Logo R7.com
RecordPlus

Estúdio|Diego Costa, do Núcleo Investigativo da RECORD

  • Google News

A histórica tensão entre Líbano e Israel ganha mais um capítulo que mais parece roteiro de cinema, cuja sinopse informa que há espionagem, terrorismo e agência de inteligência envolvida. Do outro lado, uma família enfrenta uma cruzada para inocentar o pivô deste enredo.

O engenheiro líbano-brasileiro Mohamad Abdolleh Saleh, de 30 anos, está preso em Beirute, a capital libanesa, acusado de colaborar com o Mossad, a agência de inteligência de Israel, por espionar a favor de uma nação inimiga, planejar ataques com bombas e participar de assassinatos de figuras públicas — inclusive uma liderança do Hezbollah, uma milícia com envolvimento político, que possui poder militar e recebe apoio do Irã.


Preso há quase sete meses, o caso segue em julgamento no Tribunal Militar libanês. Mohamad passará por nova audiência no dia 22 de abril. Se for condenado, a sentença ficará entre a pena de morte e a prisão perpétua.

A família de Mohamad Abdolleh Saleh, no entanto, nega que o engenheiro seja colaborador do Mossad. Os pais, Abdolleh Saleh e Nohad El Saifi, afirmam que o filho foi espancado, torturado, sofreu pressão psicológica e foi submetido ao polígrafo (um aparelho de detector de mentiras), além de não ter recebido água e comida. Por isso, a denúncia é que Mohamad foi coagido a assumir os crimes de espionagem e planejamento de ataques terroristas. Por se tratar de terrorismo, os direitos constitucionais foram tolhidos, sem ter advogado e receber visitas por 50 dias.


Nohad denuncia os maus-tratos e diz que o filho não tem vínculo com a agência de inteligência israelense. “O que fizeram com o meu filho foi tortura. Não há nada que o ligue ao Mossad. Ele ficou muito tempo sem comida, sem beber e sem dormir”. Após as supostas sessões de espancamentos, a mãe fala que o engenheiro foi forçado a admitir que era um espião. “Colocaram um saco preto na cabeça e ele só assinou, mas ele não sabe o que assinou.”

De acordo com Abdolleh, o filho está preso em uma cela de dimensões reduzidas e sem ajuda médica: “o meu filho fica em uma cela de 2 metros por 2 metros. As coisas estão muito feias para ele. Precisamos enviar um médico para ele”.


O advogado Mohamad Sablouh, que representa Mohamad, tenta a anulação do processo. “Não há, nos autos, qualquer prova, evidência ou material apreendido que confirme essas acusações. O cliente afirmou que os interrogatórios foram realizados sob agressões e tortura, e o Judiciário não investigou essas alegações”.

Mídia aponta culpa em morte de líder do Hezbollah

Israel e Líbano mantêm uma relação de hostilidade há décadas. Para os israelenses, o principal foco de tensão não é com o exército oficial libanês, mas com o Hezbollah. A mídia libanesa noticiou que Mohamad é acusado de participar do assassinato de uma das figuras políticas mais importantes do país: Hassan Nasrallah, Secretário-Geral do Hezbollah, morto no dia 27 de setembro de 2024. Essa notícia provocou medo na família, pois temem represálias do Hezbollah.

De acordo com a Segurança Geral do Líbano, Mohamad estava perto do local do crime, em Dahieh, no sul de Beirute, um dia antes. Mas a família afirma que o engenheiro estava no aeroporto para buscar o cunhado que vinha da Turquia. A defesa apresentou provas, como dados de comunicação e o comprovante de desembarque.

Outra prova apresentada é a festa de noivado realizada no dia 27 de setembro de 2024. Para a inteligência libanesa, a celebração teria sido de fachada.

Os pais de Mohamad também alegam sobre a ilegalidade dessa acusação, que foi anexada ao processo sem provas, e depois do encerramento do inquérito.

Quem é Mohamad

Os pais de Mohamad Abdolleh Saleh nasceram no Brasil, mas deixaram o país em 1995. O filho nasceu naquele ano no Vale do Bekaa, uma região a leste do Líbano e que é tradicionalmente povoada por líbanos-brasileiros. Para se ter uma dimensão, o país abriga a maior comunidade de brasileiros no Oriente Médio, já que 22 mil brasileiros viviam no Líbano em 2023, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores.

Mohamad é sunita, estudou engenharia civil em Beirute, tem mestrado na Alemanha e mantém moradias nos dois países. Mohamad se casou com uma enfermeira um mês antes de ser preso.

Em 2024, Mohamad foi contratado pela agência de consultoria Silvereye Consulting, especializada em tecnologia da informação. Segundo a descrição no LinkedIn — plataforma voltada ao mercado de trabalho —, a Silvereye tem sede em Hong Kong, na China. O engenheiro trabalhava numa filial na Alemanha.

Mohamad era designado para conduzir pesquisas de mercado na Europa, no Líbano e, posteriormente, apresentar projetos para potenciais investidores. No país onde nasceu, o engenheiro foi encarregado de iniciar um plano para impulsionar o turismo e armazenar móveis que seriam usados em hotéis ou casas alugadas.

Locação rende acusação

Mohamad Saleh alugou um imóvel no Líbano e, a partir desta locação, a vida dele mudou. Enquanto o engenheiro foi o responsável por fechar um contrato de aluguel de um galpão, o ucraniano Khaled al-Aida (apelidado de “Abu Ahmad”), também funcionário da Silvereye Consulting, foi incumbido de dar continuidade ao projeto. Mas Khaled desapareceu sem prestar quaisquer informações à empresa, o que levantou suspeitas dos chefes. Mohamad então foi orientado a viajar para Beirute para verificar se os móveis guardados no galpão poderiam ter sido furtados. Dois dias depois, a casa dele foi alvo de uma operação do serviço de inteligência da Segurança Geral do Líbano e veio a prisão.

A imprensa libanesa noticiou que Khaled é espião do Mossad, foi descoberto e sequestrado pelo Hezbollah. No entanto, segundo o noticiário, o ucraniano fugiu do cárcere localizado nos subúrbios do sul do Líbano após um ataque israelense. Khaled se abrigou na embaixada ucraniana no Líbano.

O advogado Mohamad Sablouh atribui o sequestro de Khaled a uma falsa denúncia feita às autoridades, segundo a qual Mohamad seria colaborador da agência de inteligência. O advogado deixa um questionamento: “se Mohamad Saleh tivesse cometido um crime ou estivesse colaborando com o Mossad, ele teria retornado ao Líbano?”.

Mohamad Sablouh afirma que Khaled não foi apresentado à justiça e que seu cliente não conhece o homem apontado pela imprensa por ser espião do Mossad. O advogado também apresentou uma queixa contra o Hezbollah por este sequestro.

Dispositivos de espionagem

O R7 Estúdio teve acesso exclusivo à investigação libanesa. No interrogatório, Mohamad disse que teria sido recrutado na Alemanha em 2024 para colaborar com o Mossad. O inquérito informa que Mohamad recebeu instruções para coletar informações sobre membros da comunidade islâmica e identificar endereços.

O engenheiro também foi treinado para esconder dispositivos em imóveis alugados, posicionar equipamentos em áreas urbanas específicas e enviar coordenadas por aplicativos criptografados. Segundo as autoridades, o suposto agente do Mossad admitiu que recebeu dinheiro para custear despesas operacionais.

De acordo com a investigação, Mohamad recebeu ordens para alugar depósitos em Metn, na Grande Beirute. Aparece ainda uma vila em Baadaran, no distrito de Chouf, na região do Monte Líbano. No norte do país, no distrito de Zgharta, a investigação cita uma vila em Bnashii, onde Mohamad teria instalado um equipamento a pedido de um operador.

O inquérito não especifica quais dispositivos seriam esses e como funcionam.

Explosivos e planos para assassinatos

No interrogatório, Mohamad relatou que foi instruído a se deslocar até um depósito na região de Naqqash — no distrito de Metn —, onde receberia um cinto explosivo. Em seguida, teria de se hospedar em um imóvel alugado e aguardar novas ordens para “uma explosão direcionada”.

Em outro trecho do documento, a Segurança Geral do Líbano alega que Mohamad forneceu coordenadas e informações para os assassinatos de Ali Al-Hajj, marido da tia paterna de Mohamad Saleh, e um dos líderes da Jamaa Islamiya — um movimento político islâmico sunita do Líbano e que é ligado ideologicamente à Irmandade Muçulmana. O grupo atua na política e em atividades sociais no país e possui também uma ala armada. O outro alvo seria Mohammad Dahrūj, que também exerce função de liderança na organização.

Mas, segundo o advogado Mohamad Sablouh, as informações fornecidas foram básicas, e o cliente não planejou as execuções.

Repercussão na mídia

A história de Mohamad virou notícia no Líbano. O canal libanês Al Manar TV trouxe informações sobre o caso.

  • Apresentadora: “O Grupo Islâmico tem uma grande parte nas confissões de Mohammad Saleh. Vamos para as confissões.”
  • Apresentadora: “Mohammad Saleh, da vila de Al-Sultanya Yaqub, ele entra no quadro do que descrevemos como ‘os executores’.”
  • Apresentadora: “O israelense — e aqui uma das ironias — o interrogou sobre o desaparecimento de soldados no incidente de Al-Sultanya Yaqub em 1982.”
  • Apresentadora: “Primeiro, ele fez o reconhecimento de locais para plantar explosivos no aniversário do martírio de Sayyid Nasrallah.”
  • Apresentadora: “Ele deu informações sobre membros pertencentes ao Grupo Islâmico.”
  • Apresentadora: “E aqui a informação pode ser dura: ele deu informações sobre o mártir Mohammad Dahrouj e o mártir Ali al-Haj.”
  • Apresentadora: “A ironia é que o mártir Ali al-Haj é marido da tia do detido Mohammad Saleh.”
  • Apresentadora: “Também foi pedido que ele se aproximasse de pessoas pertencentes ao Hezbollah e foi questionado sobre nomes específicos no Grupo Islâmico e no movimento Jihad Islâmica.”
  • Apresentadora: “As confissões de Mohammad Saleh em primeiro grau revelam o plano: detonar seis explosivos no aniversário do martírio de Sayyid Nasrallah.”
  • Apresentadora: “Este ataque ocorreria em cinco minutos. Entre a primeira e a última explosão: seis minutos.”
  • Apresentadora: “O local do alvo é a estrada do aeroporto e o local da celebração em Dahiyeh, Beirute.”
  • Apresentadora: “Seriam usadas motocicletas com explosivos para causar pânico e terror.”
  • Apresentadora: “E este jipe vermelho que vemos teria um papel em uma operação que poderia ser um assassinato na estrada do aeroporto.”
  • Apresentador: “Isso durante a grande aglomeração popular? Teríamos ido para uma catástrofe.”
  • Apresentadora: “A pergunta é: por que o israelense quer fazer isso? Para criar pânico.”

Apelo à Embaixada Brasileira

Enquanto o processo tramita, a família de Mohamad busca alternativas que possam ajudar na justiça. A defesa pediu a atenção da Embaixada Brasileira no Líbano. Os documentos mostram que Mohamad foi levado a julgamento “perante o Juiz Militar Chefe de Investigação, a Juíza Ghada Abu Alwan”. Na ocasião, o preso se retratou e negou as acusações.

A reportagem pediu um posicionamento ao Itamaraty, que enviou uma nota. “O Ministério das Relações Exteriores, por meio da Embaixada do Brasil em Beirute, tem conhecimento do caso e permanece em contato com as autoridades locais e com a família, a quem tem sido prestada a assistência consular devida”.

  • Diretora de Conteúdo Digital e Transmídia: Bia Cioffi
  • Coordenadora de Produções Originais: Renata Garofano
  • Repórter Investigativo: Diego Costa
  • Editor Chefe: Thiago Samora
  • Coordenadora de Arte Multiplataforma: Sabrina Cessarovice
  • Arte: Gabriel Marques
voltar ao topo

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.