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Estúdio|Ana Albini, Márcio Neves e Raul Dias, da Record

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Em 21 de março, a Polícia Federal deflagrou uma operação para apurar a retirada de material biológico de um laboratório de alta segurança da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Logo, os principais veículos de notícias cobriram o ocorrido, que veio à tona como um “furto de material genético”. Chegou-se, inclusive, a circular na internet uma suposta “ação de bioterrorismo”, que logo veio a ser desmentida pela própria Polícia Federal.

O fato é que, naquele momento, uma denúncia feita pela própria Unicamp e enviada para vários órgãos, como o Ministério da Saúde, a Anvisa e a própria Polícia Federal, deu origem à investigação.


Nela, a professora e chefe do laboratório de Virologia da Unicamp, Clarice Arns, assina a “denúncia” contra a também professora do Departamento de Engenharia de Alimentos, Soledad Palameta Miller, e seu marido, Michael Miller, que era aluno de Clarice, por retirarem sem autorização amostras biológicas do Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada do Instituto de Biologia.

Agora, uma investigação da Polícia Federal tenta esclarecer como uma relação construída dentro da pesquisa científica terminou envolvendo o desaparecimento de amostras virais de um laboratório da universidade.


Entre as amostras relacionadas na denúncia estão cepas de vírus e outros materiais biológicos utilizados em pesquisas científicas. A relação apresentada à Polícia Federal inclui materiais relacionados à influenza e diferentes vírus, alguns deles relacionados a doenças que contaminam animais, como a gripe aviária. Pelo menos 24 cepas estavam entre os materiais desaparecidos.

A documentação encaminhada pela própria universidade à Polícia Federal informa que o laboratório estava sob responsabilidade técnica e de biossegurança da professora Clarice Weis Arns. O material desaparecido estava acondicionado em criotubos, em equipamentos mantidos a cerca de 80 graus Celsius negativos.


No Domingo Espetacular de domingo (23), exibimos com exclusividade uma sequência de imagens que mostram a ação da professora Soledad e de seu marido, Michael Miller, dentro do laboratório.

Mas o desfecho, como revelado na reportagem, pode ir além da esfera criminal, e o que parece um crime ganha contornos de um grande mistério.

Pesquisadoras de alto nível

Clarice Weis Arns e Soledad Palameta Miller são pesquisadoras com trajetórias construídas na área de virologia.

Clarice é professora titular do Instituto de Biologia da Unicamp e tem décadas de experiência em isolamento, diagnóstico e caracterização de vírus humanos e animais.

Soledad, argentina formada em biotecnologia, fez doutorado e pós-doutorado na própria Unicamp e também passou pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, o CNPEM, trabalhando com engenharia de vetores virais, vacinas e diagnóstico de doenças.

As duas chegaram a publicar juntas trabalhos científicos relacionados a vírus e vacinas, inclusive uma pesquisa sobre candidatos a vacinas contra o vírus H5N1, causador da gripe aviária, uma das principais linhas de pesquisa de Soledad.

Um dos estudos da pesquisadora argentina, assinado ao lado de outros colegas pesquisadores, mostra uma tendência de mutação da gripe aviária para infecção em mamíferos, tendo registrado, inclusive, a morte de leões-marinhos por infecção pelo vírus da gripe aviária na costa do sul do Brasil e do Chile.

Já a professora Clarice é uma pesquisadora com décadas de pesquisas e dezenas delas devidamente registradas, sempre com foco na pesquisa de vacinas e análise de vírus. Foi, inclusive, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

Em conversas com pesquisadores e profissionais de virologia, sob condição de anonimato, eles apontam ambas as pesquisadoras como de “altíssimo nível” na área de virologia animal e humana.

Rotina insegura

Durante quatro dias, a reportagem do R7 acompanhou a rotina da universidade e flagrou a circulação de pesquisadores com caixas e frascos de materiais de pesquisa entre laboratórios do Instituto de Biologia da Unicamp.

Em várias ocasiões, flagramos pesquisadores circulando pelos corredores externos da universidade carregando caixas de isopor e frascos com conteúdos utilizados em pesquisas, inclusive em áreas próximas aos laboratórios que estão no centro da investigação da Polícia Federal.

Essa é uma constatação que ouvimos em relatos desde os dias que antecederam a operação da PF, após a denúncia da professora Clarice Arns. A movimentação informal fazia parte da rotina da universidade. A situação levou também a questionamentos sobre a própria estrutura de segurança da Unicamp.

No inquérito da Polícia Federal, inclusive, foi constatado “um cenário de informalidade no controle de materiais”, mencionando que as movimentações ocorriam “sem protocolos rígidos ou documentos formais” devido a conflitos entre os pesquisadores.

Outro ponto que chamou atenção é que a Universidade teve dificuldade em apresentar uma lista dos materiais retirados do laboratório, com informações imprecisas, o que foi visto como uma brecha no suposto controle rigoroso que deveria existir sobre o conteúdo armazenado no laboratório de biossegurança onde estavam as amostras.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) criticou a forma como laboratórios que armazenam cepas de vírus de interesse médico e veterinário são administrados no Brasil. Para o vice-corregedor do CFM e infectologista Francisco Cardoso, estruturas com esse tipo de material não deveriam depender exclusivamente da vigilância de uma universidade.

“Em países como Estados Unidos, Rússia e China, os laboratórios que armazenam essas cepas estão também sob a responsabilidade dos ministérios da Defesa. Uma universidade sozinha não pode ser responsável pela vigilância de um local que tem um potencial para ser usado como arma biológica, pirataria e terrorismo biológico.”

O também infectologista e conselheiro federal Domingos Sávio Dantas afirmou que o episódio expôs falhas de biossegurança.

O furto das cepas mostrou falhas de biossegurança e que as universidades estão com responsabilidades superiores às suas capacidades. Provavelmente não houve nenhuma contaminação, mas os riscos foram muito grandes.

Domingos Sávio Dantas, infectologista e conselheiro federal

Após o caso, o Ministério Público Federal também acendeu o alerta sobre a segurança desses laboratórios, tanto na Unicamp como em outras universidades com situações semelhantes no Brasil.

A Unicamp tem afirmado que ampliou a segurança e as regras, mas o que podemos notar, circulando pelos corredores do Instituto de Biologia, é que as brechas existem e é possível acessar os laboratórios sem grandes esforços.

Disputa ou crime?

Nos corredores da Unicamp, alunos e pesquisadores dão uma dica do que é mais provável: disputa. Mas mesmo uma desavença entre os envolvidos não apaga que Michael Miller e Soledad Palameta fizeram acessos não autorizados no laboratório de virologia da instituição – e devem responder por isso.

Fontes ligadas à investigação policial também são categóricas em dizer que há uma desavença entre Soledad e Clarice Arns e que esse seria o pano de fundo para a denúncia que desencadeou a operação da PF.

Em um dos únicos registros de manifestação da professora Clarice Arns, em entrevista à jornalista Mariana Camba, do jornal Correio Popular, ela levanta suspeitas sobre o uso do material supostamente furtado para benefício próprio de Michael e Soledad.

“Eles têm uma empresa, de certo iriam usar o material — uma empresa de agropecuária”, afirmou Clarice Arns na entrevista ao jornal.

De fato, a pesquisadora argentina e seu marido possuem uma empresa de biotecnologia para saúde animal, a Biotrix, que funciona incubada no parque tecnológico da Unicamp.

A própria Polícia Federal e o Ministério Público Federal querem detalhes sobre como funciona o processo de pesquisa e transferência de tecnologia do meio acadêmico para esse tipo de empresa, já que as pesquisas são todas financiadas com dinheiro público.

Entretanto, no inquérito da Polícia Federal, há registro de que a própria professora Soledad desconfiava de que a professora Clarice estaria utilizando indevidamente uma patente da qual ambas faziam parte.

Nos autos, há também registros de que Soledad afirmava que muitos dos materiais pertenciam a ela e foram trazidos de outro laboratório em que atuou como pesquisadora. E que há, entre os materiais apreendidos, frascos de materiais biológicos dados como desaparecidos em que as iniciais do nome da pesquisadora estão registradas.

Além disso, no inquérito, há conversas de WhatsApp que sinalizam que havia uma anuência dos coordenadores dos laboratórios, mesmo que consultados informalmente, para os acessos.

A ligação das pesquisadoras em patentes também chamou a atenção da PF, já que entre os trabalhos está uma pesquisa relacionada a um método que pode contribuir para o desenvolvimento de vacinas.

O advogado Fernando Chernobyl Kanuto, especialista em direito empresarial e propriedade intelectual, explica que, em regra, quando o pesquisador desenvolve uma invenção dentro da instituição à qual está vinculado, a propriedade intelectual pertence à instituição, enquanto o pesquisador aparece como inventor.

“Em geral, não só em universidades, se eu estou trabalhando para determinada instituição, a patente é da instituição. Seja para a universidade pública, uma privada ou até um laboratório privado.”

Segundo o especialista, disputas entre pesquisadores sobre autoria, reconhecimento e participação em uma descoberta não são incomuns. “É muito normal alguém achar que trabalhou mais que o outro e alguém se sentir prejudicado.”

E essas disputas podem envolver valores importantes. Uma pesquisa científica pode resultar em patente, licenciamento, transferência de tecnologia e até na criação de empresas.

Para Kanuto, transformar pesquisa acadêmica em produto comercial não é uma irregularidade. Pelo contrário.

“É permitido, absolutamente comum e até recomendável.”

O problema, segundo ele, está na falta de clareza sobre os direitos e responsabilidades de cada pesquisador.

Talvez o que foi combinado não foi colocado em um papel, não foi explicitado, as expectativas não foram alinhadas.

Fernando Chernobyl Kanuto, advogado especialista em direito empresarial e propriedade intelectual,

Outro ponto chama a atenção: na mesma entrevista dada por Clarice ao jornal, ela fala que comunicou à Universidade a movimentação suspeita logo que percebeu algo errado. Entretanto, na denúncia enviada para a Polícia Federal, há registros de movimentações desde novembro de 2025.

Segundo investigadores ouvidos na condição de anonimato, não está claro por qual motivo Clarice esperou tanto tempo para notificar a movimentação e não buscou questionar os próprios pesquisadores, Michael Miller e Soledad Palameta, sobre suas ações.

Na geladeira de casa

Quando a Polícia Federal realizou buscas relacionadas à investigação, no dia 21 de março, agentes foram à residência do casal e a diferentes locais da Unicamp.

Na casa de Soledad e Michael, numa chácara na zona rural de Campinas, foram apreendidos aparelhos eletrônicos, documentos e também seis caixas plásticas contendo pequenos recipientes com amostras biológicas, que estavam armazenadas no congelador da geladeira da cozinha da residência. O material foi encaminhado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para análise especializada.

A descoberta é particularmente importante porque mostra que havia material biológico armazenado fora dos locais institucionais originalmente destinados a esse tipo de amostra.

Também foram encontradas amostras em outros espaços dentro da própria Unicamp. Nas diligências realizadas nos dias 23 e 24 de março, a Polícia Federal, com apoio do Mapa e da Anvisa, localizou material biológico em áreas diferentes das originalmente destinadas ao armazenamento. Foram encontrados recipientes identificados como vírus em um ultrafreezer do setor de Doenças Tropicais e outros materiais em dependências da Faculdade de Engenharia de Alimentos.

Outro ponto relevante é que um dos episódios mais delicados ocorreu depois das buscas. Segundo a apuração, Soledad retornou ao laboratório e realizou o descarte de parte dos materiais que estavam sob investigação.

O procedimento teria seguido normas técnicas de descarte de material biológico, mas o fato de isso ter ocorrido depois do cumprimento das medidas judiciais passou a ser analisado pela Polícia Federal como possível interferência na investigação.

Prisão e vida acadêmica

Soledad chegou a ser presa em flagrante no dia 24 de março. O auto de prisão registra suspeitas relacionadas a crimes previstos no Código Penal e na Lei de Biossegurança. Ela foi submetida a audiência de custódia e posteriormente liberada.

A prisão, no entanto, não significa condenação. Soledad permanece investigada, assim como Michael, e a responsabilidade de cada um ainda precisa ser estabelecida, já que o inquérito da Polícia Federal ainda não foi concluído.

A reportagem procurou diversas vezes a professora Clarice Arns, a professora Soledad Palameta Miller e o pesquisador Michael Edward Miller, inclusive por meio de seu advogado, para que eles apresentassem suas versões sobre os fatos, mas eles não retornaram às nossas tentativas de contato.

Também procuramos a Unicamp. A universidade, porém, limitou-se a encaminhar posicionamentos e notas já divulgados anteriormente sobre o caso. Uma das notas cita o afastamento de Soledad de suas funções e a abertura de um processo administrativo disciplinar interno para analisar o ocorrido nas dependências da instituição.

Mas um ponto tem sido unânime entre pesquisadores e investigadores: a denúncia da professora Clarice foi devastadora para as carreiras de pesquisadores da professora Soledad Palameta e do marido, Michael Miller, que, mesmo diante de relevantes pesquisas e contribuições à ciência, podem ter sido jogados por água abaixo por uma sucessão de erros, desentendimentos e até mesmo vaidade – tanto de quem denunciou como de quem foi denunciado.

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  • Repórter Investigativo: Márcio Neves
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