Um grupo de turistas faz fotos dos casarões coloridos no Alto da Sé. Poucos metros adiante, um senhor varre a calçada, comerciantes levantam as portas dos estabelecimentos e moradores seguem a rotina pelas ladeiras. Do mirante, a vista alcança o Recife e o mar. Nas ruas do sítio histórico, passado e presente convivem diariamente.
“Ó linda situação para se fundar uma vila.” Foi com esse encantamento que o donatário português Duarte Coelho teria escolhido o local onde surgiria Olinda, cidade da região metropolitana do Recife (PE), em 1535. Quase cinco séculos depois, a cidade continua despertando admiração. Entre igrejas centenárias, casarões coloridos e ladeiras íngremes, preserva um dos mais importantes conjuntos históricos do país.

Reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade em 1982 — a segunda cidade brasileira a receber o título, depois de Ouro Preto (MG) — Olinda reúne cerca de 1.500 imóveis históricos. Para quem chega de fora, a cidade parece viver em festa permanente, mas além da paisagem do cartão-postal, dos bonecos gigantes, do frevo e do maracatu, existe uma Olinda cotidiana: uma cidade viva, habitada por pessoas que trabalham, estudam, preservam tradições e mantêm, todos os dias, a essência cultural que faz de Olinda um dos maiores símbolos da identidade brasileira.
Tradição carnavalesca
Em meio às ladeiras de Olinda, a Casa dos Bonecos Gigantes mantém viva uma das maiores tradições da cultura pernambucana. Criado há cerca de 10 anos, o espaço reúne personagens que costumam ganhar as ruas apenas durante o Carnaval e recebe visitantes durante todo o ano. Nascido e criado na cidade, o produtor cultural Ivson Tomaz acompanha essa história de perto. “Aqui você encontra figuras que fazem parte da nossa identidade cultural, como Luiz Gonzaga, os papangus e outros personagens tradicionais”, conta.
A tradição dos bonecos gigantes em Pernambuco remonta ao início do século 20. Em Olinda, o maior símbolo é o Homem da Meia-Noite, criado em 1932. Todos os anos, à meia-noite do sábado de Carnaval, milhares de pessoas aguardam sua saída pelas ruas da cidade. “Todo mundo espera para ver qual roupa ele vai usar naquele ano. Nunca é a mesma, e isso cria uma expectativa enorme”, diz Tomaz.

Ao longo das décadas, os bonecos também evoluíram. Antes feitos de madeira, argila e papel, chegavam a pesar mais de 50 kg. Hoje, muitos são produzidos em fibra de vidro e pesam entre 13 kg e 15 kg. “Muita gente acha que quem carrega os bonecos está em uma perna de pau, mas não. É tudo na força do braço”, brinca o produtor cultural.
Filho de uma família apaixonada pelo Carnaval, Tomaz cresceu acompanhando blocos e orquestras pelas ruas da cidade. Entre as lembranças mais divertidas está a famosa “lapada”, quando um boneco gira inesperadamente no meio da multidão. “A gente escuta alguém gritar ‘olha o boneco’ e, quando vê, é lapada direto”, lembra, aos risos.

Quando fala de Olinda, a emoção aparece. Seu lugar favorito é a Praça do Carmo. Na gastronomia, recomenda aos visitantes sabores típicos como baião de dois, sururu, pratos à base de camarão e frutas da região, como a pitomba. E na hora de definir a cidade onde nasceu e cresceu, não hesita:
“Olinda será sempre linda”
Entre os mais novos integrantes da “família” de gigantes está o empresário e apresentador da RECORD Álvaro Garnero. Homenageado no ano passado com um boneco produzido em apenas dois dias, ele fez questão de entrar na estrutura e percorrer as coloridas ruas de Olinda, como manda a tradição. Ao se ver transformado em boneco gigante, brincou: “Ficou mais bonito do que eu.”
Preservação e inovação
Conciliar a preservação do patrimônio histórico com as demandas de uma cidade turística é um dos principais desafios de Olinda. Segundo o historiador Arthur Lira, doutor pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e que adotou as ladeiras como lar há 11 anos, essa discussão está ligada à própria formação do município.
Fundada no século 16, Olinda foi uma das principais engrenagens da economia açucareira do Brasil colonial. “Muitos senhores de engenho mantinham aqui suas residências e sua base administrativa. Eu costumo dizer que Olinda foi, durante muito tempo, a sede econômica do Brasil”, afirma.

A importância histórica garantiu à cidade o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, mas também trouxe desafios. Segundo o pesquisador, os custos de conservação dos imóveis históricos pesam no orçamento de muitos moradores. “Quando uma casa é tombada, qualquer reforma precisa seguir regras específicas. Isso encarece muito o processo”, explica.
O famoso mito de que o nome da cidade nasceu da exclamação do português Duarte Coelho — “Ó, linda situação...” — não encontra respaldo documental. “A hipótese mais aceita é que o nome veio de uma personagem de um romance de cavalaria que o donatário lia”, explica o pesquisador.
Para Lira, o potencial cultural de Olinda ainda pode ser mais bem aproveitado. Sem grandes indústrias, a economia local depende principalmente do turismo, do comércio, da gastronomia, da hotelaria e do artesanato. “Precisamos aprender a vender aquilo que temos: história, cultura, arte e patrimônio. Precisamos de eventos ao longo do ano inteiro”, defende. Ainda assim, ele rejeita a ideia de uma turistificação predatória. “Ao contrário de capitais europeias como Lisboa, ainda temos uma presença muito forte de moradores no Sítio Histórico. Não há expulsão em larga escala.”
O grande nó, segundo ele, extrapola os limites do Sítio Histórico. “Temos problemas crescentes de trânsito, saneamento e infraestrutura”, alerta. Apesar dos desafios, o otimismo prevalece. “Se pensamos em cultura popular, Olinda é referência nacional. O potencial existe; o que falta é transformá-lo em política pública para dar qualidade de vida a quem mora aqui”, afirma. Em tom pessoal, conclui:
“Eu escolhi viver em Olinda. E continuo acreditando que ela pode ser muito maior do que já é.”
Os desafios também são acompanhados de perto pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Segundo o superintendente do órgão em Pernambuco, Frederico de Vasconcelos Brennand, Olinda enfrenta ameaças ambientais cada vez mais frequentes.
Chuvas intensas, erosões e deslizamentos preocupam especialistas e moradores. “Existe um fenômeno em Olinda em que o solo está tendendo a escorrer”, conta. O órgão monitora fissuras em imóveis e acompanha o comportamento do terreno em áreas sensíveis do sítio histórico.
O Carnaval, embora sazonal, começa a ser preparado desde setembro e impulsiona a geração de empregos, mas também pressiona a infraestrutura de Olinda. A cidade não mudou muito em número de moradores nos últimos anos – são 349.976 habitantes, de acordo com o IBGE -, mas seu perfil se transformou. “Nem cresceu nem diminuiu, mas é uma população mais envelhecida”, observa o gestor.
Segundo o superintendente do Iphan, o futuro de Olinda passa pelo equilíbrio entre preservação, turismo e qualidade de vida. “Não consigo enxergar Olinda sem ser turística. E não existe Carnaval sem Olinda”, resume.
Investimentos e futuro
Para minimizar os impactos, o Iphan prepara uma normativa que deve simplificar pequenas intervenções em imóveis históricos e ampliar ações de capacitação para moradores. O pacote de obras na cidade inclui investimentos de até R$ 35 milhões e promete melhorias em lugares como o Mosteiro de São Bento, Largo do Monte e Igreja de São Pedro Mártir, além de projetos de restauro no Casarão Lundgren e no Cine Duarte Coelho.
Para o superintendente do Iphan, o maior desafio para o futuro de Olinda é a convivência. O choque entre a efervescência cultural e o sossego dos moradores é debate antigo. “Tem gente que foi morar lá pelo dinamismo. Outros não aguentam mais tanto som e festa. É preciso encontrar um denominador comum”, reflete.

Gastronomia que também tem história
No sítio histórico de Olinda, quem prova o tradicional Bolo Souza Leão acaba conhecendo também a trajetória do chef Arnandes Fernandes Vieira. Nascido em São Lourenço da Mata (PE) e criado no Recife, ele trocou a carreira na administração pela gastronomia e recebeu o título de cidadão olindense pelo trabalho de resgate da receita.
“Esse bolo mudou a minha história de vida”
Acredita-se que o Bolo Souza Leão tenha surgido no século 19, a partir da fusão entre a doçaria conventual portuguesa, rica em gemas e calda de açúcar, e ingredientes pernambucanos, tornando-se um símbolo da gastronomia do estado.
Em 2015, após ser demitido, o chef Arnandes decidiu recomeçar. Abriu uma cafeteria em Olinda e passou a pesquisar receitas históricas. Foi assim que redescobriu o bolo, até então menos conhecido que outros doces locais. “Eu era da administração, terno e gravata, uma rotina que eu não gostava. Resolvi estudar gastronomia e abrir uma cafeteria no sítio histórico. Eu queria contar uma história”, lembra.

A pesquisa o levou a registros do século 19, ligados à visita da família imperial a Pernambuco, onde encontrou uma versão da receita servida pela família Souza Leão, de Moreno (PE). “Passei meses ajustando até chegar ao sabor original”, conta. Feito com poucos ingredientes — massa de mandioca, leite de coco, 24 gemas, açúcar, água, sal e manteiga —, o segredo está na calda. Ela precisa atingir o “ponto de fio branco”, fundamental para a textura do bolo.

Hoje, depois de anos de prática, o preparo já faz parte da rotina. O reconhecimento veio aos poucos, impulsionado por guias de turismo e visitantes. Atualmente, cerca de 90% dos clientes vão à cafeteria em busca da iguaria. São quatro bolos produzidos por dia, somando mais de 60 fatias, e a procura aumenta em datas festivas. Mas o que mais o emociona são as reações dos clientes. “Tem gente que prova e começa a chorar lembrando da infância, da família. É muito emocionante.”
A relação com a cidade também trouxe homenagens, como o boneco gigante inspirado no chef no Carnaval. “Quando ouvi ‘chegou o rei do Bolo Souza Leão’ e vi o boneco, não acreditei”, relembra, emocionado. Hoje, ele resume sua ligação com a cidade com uma frase:
“Não fui eu quem escolheu Olinda. Foi Olinda que me escolheu.”
Entre as ladeiras históricas e a vista para o mar, o chef se diz realizado. “Não tem coisa melhor do que trabalhar olhando para essa paisagem.” E, enquanto serve o bolo que ajudou a resgatar, mantém viva uma parte importante da história de Pernambuco, e da própria Olinda.

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