A tecnologia deixou de ser algo complementar e tornou-se uma realidade cada vez mais presente no cotidiano escolar. O que antes era ocasional hoje auxilia o processo de ensino e aprendizagem, permitindo maior interação entre alunos e professores, além de facilitar o acesso à informação.
Recursos como celulares, notebooks e tablets, aliados a plataformas educacionais, aplicativos e ferramentas de inteligência artificial, vêm transformando a dinâmica das salas de aula e criando novas possibilidades de ensino. Ao mesmo tempo, trazem desafios inesperados e podem, até mesmo, aprofundar desigualdades.
Na base de tudo, educadores concordam que nada substitui a presença humana, o planejamento pedagógico e o envolvimento da comunidade escolar.
Uma das principais razões para a digitalização do ambiente escolar ter acontecido de forma tão rápida foi a pandemia da Covid-19, que impactou a forma de aprender no mundo inteiro. Com a suspensão das aulas presenciais e a necessidade de manter as atividades durante o período de isolamento, instituições de ensino precisaram recorrer às aulas remotas e ampliar o uso de ferramentas digitais, mesmo que muitas unidades não tivessem estrutura para essa mudança.
Em parte da rede privada, o uso de recursos digitais já fazia parte da rotina antes da pandemia. Já na rede pública, a adoção dessas ferramentas foi acelerada durante o período, de forma mais desigual, conforme a infraestrutura disponível.
Vantagens e dificuldades
Para a professora de matemática Silvana Michelen, que dá aulas na rede municipal de São Paulo desde 2018, a tecnologia trouxe ganhos concretos para a rotina em sala de aula. Segundo ela, a implantação de salas digitais pela Prefeitura de São Paulo, após a pandemia, tornou as aulas mais dinâmicas e otimizou o tempo dos professores.
“A maioria das minhas aulas é toda em slides. Para mostrar uma figura ou fazer a demonstração de um teorema, como o de Pitágoras, fica muito mais fácil. Enquanto os alunos copiam e resolvem os exercícios, eu consigo passar nas mesas e dar uma atenção maior”, afirma.
A docente destaca ainda que os recursos digitais reduziram o tempo gasto escrevendo e apagando a lousa entre uma turma e outra.
“Hoje em dia é só um clique no computador. Você muda a tela da aula do sétimo para a do oitavo ano. Então, assim, tem o lado bom da tecnologia”, completa.

Embora os recursos digitais já estejam presentes no cotidiano de parte das escolas e tragam mudanças positivas para a rotina dos professores, a desigualdade entre as instituições ainda é evidente quando se observa a estrutura disponível para o uso de tecnologia em sala de aula. É o que afirma a professora Renata Soares, formada em Letras há 20 anos e especialista em neuropsicologia. Ela relata que atuou por cerca de cinco anos no ensino público e também na rede privada.
“Existem escolas públicas em Arujá (SP), por exemplo, com laboratórios de informática, tablets para os alunos. Mas essa não é a realidade de todas. Depende muito da cidade e da estrutura que a escola consegue oferecer”, afirma Renata.
‘Emburrecimento contínuo’
Por um lado, a digitalização das escolas trouxe mudanças na infraestrutura e na forma de conduzir as aulas. Mas, por outro, o avanço de tecnologias mais recentes ampliou o debate sobre o papel da inovação na educação. A popularização da inteligência artificial, por exemplo, passou a levantar discussões que vão além do uso de computadores e projetores em sala de aula, envolvendo questões relacionadas ao processo de aprendizagem, à autonomia dos estudantes e ao pensamento crítico.
De acordo com a pesquisa TIC Educação 2024, divulgada pelo Cetic.br, sete em cada dez alunos do ensino médio que utilizam a internet recorrem a ferramentas de inteligência artificial generativa, como ChatGPT, Gemini e Copilot, para realizar pesquisas escolares. No entanto, apenas 32% dos estudantes afirmaram ter recebido orientações da escola sobre o uso adequado dessas ferramentas.
Renata Soares considera inevitável lidar com a tecnologia e defende que a inteligência artificial seja utilizada como aliada, com limites. Segundo a professora, apesar da capacidade de auxiliar na estruturação de ideias e na pesquisa, o uso da IA sem propósito pedagógico também pode prejudicar o desenvolvimento da autonomia intelectual, já que parte dos estudantes utiliza a ferramenta apenas para reproduzir respostas prontas, sem desenvolver o pensamento crítico. Ela define esse processo como um “emburrecimento contínuo”.
“Há um trabalho a ser feito com essa geração, porque eles foram muito impactados pela chegada da IA. Uma parte dos alunos não escreve mais, não pensa e não organiza os próprios pensamentos. Você passa uma atividade para fazer em casa e ela volta linda, maravilhosa. Mas, quando a atividade é em sala de aula, é aquele caos”, afirma.
Soares acrescenta que essa diferença também aparece nas avaliações.
“Agora não sai nada nas provas. A gente está tendo uma queda nas notas, e isso é perceptível. Acabamos nos enganando: parece que é um aluno que produz, que traz excelentes reflexões de casa, mas, no momento da prova, quando ele não tem acesso a nada, isso não acontece”, completa.
O desafio atual não é simplesmente proibir ou liberar a tecnologia, mas ensinar os alunos a utilizá-la com senso crítico, autonomia e finalidade pedagógica, sem abrir mão das bases fundamentais do ensino.
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A tecnologia no ambiente escolar em outros países
A incorporação da tecnologia nas escolas ocorre de maneiras distintas ao redor do mundo, refletindo as prioridades educacionais, os investimentos públicos e as características culturais de cada país.
Enquanto algumas nações utilizam recursos tecnológicos para potencializar o desempenho acadêmico, outras buscam equilibrar a inovação digital com o desenvolvimento do pensamento crítico e das competências socioemocionais.
Na Coreia do Sul, por exemplo, a tecnologia ocupa um papel central no processo de ensino e aprendizagem. O país iniciou, ainda na década de 1990, políticas voltadas à modernização da educação por meio da inserção de recursos digitais nas escolas.
Esse modelo está inserido em um sistema educacional conhecido pelo alto nível de exigência, no qual a dedicação aos estudos é fortemente valorizada pelas famílias e pela sociedade. A Coreia do Sul também figura entre os países com melhores resultados no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Além disso, apresenta elevados índices de conclusão do ensino médio, indicando a importância atribuída à formação acadêmica.
Recentemente, a inteligência artificial passou a desempenhar um papel ainda mais relevante na educação sul-coreana. O governo vem ampliando o uso de plataformas educacionais inteligentes capazes de acompanhar o progresso dos estudantes, identificar dificuldades de aprendizagem e oferecer conteúdos personalizados de acordo com o desempenho individual.
Além de apoiar o processo de ensino, essas tecnologias fornecem dados que auxiliam os professores no planejamento das aulas e na adoção de estratégias pedagógicas mais eficazes. Dessa forma, a inteligência artificial é utilizada como uma ferramenta de apoio ao trabalho docente, buscando tornar o ensino mais personalizado, inclusivo e alinhado às competências exigidas no século 21.
Finlândia: um passo para trás
Em contraste, a Finlândia, reconhecida internacionalmente pela qualidade de seu sistema educacional, passou a adotar recentemente uma abordagem mais criteriosa em relação ao uso da tecnologia.
O país investe em ferramentas digitais e em soluções baseadas em inteligência artificial, mas defende que esses recursos devem complementar, e não substituir, a atuação do professor. Nesse modelo, a tecnologia é utilizada para apoiar o processo de ensino, estimular a autonomia dos estudantes e desenvolver competências como criatividade, colaboração e pensamento crítico, sempre aliada à mediação pedagógica.
Nos últimos anos, entretanto, a Finlândia passou a reavaliar sua estratégia de digitalização após observar uma queda gradual no desempenho dos estudantes em avaliações internacionais, como o Pisa. Entre 2012 e 2022, o país registrou redução superior a 20 pontos nas áreas de leitura, matemática e ciências, levando pesquisadores e gestores públicos a investigarem os fatores que contribuíram para esse cenário.
Entre as hipóteses discutidas estão a flexibilização curricular, a ampliação do uso de recursos digitais nas escolas, mudanças demográficas, cortes orçamentários e alterações nas atribuições dos docentes, sem que haja consenso sobre uma única causa.
Diante desse contexto, o país europeu implementou, em 1º de agosto de 2025, novas medidas voltadas ao fortalecimento da aprendizagem e à redução das distrações provocadas pelos dispositivos móveis. A legislação passou a restringir o uso de celulares e outros aparelhos eletrônicos durante as aulas, permitindo sua utilização quando autorizada pelo professor para fins pedagógicos ou por motivos relacionados à saúde.
As escolas também receberam permissão de restringir o uso desses dispositivos em outros momentos do período escolar. Além disso, uma reforma do ensino básico acrescentou duas horas semanais de língua materna e literatura e uma hora semanal de matemática, com a distribuição dessas horas entre os anos escolares definida localmente, como uma tentativa de equilibrar o uso da tecnologia com o fortalecimento de competências fundamentais para a aprendizagem.

Brasil começa a repensar o uso das telas
Nos últimos anos, algumas escolas brasileiras começaram a optar por métodos tradicionais, como o uso de cadernos e livros, em vez de dispositivos eletrônicos. Na tentativa de controlar o uso excessivo de celulares em sala de aula, o país sancionou a Lei Federal nº 15.100/2025, que restringe o uso desses aparelhos no ambiente escolar, com o objetivo de reduzir distrações e favorecer a concentração dos estudantes.
Enquanto muitos acreditam que aprender sem aparelhos eletrônicos é ultrapassado, estudos indicam que o uso de canetas e lápis no lugar das teclas pode favorecer a retenção de conteúdo, estimular processos relacionados à memória e contribuir para a aprendizagem.
A mudança é motivada por uma preocupação crescente com os impactos do excesso de telas no aprendizado. Educadores e pesquisadores apontam que o contato constante com dispositivos digitais pode contribuir para a fadiga mental, dificultar a concentração e reduzir a capacidade de leitura profunda e reflexão crítica dos estudantes.
Para a professora Silvana Michelen, o excesso de telas impacta diretamente a atenção e a aprendizagem dos estudantes.
“Muitos alunos ficaram acostumados ao imediatismo das redes sociais e dos conteúdos rápidos. Hoje, eles têm menor tolerância à frustração e mais dificuldade para manter a atenção, interpretar textos longos e persistir em atividades mais complexas. Eles são muito imediatistas”, afirma.
Já a diretora e professora de escola pública Jaqueline Notaroberto, com 20 anos de experiência no ambiente de ensino, conta que os alunos começaram a sentir uma grande diferença a partir do momento em que tiveram que escrever.
“Há um medo da escrita. Para eles, escrever, fazer uma redação, falar, é muito mais difícil do que a tecnologia. Então, a gente procura desenvolver a produção de texto, que ficou um pouco defasada, acredito eu, pela pandemia”, afirma.
O relato demonstra uma preocupação dos educadores com o desenvolvimento de habilidades que podem ser prejudicadas quando o uso de recursos digitais substitui determinadas atividades tradicionais. Nesse contexto, a escrita à mão voltou a ganhar destaque. E, para muitas escolas, a proposta não é abandonar a tecnologia, mas encontrar um equilíbrio entre recursos digitais e métodos tradicionais de ensino.
Com isso em mente, cientistas do Laboratório de Neurociência do Desenvolvimento da Universidade de Ciência e Tecnologia da Noruega (NTNU) fizeram um experimento com 36 estudantes universitários por meio de um eletroencefalograma (EEG), exame que analisa a atividade cerebral com eletrodos colocados no couro cabeludo. Enquanto alguns participantes escreviam em tablets e notebooks, outros utilizavam papel.
Os resultados desse experimento, publicados na revista científica Frontiers in Psychology, revelaram que escrever com uma caneta aumentou a conectividade cerebral dos estudantes em diferentes regiões do cérebro, o que não foi observado entre aqueles que realizaram a atividade em computadores.
Além de contribuir para a retenção de conteúdo, o estudo sem telas permite maior convivência presencial, por meio de interações sociais e da participação de alunos e professores no processo de aprendizagem.

Tecnologia bem-vinda e necessária
Mas a discussão sobre os limites das telas não significa que a tecnologia tenha perdido espaço na educação. Quando utilizada com planejamento pedagógico, ela também amplia as possibilidades de inclusão e acessibilidade devido às diversas formas de pesquisa e à facilidade com que o conhecimento pode ser transmitido.
Ferramentas como leitores de tela, legendas automáticas, softwares de reconhecimento de voz e recursos de comunicação alternativa ajudam estudantes com deficiência e diferentes necessidades de aprendizagem a participar de maneira mais ativa do ambiente escolar.
Os recursos digitais também contribuem para tornar as aulas mais dinâmicas e atrativas. Vídeos, simuladores, plataformas interativas, realidade virtual e inteligência artificial permitem que os conteúdos sejam apresentados de forma mais envolvente, aproximando a teoria de experiências práticas e estimulando o interesse dos alunos.
De acordo com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), em uma pesquisa internacional sobre ensino e aprendizagem, os professores concordam ou concordam fortemente que o uso de ferramentas digitais desenvolve maior interesse pela aprendizagem, em média, em 85% dos alunos.
Outra mudança significativa é a personalização do ensino. Com o auxílio de sistemas inteligentes, é possível adaptar exercícios, atividades e conteúdos de acordo com o ritmo e as necessidades de cada estudante. Dessa forma, alunos com diferentes níveis de aprendizagem podem receber um acompanhamento mais individualizado, favorecendo o desenvolvimento de habilidades e a superação de dificuldades específicas.
Adaptação, acompanhamento e equilíbrio
A rápida expansão das tecnologias digitais também exigiu uma adaptação significativa por parte dos educadores. Muitos professores precisam reformular seus métodos de ensino e aprender a utilizar plataformas que integrem recursos diversificados ao planejamento pedagógico sem comprometer a qualidade da aula.
Nesse cenário, a mediação de pais e responsáveis se torna cada vez mais importante. O uso de tecnologia, especificamente de inteligência artificial, deve ser acompanhado pelos familiares para que a criança consiga se desenvolver sem depender da IA e também para orientar hábitos digitais e incentivar o uso consciente das ferramentas tecnológicas dentro e fora do ambiente escolar.
O futuro das escolas, portanto, não parece caminhar para uma educação totalmente digital nem totalmente analógica. Com o avanço da inteligência artificial e das transformações tecnológicas, a tendência apontada por especialistas é a construção de ambientes educacionais mais flexíveis, nos quais a inovação esteja a serviço da aprendizagem e do desenvolvimento humano.
O desafio dos próximos anos será encontrar o equilíbrio entre aproveitar os benefícios das novas tecnologias e preservar aspectos fundamentais da formação dos estudantes, como o pensamento crítico, a autonomia e as relações interpessoais.

- Diretora de Conteúdo Digital e Transmídia: Bia Cioffi
- Coordenadora de Produções Originais: Renata Garofano
- Reportagem: Beatriz Brolo Vitorino, Beatriz Melatto, Dhulyelle Almeida, Enrico Bezerra, Gabriela Bunemer, Giovane Vegas, João Fernando Afonso de Souza, Larissa Machado, Lorena Lourenço de Barcelos, Maria Catarina de Assis, Maysa Roque, Sabrina Laurentina, Tamiris Cardoso, Thaís Nayara Notaroberto, Vanice Christine
- Supervisão Centro Universitário Belas Artes: Mirian Meliani
- Coordenadora de Arte: Sabrina Cessarovice