sagrillo, o feminicídio é o estágio final de uma espiral de violência, que é perpetuada pela alternância entre episódios de agressão e momentos de “lua de mel” ou reconciliação.

“Esse aprisionamento psicológico se constrói porque a violência seguida de afeto reforça neurologicamente a ligação com o agressor. As reconciliações alimentam na mulher a esperança de que ‘ele vai mudar’, enquanto o medo do julgamento social, a culpa e a vergonha ampliam o isolamento”, afirma.

A especialista detalha que, a partir do aprisionamento psicológico, mesmo que a mulher saiba cognitivamente que está em risco, ela se sente emocionalmente incapaz de sair. Por essa razão, romper o relacionamento não é um ato único, mas sim um processo marcado por tentativas sucessivas.

A antropóloga Lia Zanotto completa o raciocínio, ao explicar que, socialmente, a construção histórica do patriarcado normaliza a presença dos diversos tipos de violência contra as mulheres, o que interfere na saída das vítimas das relações abusivas.

Segundo a pesquisadora, as limitações por gênero estão presentes tanto na vida privada quanto na pública e tendem a perpetuar a construção social de que a violência é justificável, possível e permissível.

“Em situações, por exemplo, em que uma mulher é estuprada no ponto de ônibus, dizem que a culpa foi dela, porque ela estava lá em tal horário da noite ou vestida de tal forma. Ou seja, tem toda uma culpabilização da vítima dos crimes sexuais e dos crimes físicos a partir dessa justificativa de que a mulher estava em lugares que não foram permitidos na cidade para ela”, exemplifica.

De acordo com Zanotto, essa “crença na desigualdade” explica porque a sociedade ainda, de alguma forma, tolera ou normaliza os crimes contra as mulheres. “Está dentro da expectativa da normalidade. Essa é uma certa forma crucial e triste de uma tolerância”, lamenta.

A mulher por trás do feminicídio

“O que mais dói é ver minha irmã virar apenas mais um número”, afirma Janete, sobre a estatística de vítimas de feminicídio no país. “Ela era alegre, vaidosa, fazia um bolo como ninguém e esperava ansiosa pela segunda neta.”

“Vou usar da nossa dor para que algo mude. Pela Jane, pela minha filha de 14 anos e pela neta que minha irmã não vai conhecer. Por um mundo diferente para elas. Minha irmã não será reduzida a um infeliz que cruzou seu caminho. Ela viveu uma vida inteira antes dele e ela é mais que seu final”

Janete Fontenele, irmã de Jane

A família de Jane participou de um ato contra o feminicídio no DF Cedida ao R7

A vida após a violência

Sobreviver à violência também deixa marcas profundas. “Eu morri, mas continuo viva”, diz Cláudia Lopes, de 50 anos, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio. Após ser esfaqueada, carrega cicatrizes físicas e psicológicas. “Hoje vivo com medo.”

Era um dia normal de trabalho em fevereiro deste ano, quando Cláudia saiu de sua casa, no Riacho Fundo, às 5h40, para a parada de ônibus. “Eu senti alguém me agarrar e falar no meu ouvido para eu ficar quieta. Ele colocou uma faca na minha costela”, lembra. Foi uma longa caminhada até as pessoas que estavam na rua perceberem que a mulher estava em perigo. “Andando ali eu sentia que só estava meu corpo, não minha alma. Achei que era meu fim.”

Quando foi socorrida por dois homens que passavam, Cláudia conseguiu se desvencilhar de seu agressor, mas não saiu ilesa. Foram três facadas, no peito e no braço e cirurgias até hoje para reparar os danos motoros causados pelo episódio. Mais que as cicatrizes físicas, porém, a dor psicológica é pior.

“Eu sempre fui corajosa, nunca tive medo de nada. Depois desse dia, todo dia sou assombrada pelo que aconteceu. Tenho que lidar com as dores físicas, com a depressão e com o medo constante que ficou”, diz.

A promotora de justiça Thaís Oliveira, coordenadora do Núcleo de Atenção às Vítimas do MPDFT (Ministério Público do Distrito Federal e Territórios) acompanha o caso de Cláudia e explica que o acolhimento à vítima de feminicídio é obrigação do estado e deve ser adequado a cada mulher diante de sua realidade específica.

“A tentativa de feminício não gera apenas consequências psicológicas, mas afeta outras áreas da vida, inclusive a financeira. Gera gastos com tratamentos, medicamentos e , por vezes, sem rede de apoio em um momento em que a mulher por vezes sequer pode trabalhar. O mínimo para um estado que falhou com a educação e o combate à cultura de violência contra a mulher é olhar para a vítima”, explica.

No governo federal

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem afirmado que o combate ao feminicídio é prioridade. Na semana passada, discutiu o tema com ministros do STF e do governo e propôs um pacto nacional contra o crime.

Apesar disso, a avaliação mais recente do Plano de Ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios aponta baixa execução: apenas 15% do orçamento foi utilizado. O relatório cita falhas na articulação entre União, estados e municípios.

Para mostrar empenho na causa, Lula pediu a expulsão, na quinta-feira (25), do servidor da CGU (Controladoria-Geral da União) David Cosac Junior, investigado por agredir a mulher e o enteado em Águas Claras, no Distrito Federal. O caso veio à tona após denúncias anônimas e imagens das câmeras de segurança do prédio. Agora, a CGU deve abrir um processo interno para demissão do servidor.

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