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Estúdio|Giulia Requejo, Márcio Neves e Patrícia Ferraz, da RECORD

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Seis horas da manhã, em frente a uma casa na periferia de Fortaleza (CE), três equipes da unidade de combate a crimes cibernéticos da PF (Polícia Federal) começam mais uma operação policial. Cuidadosamente, os agentes se posicionam e entram na residência. O alvo do mandado de busca e prisão da operação ainda está dormindo.

Quando eles entram no quarto, o homem está deitado na cama, segurando o celular. A tela ainda está acesa e, entre os itens abertos, estão imagens de abuso sexual. A vítima é a própria mulher.


Era mais um mandado cumprido em uma operação que investiga um tipo de crime silencioso — e difícil de detectar: homens suspeitos de dopar mulheres para abusá-las sexualmente enquanto elas dormem e vender estas imagens na internet.

Em vários casos, as vítimas eram as próprias mulheres ou companheiras, parentes próximas. Um dos investigados chegou a abusar de uma tia; outro é suspeito de ter feito isso com a própria mãe.


Eles sedavam as vítimas, mantinham relações sexuais não consentidas e filmavam.

Delegado Flávio Rolim, chefe do Departamento de Combate a Crimes Cibernéticos da Polícia Federal

O material, segundo a investigação, era vendido em grupos na internet. Ali, outros homens assistiam, comentavam e até trocavam instruções sobre como repetir o crime.

Mas o que mais chamou a atenção dos investigadores foi outro detalhe. Na maioria dos casos, as vítimas não faziam ideia do que estava acontecendo.


Misoginia Arte R7

O corpo sente, mas a memória não lembra

Durante anos, Aline acreditou que os sintomas que sentia tinham explicação médica. Ela acordava cansada, tinha dores nas costas, não conseguia se alimentar e tinha repetidos episódios de vômito. Sem falar nos esquecimentos frequentes.

“Uma confusão mental muito grande. Eu não me recordava onde guardava minhas coisas, não recordava o que tinha acontecido no dia anterior”, contou em um depoimento exclusivo para o Domingo Espetacular, da RECORD.

Aline relatou ainda que as noites de sono eram conturbadas. “Eu estava sonhando constantemente com pessoas dentro do meu quarto, gente me agredindo, eu sendo abusada. E, no outro dia, eu acordava e parecia que tinha sido um pesadelo.”

Segundo a Polícia Federal, relatos como esse aparecem com frequência quando se trata desse tipo de crime. As vítimas são dopadas com medicamentos que provocam sono profundo e perda de memória. Entre as substâncias usadas estão indutores de sono, relaxantes musculares e remédios de prescrição controlada.

“Essas medicações reduzem a atividade cerebral. A pessoa pode ter confusão mental, perda de memória e até perda de consciência”, explica o psiquiatra Thiago Rodrigues de Castro, coordenador da psiquiatria do Hospital Santa Marcelina e colaborador do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.

Segundo ele, a vítima pode até perceber sinais físicos de que algo aconteceu, mas não consegue registrar na memória. “Essas substâncias interferem no mecanismo de formação da memória. Muitas vezes, a pessoa simplesmente não se lembra”, diz.

Especialistas afirmam que esse tipo de violência está inserido em um contexto mais amplo de desigualdade e hostilidade contra mulheres.

“A misoginia é justamente a expressão de um comportamento marcado pelo ódio e pelo desprezo às mulheres, colocando-as em uma posição de submissão”, explica a advogada Cláudia Luna, pesquisadora na área de violência de gênero.

Segundo ela, esse tipo de violência tem raízes profundas na organização social.

Esse comportamento misógino vem de uma construção histórica de dominação masculina, em que muitos homens acreditam ter posse sobre a vida e sobre o corpo das mulheres.

advogada Cláudia Luna, pesquisadora na área de violência de gênero.

Violência que nasce na internet

Casos semelhantes chamaram atenção internacionalmente nos últimos anos. Na França, o caso de Gisèle Pelicot ganhou repercussão após a investigação revelar que a mulher foi dopada pelo próprio marido durante anos para que fosse estuprada por diversos homens enquanto estava inconsciente.

Os abusos foram gravados e compartilhados em ambientes online. O caso expôs como crimes desse tipo podem ocorrer dentro de casa e permanecer ocultos por longos períodos — muitas vezes sem que a própria vítima tenha consciência do que aconteceu.

Durante a investigação, a Polícia Federal descobriu que os crimes não aconteciam de forma isolada. Assim como no caso de Gisèle Pelicot, os investigados na operação participavam de sites e grupos em aplicativos de mensagens na internet e vendiam o conteúdo produzido com as vítimas ali.

Prints grupos de abusos Os abusos sexuais de mulheres eram gravados e compartilhados em ambientes online Arte R7

Nestes ambientes digitais, homens trocavam experiências sobre como dopar vítimas e discutiam até dosagens de medicamentos. “Eles compartilhavam o método, qual remédio usar, em que quantidade e como misturar na bebida”, explica o delegado Rolim.

Nos grupos investigados, os participantes também comentavam o comportamento das vítimas e sanavam dúvidas dos integrantes se elas haviam percebido algo no dia seguinte ou se tinham apresentado sintomas.

Trechos destes vídeos ou troca de mensagens sobre a prática, muitas vezes, circulam em grupos que misturam conteúdos que parecem piadas num contexto de ataques misóginos.

Dormindo com o Inimigo - Misoginia nas redes Comentários misóginos se multiplicam nas redes e acendem alerta sobre ódio contra mulheres Arte R7

Esses fóruns chegam a ter mais de 10 mil participantes. Em uma das postagens, uma mulher que passa em frente a uma loja é chamada de “vagabunda” e, em outra, aparece a frase: “Eu acho que toda mulher é retardada”.

O delegado explica ainda que esses ambientes digitais escalam a violência e dão abertura para que práticas criminosas como a que foi alvo da operação ganhem espaço. E, ainda, acabam alimentando a decisão de outros integrantes daqueles grupos de fazerem o mesmo.

“Quando essas práticas passam a circular em rede, elas se tornam replicáveis”, explica Flávio Rolim.

A dinâmica da internet também ajuda a ampliar esse tipo de comportamento. “As redes sociais têm sido um ambiente em que essa violência digital contra mulheres encontra espaço para se organizar”, afirma Cláudia Luna.

Segundo ela, nesses ambientes surgem comunidades que incentivam comportamentos violentos. “Homens e jovens se organizam em fóruns e grupos online, onde trocam conteúdos e acabam reforçando discursos de ódio, humilhação e violência contra mulheres.”

Dormindo com o Inimigo- grupos da internet O que parece “só comentário” ajuda a normalizar a violência contra mulheres Arte R7

Um problema que cresce

O avanço desse tipo de violência também aparece em números. Segundo levantamento do Observatório da Mulher contra a Violência, cerca de 8,8 milhões de brasileiras já sofreram algum tipo de violência digital.

Entre os casos estão ameaças, humilhações e divulgação de imagens sem consentimento, em um país em que, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil em 2025, um dos maiores índices da história.

Para a PF, a internet tem papel importante nesse cenário. “Antes, esse tipo de conteúdo circulava na dark web e hoje ele aparece em redes sociais e aplicativos de mensagens”, afirma o delegado Flávio Rolim.

Nos grupos investigados, alguns usuários apenas assistiam aos vídeos, outros incentivavam e alguns reproduziam os crimes.

A legislação brasileira prevê punição para todos esses casos. Os suspeitos podem responder por estupro de vulnerável, crime com penas severas. Já quem divulga imagens de abuso pode pegar até 10 anos de prisão.

Quando o inimigo está dentro de casa

Para Aline, o choque maior não foi apenas descobrir o crime, mas descobrir quem o havia cometido. A pessoa que dormia ao lado dela.

“Na convivência, realmente, parecia que ele era responsável, ele apresentava ser um bom filho, um bom sobrinho, sempre muito trabalhador”, conta Aline.

Segundo o delegado federal Flávio Rolim, esse aspecto torna o crime ainda mais complexo. “Quando o agressor tem relação íntima com a vítima, isso faz com que a violência seja ainda mais difícil de identificar. As vítimas demoram a desconfiar”.

Hoje, Aline ainda tenta reconstruir a própria história. Foi diagnosticada com depressão, síndrome do pânico e estresse pós-traumático. Passou a estudar criminologia e pretende buscar as cortes internacionais para fazer justiça.

Dormindo com o Inimigo- Aline Silva Entre cicatrizes e recomeços, Aline escolheu não se calar — por ela e pela filha PerfilOficial/ArteR7

“Eu senti, por muito tempo, nesses longos três anos, muita vergonha, muito nojo de mim mesma, por tudo que tinha acontecido. Mas eu tenho uma filha também; eu preciso, além de me proteger, eu preciso protegê-la. Então, para as pessoas verem que crimes assim acontecem, e que realmente o que aconteceu comigo é verdade, eu preferi colocar a minha face, para todos conhecerem.”

Para a polícia, histórias como a dela deixam um alerta de que a violência contra mulheres pode começar em silêncio, às vezes em um grupo na internet, às vezes dentro do quarto e, em alguns casos, ao lado de quem deveria proteger.

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