Na Fundação CASA de Osasco, na Grande São Paulo, o dia começa antes mesmo de o sol atravessar as grades. O barulho metálico dos portões de ferro, o eco dos passos no corredor e o silêncio que vem logo depois marcam o ritmo de quem vive ali dentro. Na rotina dos internos, o tempo parece passar mais devagar, preenchido por uma espera constante que vai além do cumprimento das medidas socioeducativas. Ali o tempo segue outra lógica — mais pesado, como se cada segundo carregasse o peso de escolhas, ausências e sonhos.
É neste ritmo que histórias como as de Daniel* se desenrolam. Aos 18 anos, ele enfrenta sua segunda passagem pela Fundação CASA com uma maturidade forçada pelo arrependimento. Após uma primeira internação de seis meses, o jovem retornou ao convívio social acreditando estar pronto, mas a liberdade durou apenas 30 dias. “Meu retorno foi bem triste, bem vergonhoso. Achei que estava preparado, mas foi um estalo de dedo e já estava aqui de novo”, conta, sem esconder a frustração. Dentro da instituição, Daniel voltou a estudar e pretende concluir o ensino médio. Faz cursos, lê e diz que começou a enxergar o tempo como uma construção. “Primeiro cava, depois coloca os ferros, depois a massa… tijolinho por tijolinho.” É uma metáfora que ele repete, como se quisesse lembrar a si mesmo que mudanças não acontecem de uma vez.

Antes de tudo isso, sua rotina era dura e disciplinada. Aos 16 anos, começou a trabalhar em uma feira. Acordava às 3h30, passava o dia trabalhando e à noite seguia para a escola. Nos finais de semana, gostava de ficar com a mãe e a namorada. A relação com o pai, homem honesto e trabalhador vindo do Piauí, ficou mais difícil quando Daniel começou a se aproximar de companhias que desagradavam à família. “Ele sempre gostou das coisas certas, e a gente foi tendo um atrito. Ele me deu uma segunda chance quando eu entrei aqui na primeira vez e eu quebrei isso voltando”.
Quando olha para trás, identifica a raiz do erro na pressa. “Você querer as coisas antes da hora, isso se chama ganância. Amigo de copo tem vários, mas quando aperta, sobra um só.” Esse “um só”, para ele, é a mãe, presença constante que se tornou seu principal motivo para mudar. Ao final da conversa, Daniel deixa um pensamento que resume sua história:
“A gente só errou. Quem nunca errou?”
Ele não fala como justificativa, mas como quem reconhece a falha e, ao mesmo tempo, acredita na possibilidade de reconstrução. E, com um sorriso tímido, reforça o próprio sonho, quase como uma promessa: “Logo mais vou ser veterinário. Confio em Deus.”
Por dentro da Fundação CASA
Na Fundação CASA as salas de aula ocupam o lugar onde muitos esperariam encontrar celas.
Por dentro, a Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente), órgão do Governo de São Paulo responsável por aplicar medidas socioeducativas a jovens de 12 a 21 anos incompletos que cometeram atos infracionais, é um labirinto de contrastes silenciosos: o olhar que buscaria celas encontra salas de aula. Nos dormitórios, a frieza das camas de concreto lembra que o repouso ali não tem a leveza do lar; o corpo descansa sobre a pedra, enquanto a mente divaga para além dos muros. Ali, o horizonte é sempre interrompido pelas cercas de segurança. Nos espaços de aprendizado, mesas de plástico sustentam cadernos e sonhos — uma tentativa de normalidade sob constante vigilância.
Na unidade de Osasco, o funcionamento combina rotina disciplinada com ações voltadas à reintegração social. Os internos participam de passeios culturais sem algemas e com roupas comuns, medida que busca estimular a convivência fora do ambiente institucional; o uso de algemas é restrito a situações específicas, sendo permitido nas mãos à frente e, nas costas, apenas em casos de risco. A formação também é parte central do processo: é obrigatório que o jovem deixe a instituição com pelo menos um curso concluído, além de ter direito a uma formação pelo Senac após a saída.
O antes e o depois
Rafael* não tem tempo de ficar parado — se ocupa com muitos cursos. “Já fiz curso de vendas, grafite, teatro e agora tô na culinária. O de pizza foi o que eu mais gostei. Você faz a própria pizza, depois você come”. Aos 18 anos, ele fala com a calma de quem aprendeu a medir as palavras. Do outro lado da mesa, sua história aparece aos poucos, sem pressa, como quem reorganiza a própria vida enquanto conta. Ele lembra que, antes de tudo, sua rotina era simples e puxada. Trabalhava durante a semana em uma fábrica de caixas, das 8h às 18h, e nos finais de semana fazia entregas como motoboy.
Morava com a mulher, construindo aos poucos uma vida que parecia caminhar.
Sua trajetória começou a mudar aos 12 anos, quando saiu de casa após uma discussão: “Eu comecei a dar trabalho e, na casa da minha mãe, tinha hora para entrar, hora para sair e eu não estava obedecendo”. A mãe e as irmãs se revezam nas visitas, e foi justamente essa presença que o fez repensar muitos caminhos. Hoje, ele fala com emoção sobre essa mudança: “Eu não tinha coragem nem de chegar na minha mãe e dar um abraço, e hoje em dia eu dou um abraço nela”. Agora, seus planos são mais simples: quer tirar a habilitação, fazer curso de empilhadeira e talvez dirigir caminhão. Rafael deixa um conselho direto para os jovens que estão no mundo do crime: “Entrar nessa vida é uma ilusão. Tudo tem seu tempo”.
‘A Fundação CASA disputa o jovem com o crime’, afirma presidente da instituição.
A Fundação CASA tem como principal missão executar medidas socioeducativas e promover a reintegração social de adolescentes que cometeram atos infracionais. Segundo a presidente da instituição, Claudia Carletto, o objetivo é oferecer atendimento amplo para que os jovens retornem à sociedade em melhores condições. “A nossa principal missão é atender esse jovem, entender suas necessidades e devolvê-lo para a sociedade numa perspectiva bem melhor daquela que ele chegou aqui”, afirma.

De acordo com ela, muitos adolescentes chegam da instituição com defasagem educacional e dificuldades de acesso a direitos básicos. “Nós ainda temos casos de adolescentes que chegam analfabetos absolutos e é, dentro da instituição, que eles têm contato com o universo da educação pela primeira vez”, disse. Ela destaca que o atendimento inclui educação, saúde e atividades culturais, o que classificou como um “atendimento 360 graus”.

O diretor da unidade de Osasco, João Batista Ferreira da Silva, sabe bem o que é isso. Ele explica que “às vezes, o jovem chega no oitavo ano e é analfabeto”, e que, por isso, há trabalho de “alfabetização e letramento” e turmas multisseriadas. Cada jovem é acompanhado por uma equipe de referência com profissionais da segurança, pedagogia, saúde e psicossocial. A rotina é rígida e organizada, com despertar às 6h, aulas obrigatórias, cursos profissionalizantes e atividades culturais ao longo do dia pois, segundo ele, “os internos não ficam parados sem fazer nada, sempre tem uma atividade”.
Reincidência e reintegração: o que revelam os dados sobre a Fundação CASA

A ressocialização existe? Entenda os desafios
Questionada sobre o perfil dos adolescentes atendidos, a presidente da instituição afirma que a maioria das internações está relacionada ao tráfico de drogas e ao roubo. “Se você juntar o baixo nível educacional, cor da pele e situação econômica, você vai ter que o jovem que chega na Fundação CASA é o jovem preto, pobre, periférico que não teve acesso a muita coisa”.
Entre os desafios, a redução da reincidência aparece como prioridade para a presidente da instituição. Para os próximos anos, a fundação planeja ampliar cursos profissionalizantes e iniciativas culturais. “Se esse jovem conseguir gerar uma renda e ajudar dentro de casa, também é um fator importante para que ele não volte para a criminalidade”, diz.
João* tem 17 anos e fala com um jeito esperançoso. Ele diz que sua vida, antes de tudo, era tranquila. Cresceu em uma família presente, onde não faltava cuidado nem atenção. Trabalhava como estagiário em um hospital, estudava regularmente e levava uma rotina comum de um jovem que ainda descobria seus caminhos. Mas quando João fala do que mais gostava, seus olhos parecem se iluminar: era a convivência com a irmã mais nova. Ele acompanhou o nascimento dela e se tornou uma espécie de porto-seguro, especialmente porque a menina tem autismo leve. “Ela é muito apegada a mim e só eu conseguia acalmar ela”, lembra.
Ele também gostava de coisas simples: andar de bicicleta, jogar videogame com o pai, sair com a família nos finais de semana. Quando tenta explicar o que o levou até ali, João não fala de falta, mas de influência. “Eu era muito mente fraca. Os outros falavam e eu ia no embalo. Daqui a 10 anos, me vejo com minha família, indo na casa da minha mãe no final de semana e desfrutar um pouco da vida.”
Ele também reflete sobre empatia e diz que não pensou nas consequências nem nas pessoas que poderiam ser afetadas. Agora, reconhece: “Podia ser meu pai indo trabalhar e eu não ia gostar.” João sente falta de pequenas liberdades: abrir a geladeira à noite, assistir a uma televisão com calma, escolher a própria roupa. Detalhes que antes pareciam comuns e hoje ganham outro significado. Ele ri ao lembrar dos lanches da madrugada: “Gostava de rosquinha com leite condensado.” No final da conversa, ele resume sua visão com uma frase que carrega esperança: “Tem que mudar a direção para mudar o destino.”

Entre fé, apoio e reintegração
A ambição pelo retorno à sociedade conta com o apoio da fé. Dois programas da Igreja Universal — UNP (Universal nos Presídios) e USE (Universal no Socioeducativo) — oferecem acolhimento e apoio à ressocialização de pessoas privadas de liberdade e jovens em medidas socioeducativas.
Em 2025, as duas iniciativas alcançaram mais de 1,47 milhão de pessoas, com cerca de 59 mil voluntários, além de também prestarem suporte às famílias. A UNP está presente em 41 países, enquanto a USE já atua em 13 nações.
A religião aparece como um ponto de apoio em que os internos se agarram durante a internação. É o caso do Erick Henrique Brito Gonçalves, de 21 anos, que encontrou na igreja que atuava dentro da Fundação Casa um espaço de acolhimento.
“Eles começaram a conversar comigo, a dar conselho, a falar que eu podia ter um futuro. Foram alimentando minha mente com sonhos de novo.” Um funcionário da instituição também teve papel importante nesse processo. “Teve momentos em que eu ficava nervoso, frustrado, porque não recebia visita. Aí ele sentava comigo, lia uma palavra da Bíblia, conversava. Isso me ajudou muito.”
Antes da Fundação CASA, a vida de Erick Henrique era marcada por falta de apoio familiar, de estabilidade e de perspectivas. Aos 13 anos, ao deixar o sítio onde morava com sua família e ir para a cidade de Junqueirópolis (SP), encontrou novas amizades — e com elas, o caminho do crime. “Eu não tinha muita condição. Minha mãe enfrentava problemas com bebida e meu padrasto tinha falecido. Eu me senti sozinho. As pessoas que estavam comigo naquele momento foram as que me incentivaram a entrar nessa vida. E eu pensei: ‘O único jeito de ganhar dinheiro vai ser assim’”, lembra.
Aos 15, foi internado pela primeira vez. Saiu seis meses depois e voltou para a mesma rotina. “Quando eu entrei lá dentro, pensei: ‘Quando sair eu vou continuar’”. E continuou — até retornar à instituição pouco tempo depois. Foi na segunda passagem que algo começou a mudar. Sem receber visitas e praticamente sem contato com a família, Erick encontrou na solidão um ponto de virada. “Eu pensei: ‘Se aqui dentro já é difícil sem ninguém, imagina se eu cair em um presídio?’. Aquilo mexeu comigo. Foi quando eu decidi que precisava fazer diferente.” A partir daí, começou a se agarrar às oportunidades: voltou a estudar, fez cursos e concluiu o ensino médio.
Um dos cursos mudou o caminho: customização de bonés e camisetas. O projeto levou ele e outros adolescentes para um desfile em São Paulo, em 2022. Ao sair, já perto dos 18 anos, encontrou um novo desafio: resistir ao que ficou para trás. “Na vida errada, o dinheiro era fácil e trabalhando, não”. Mesmo assim, escolheu outro caminho. Com ajuda da Fundação CASA conseguiu emprego em uma loja, onde trabalha até hoje, e faz bicos como chapeiro nos finais de semana — habilidade desenvolvida em um dos cursos que quase abandonou na instituição.
Atualmente, quase dois anos depois de deixar a Fundação Casa, faz curso técnico em enfermagem e já iniciou o estágio. “Minha rotina hoje é trabalhar, estudar e ir pra igreja”. O futuro, agora, tem forma: profissão, casa própria e estabilidade. Ele deixa um recado para quem ainda está lá dentro:
A Fundação Casa não é o fim. É o começo de tudo.
Para Erick, recomeçar foi possível — e segue sendo, todos os dias.
*Os nomes dos internos da Fundação CASA foram preservados.

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