Da guerra ao Brasil: Refugiadas contam como reconstruíram suas vidas após fugir de conflitos e perseguições
A congolesa Prudence Kalambay, a iraniana Mah Mooni e a síria Nabila Yousif relatam trajetórias marcadas por violência, exílio e esperança de um novo começo
Estúdio|Ana Be*, do R7
Uma mãe congolesa rasteja para não ser vista enquanto, do outro lado da mata, militares angolanos espreitam por entre as árvores. Estamos no começo dos anos 2000. Prudence Kalambay acaba de fugir das forças de segurança de Joseph Kabila, presidente da República Democrática do Congo, e já se vê na mira da polícia de Angola. Ilegalmente no país, ela atravessa a selva sem a filha pequena. Não carrega consigo apenas uma mochila e as roupas do corpo; arrasta pelo chão a história de uma vida inteira.
Já Mah Mooni precisou amarrar e silenciar seu maior sonho por medo das advertências e execuções praticadas contra mulheres em seu país. A cantora sabia que, se permanecesse no Irã, teria apenas dois caminhos a percorrer: ser como um pássaro enjaulado com as asas cortadas, ou arriscar a vida tentando dar conta de seus anseios artísticos.
Na Síria, Nabila Yousif, uma estudante de economia, precisou viver em meio a bombardeios e mortes até que tivesse a chance de vender tudo que tinha e fugir para outra nação, na esperança de conseguir andar nas ruas e não se deparar com incêndios ou ataques militares.
Prudence Kalambay
Arte/R7
Prudence Kalambay, Mah Mooni e Nabila Yousif viveram em países diferentes, cresceram com culturas distintas, mas tiveram a mesma sina e igual destino: quando a única opção para sobreviver era fugir, apareceu o Brasil em suas vidas.
Esta é uma reportagem sobre mulheres que perderam muito, quase tudo, mas que não podem ser definidas apenas pelo que perderam, mas sim pelo que se transformaram a partir dessas perdas. É sobre o que existia antes da fuga, sobre aquilo que precisou ser deixado para trás e, principalmente, sobre o que nasceu da esperança e persistência para recomeçar.
Fuga ou morte
A história de Mah Mooni não começa no exílio. Na verdade, ela se inicia com o dia em que a neve clareava os desertos e os telhados das casas no Irã; na lembrança de uma menina que acorda e repentinamente vê um feito raro em seu país.

Para ela, a janela de sua casa, apesar do que a rodeava, refletia felicidade rotineira e muito amor providenciado por sua família. Porém, por mais que amasse seu país e tudo o que a sua cultura lhe proporcionava, cantar era a motivação do seu respirar e ela sabia que, dentro do território iraniano, não poderia realizar plenamente seu sonho.
“Meu problema nunca foi com meu país. Na verdade, meu problema é com um sistema político que, há quase 47 anos, controla a vida das pessoas. Para as mulheres, a repressão começou muito cedo; desde criança aprendemos o que não podemos vestir, cantar, dançar, dizer ou sonhar”, diz a artista sobre o regime dos aiatolás.
Segundo as diretrizes e interpretações do direito islâmico xiita adotadas após a Revolução Islâmica de 1979, há uma restrição para mulheres que desejam realizar apresentações musicais. No Irã, a proibição de cantar diante de plateias mistas é extremamente severa e pode resultar em castigos, como o caso de Hiva Seyfizadeh, que foi condenada a quatro anos de prisão por acusações como “incitação à corrupção e à prostituição”, após ter se apresentado num evento realizado em Teerã diante de uma plateia que incluía homens. Ou o da cantora Parastoo Ahmadi, sentenciada a 74 chibatadas por cantar em uma transmissão ao vivo sem o véu.
Não houve, para Mah Mooni, um “fatídico dia” em que a fuga para uma nação livre para sua profissão se tornou uma opção; na verdade, foi o acúmulo de anos de repressão sobre o que uma mulher poderia ou não vestir, dançar, dizer e, sobretudo, sonhar. Deixar casa, amigos e família era difícil, mas ela convivia com uma certeza incontornável: não queria terminar como Hiva Seyfizadeh e Parastoo Ahmadi.
Isso me marcou profundamente, porque não se tratava apenas de música. Quando um governo decide que uma mulher não pode usar a própria voz, ele está tentando controlar algo muito mais profundo: a liberdade daquela mulher. Eu cresci vendo essas limitações e entendendo que muitos dos sonhos que pareciam naturais para um menino não eram permitidos para uma menina
Mah Mooni via as mulheres serem paradas e advertidas pela polícia moral, artistas serem censuradas e presas, e manifestantes, mortas. “Eu não quero ser lembrada como uma mulher que fugiu. Quero ser lembrada como a mulher que se recusou a ficar em silêncio”, afirma.
Essa frase talvez resuma uma escolha que atravessa a vida de mulheres obrigadas a deixar seus países: fugir não é necessariamente desistir. Às vezes, é a única maneira de continuar. Nabila Yousif vivia dentro de uma Síria que, em 2011, parecia cada vez mais distante da paz.

Havia uma universidade que ensinava economia em pelo menos duas línguas estrangeiras e amigos que a respeitavam, mesmo sendo ela cristã ortodoxa em um país de maioria muçulmana. Tudo atendia às expectativas de uma mulher na sociedade, até uma bomba cair perto da escola de seus irmãos e uma guerra desencadear uma escalada de violência no território.
Iniciado pela onda de protestos da Primavera Árabe e pela repressão militar do governo, o violento conflito armado fez com que o perigo batesse à porta de Nabila e de sua família de seis pessoas.
Em poucos dias, precisou transportar uma vida inteira para pequenas malas. Corria à universidade para pegar documentos e se deparava com uma chuva de bombardeios. Tudo haveria de mudar. Casa, carro e bens rapidamente se transformaram em dinheiro o suficiente para sair do país e recomeçar.
Segundo Nabila, tudo que ela havia construído precisou ser repensado e sua vida passou a caminhar em uma linha tênue entre oportunidades complexas e a pobreza iminente. O dinheiro restante era pouco, e para ela não havia uma possibilidade segura de retorno à Síria.
No continente africano, Prudence Kalambay também era uma jovem cheia de sonhos. E de uma beleza reconhecida. Em 2000, foi eleita Miss Elegance; quatro anos depois, ganhou o Miss Bibila (termo que significa “mulher bonita”). À época, encarava ainda o preconceito gerado pela maternidade precoce e a severidade do próprio pai. Mas, para além de suas atividades e dos conflitos familiares, o destino lhe reservava um caminho diferente.

Em certo ponto da sua carreira como modelo, Prudence chamou a atenção de muitas autoridades congolesas e acabou sendo recomendada para trabalhar na Chancellerie des Ordres Nationaux (Chancelaria das Ordens Nacionais), sob o comando de uma das figuras mais eminentes no país que viveu na virada do século um dos conflitos armados mais mortíferos desde a Segunda Guerra Mundial. Faustin Munene, militar e político, a quem Prudence se refere como “meu chefe”.
Em meio às disputas políticas locais, Faustin Munene tentou dar um golpe de Estado no presidente Joseph Kabila, mas falhou — Kabila só deixou o poder em 2019, deixando seus subordinados se transformarem em fugitivos. “Um dia chegou essa sombra”, relembra Prudence sobre o momento em que percebeu não haver alternativa senão deixar a República Democrática do Congo. A primeira parada foi na vizinha Angola.
Porém, o novo país não lhe era menos hostil. Historicamente, Angola sempre reprimiu o fluxo migratório de congoleses. Na mira das forças locais, Prudence precisou deixar a filha com desconhecidos para que pudesse atravessar a selva com a ajuda de um “coiote” e arranjar um novo lar. Chegou a ser pega uma vez; também foi roubada e ficou só com a roupa do corpo. Mas o mais importante: teve de novo a filha em seus braços e, já na capital Luanda, o vislumbre de um novo destino: o Brasil.
A jornada para um recomeço
Segundo os dados mais recentes do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), no final de 2025 havia 41,6 milhões de pessoas refugiadas em todo o mundo, além de 68,7 milhões de pessoas deslocadas dentro de seus próprios países devido a conflitos ou violência. Atualmente, 1,4% da população global, ou uma a cada 70 pessoas, encontra-se em situação de deslocamento forçado. Entre 2010 e 2025, o Brasil recebeu solicitações de reconhecimento de condição de refugiadas de pessoas vindas de 177 países. Foram 551.072 pedidos no período, de acordo com o relatório Refúgio em Números. Só no ano passado, 165.774 pessoas tiveram a condição de refugiada reconhecida pelo governo brasileiro, um aumento de 5,9% em comparação com 2024.
Por trás dos números, são encontradas trajetórias que carregaram o medo de deixar familiares e uma vida já formatada, a insegurança de viver sob uma nova língua, a dificuldade de encontrar trabalho e a necessidade de reconstruir uma vida inteira.
“O nosso trabalho é garantir que sejam bem recebidas e encaminhadas para acessar serviços de documentação, políticas de assistência social, educação, saúde, trabalhos de geração de renda, apoio para matricular as suas crianças nas escolas e projetos de qualificação profissional ou de reconhecimento das suas competências [...] A gente sempre diz que uma pessoa refugiada nunca vem de mãos vazias, e acho que a parte menos contada dessas histórias é a potência e capacidade de resiliência que é demonstrada por tantas mulheres refugiadas”, afirma a porta-voz do Acnur no Brasil, Silvia Sander.
Segundo a representante da agência, na maioria das vezes, a bagagem das mulheres que precisam recomeçar suas vidas em outro país, como o Brasil, traz ansiedade, o medo constante do “novo”, a dificuldade de confiar, a culpa por deixar familiares e amigos para trás e outros sentimentos que compõem demandas à saúde mental e que, em muitos dos casos, resultam em doenças.

“Como aprender um novo idioma, se adaptar e compreender a nova cultura? Buscar uma nova moradia, acessar serviços públicos nos diversos setores, reingressar no mercado de trabalho e assim por diante? É importante dizer que, apesar de esses temas serem recorrentes, cada experiência é única. Então, a maneira como essas mulheres vão reagir e digerir tudo o que elas viveram partirá das ferramentas e mecanismos da experiência de vida de cada uma”, ressalta Silvia.
Prudence Kalambay relata ter se apaixonado pelo povo brasileiro por meio das novelas. A língua e as histórias retratadas na telinha chamaram sua atenção e, depois de alguns anos em Angola, ela veio para o Brasil para recomeçar. O começo, marcado pela barreira da língua, a pobreza e o preconceito, não foi simples.
“Era difícil para mim. A adaptação foi difícil; eu continuei a assistir às novelas. Quando me lembro, percebo que a língua foi a primeira barreira. Quando estava vindo para o Brasil, pensei que iria morar ‘naquelas casas’ [mostradas nas novelas], sabe? Mas, quando desci no Rio de Janeiro, acabei indo parar na comunidade Brás de Pina. Aos poucos eu conquistei meu lugar, comecei a mostrar que o fato de ser refugiada não era nada. Eu sou humana, tenho minha inteligência, frequentei escola na minha terra, briguei pelo direito de refugiada”, enfatiza Prudence.

Nabila Yousif, por sua vez, chegou ao território brasileiro por São Paulo para ficar na casa de um irmão, casado com uma brasileira. Segundo ela, as condições financeiras da família não eram das melhores na época, já que o dinheiro da venda do carro na Síria já estava se esgotando.
“Eu acho que eu consegui rápido um visto para o Brasil porque as pessoas não estavam vindo para cá. Quando cheguei, foi difícil, porque pedi o processo na Polícia Federal, mas acho que nem mesmo eles sabiam o que fazer. “Estava muito no início, né?”, relembra.
De acordo com um levantamento feito pelo Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), do Ministério da Justiça, o Brasil se tornou o principal destino para os refugiados na América Latina em 2015, quatro anos depois do início da guerra na Síria, abrigando cerca de 1.600 cidadãos sírios. Segundo o comitê, 1.326 solicitações de refúgio ocorreram somente em 2014, um recorde, registrando um aumento de quase 9.000% em relação ao início da guerra.
Sem entender nada do português, Nabila passou por aulas diariamente para conseguir se comunicar na nova morada. Logo começou a trabalhar e, após validar sua documentação escolar e universitária, iniciou seu processo de matrícula em uma universidade de Florianópolis para cursar administração pública.
Durante as aulas da universidade, Nabila precisava pesquisar todos os significados de explicações das matérias e atividades para conseguir tirar boas notas, se formar e construir uma vida nova: “Tem muitas pessoas que saem da Síria sem nada, ou às vezes vêm de barco, morrem no mar. Pessoas que atravessam a fronteira. Então, para recomeçar, você precisa de uma estrutura, você precisa ter vontade de fazer as coisas. Eu fui estudar, nunca parei”, relata Nabila.

Para Mah Mooni, o recomeço também significou encontrar um espaço onde seu maior sonho continuasse existindo. A mulher que havia crescido sabendo das restrições impostas às suas escolhas carregava consigo a música, o desejo de cantar e a certeza de que não queria ser lembrada apenas como alguém que havia fugido. Por isso, ao chegar ao Brasil, apesar das dificuldades em encontrar gravadoras, não desistiu.
Sua trajetória, assim como a de Prudence e Nabila, não terminou quando deixou seu país; a fuga foi apenas uma das partes de uma história que continuaria a ser construída por aqui.
De acordo com a porta-voz do Acnur Brasil, muitas mulheres refugiadas precisam passar pela “virada de chave”; o momento em que a “ficha cai” e tudo precisa ser refeito na prática. Geralmente, segundo a especialista, essa fase é constituída por conquistas como um emprego novo, matricular os filhos em uma escola, a iniciação de cursos de idiomas, a aquisição da primeira moradia em território estrangeiro e muitas outras.
“É caminhando para essa virada de chave, compondo um novo ambiente de pertencimento social, que tudo vai se ajustando nesse processo de transição, da experiência de trauma e da violência, para um olhar mais voltado para o futuro, de sentir-se vista como a pessoa e a potência que ela é”, argumenta Silvia Sander.
‘O meu lugar’
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados calcula que 50% das pessoas nessa condição no mundo são mulheres e faz um alerta: elas são mais vulneráveis e suscetíveis aos riscos do deslocamento. No Brasil, informa o Conare, vivem atualmente 36.744 mulheres reconhecidas como refugiadas.
Eu sempre acredito que tudo na vida tem um motivo. Eu acredito muito na palavra maktub, que define algo que já está escrito. Nada acontece sem um motivo.
Maktub. Era o Brasil escrito no destino dessas três mulheres.
Após as dificuldades iniciais, Prudence fez do Brasil o seu lugar. Além de seguir como modelo e atriz, passou a engajar-se, por meio do próprio Acnur, na causa que tanto conhece. Mudou-se para São Paulo e começou a participar de um projeto de empoderamento de mulheres refugiadas e de reintegração ao mercado de trabalho.
Além disso, sua história passou a ser contada para várias gerações de mulheres que buscaram abrigo e que, assim como ela, precisaram de um rumo e de um auxílio. Hoje avó de três netas e bem estabelecida no Brasil, não esquece do seu passado.

Ela se emociona ao relembrar o Genocost, um conceito que denuncia o genocídio na República Democrática do Congo. Todo 2 de agosto, ela se mobiliza para mostrar suas raízes e ressaltar a importância da memória, mesmo para quem está distante. “Mesmo longe de nossa terra, podemos preservar a nossa identidade. Que cada mulher congolesa saiba que não está sozinha”.
Já Nabila se formou em administração pública, encontrou seu lugar no mercado de trabalho, casou-se e construiu uma família com um cidadão brasileiro. Numa rede social, ela tem mais de 84 mil seguidores, e com eles compartilha desafios e alegrias da vida de uma mulher síria no Brasil. Ela também virou professora de árabe e oferece um curso pela internet.
Da mesma forma, Mah Mooni passou a exercer seu sonho no Brasil. Cantora e compositora, luta agora pelo sucesso, já que o direito de mostrar sua arte não é proibido no local que escolheu para viver. Sua bela voz conquista um público cada vez mais fiel, e sua beleza, que antes poderia ser vista em suas performances como promiscuidade, não é mais motivo de medo.
Nenhuma das três histórias terminou no momento em que atravessaram suas fronteiras.
Três mulheres. Três países. Três fugas diferentes. Mas, para todas elas, sobreviver significou continuar. E significou um lugar: o Brasil.
*Sob supervisão de Arnaldo Pagano, editor do R7

















