Logo R7.com
RecordPlus

Estúdio|Do R7

  • Google News

Gina Lapertosa treina de manhã e à tarde. Faz fortalecimento todos os dias, corre duas vezes por semana e treina Hyrox em três deles; nos outros três, pratica CrossFit. Entre um campeonato e outro, inspira seus 1,1 milhão de seguidores, que acompanham sua rotina nas redes sociais. Hoje, aos 63 anos, Gina segue em movimento e faz parte de uma geração que está redefinindo o envelhecer.

Ela lembra que cresceu vendo os avós sentados na varanda, fazendo crochê ou assistindo televisão. Naquela época, sua geração acreditava que envelhecer significava ficar quieta, parada. “Só que a vida hoje proporciona muito mais possibilidades e experiências fora de casa”, diz. Para Gina, quem faz boas escolhas vive melhor. “Vou poder aproveitar minhas filhas, vou viajar, vou fazer tantas coisas que, sem saúde, você não consegue”, afirma.


Histórias como a de Gina refletem uma transformação em curso na sociedade brasileira. O país está envelhecendo em ritmo acelerado e vê surgir uma nova geração de idosos — mais ativa, conectada e diversa. Dados do IBGE indicam que, em pouco mais de duas décadas, a população brasileira com 60 anos ou mais passou de 15,2 milhões para 33 milhões de pessoas. A previsão é que, até 2070, cerca de 37,8% dos habitantes do Brasil sejam idosos, o equivalente a 75,3 milhões de pessoas.

Esses números não revelam apenas uma mudança demográfica, mas apontam para a necessidade de transformações culturais, econômicas e sociais — uma nova forma de entender o envelhecer.


Quando se trata do aumento da longevidade no Brasil, Maysa Seabra Cendoroglo, geriatra e coordenadora do ambulatório de Metabolismo e Longevidade da Unifesp, destaca que o principal fator não é a genética, mas o estilo de vida. Manter-se em movimento, ter uma alimentação equilibrada, cultivar relações sociais e garantir um sono de qualidade são pilares que ajudam a preservar o corpo e a mente.

O equilíbrio é o ponto mágico onde a gente consegue realmente os melhores resultados

Maysa Seabra Cendoroglo, geriatra e coordenadora do ambulatório de Metabolismo e Longevidade da Unifesp

Para Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o envelhecimento da população reflete uma geração que cresceu rompendo padrões. A maior parte dos idosos de hoje pertence à chamada geração baby boom, nascida em um período de alta fecundidade. Foi também essa geração — especialmente as mulheres — que passou a frequentar a escola e ingressar no mercado de trabalho.


Camarano observa que “quem fez a revolução sexual em 1968 não vai abrir mão da sexualidade aos 70”. “[...] Foi uma geração protagonista de grandes transformações quando jovem e está carregando essas mudanças à medida que envelhece.”

Essa transformação também aparece nos números. De acordo com o IBGE, a expectativa de vida no Brasil passou de 73,8 anos, em 2010, para 77,6 anos, em 2024. A tendência de crescimento continua nas projeções para os próximos anos, revelando o impacto de um estilo de vida mais ativo e conectado adotado por uma parcela cada vez maior da população.

As mulheres seguem sendo maioria entre os idosos e vivem, em média, sete anos a mais que os homens: 80,25 anos contra 73,26, segundo as estimativas mais recentes.

Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que o número de trabalhadores com 60 anos ou mais cresceu 68,9% no Brasil entre 2012 e 2024. Janaína Feijó, pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV-IBRE, explica que a permanência dos idosos no mercado de trabalho está relacionada tanto ao aumento da expectativa e da qualidade de vida quanto ao elevado custo de vida no país. Muitas pessoas com mais de 60 anos desejam continuar trabalhando, mas há também aquelas que retornam por necessidade.

Segundo ela, o Brasil vive uma transição demográfica que resultará em cada vez menos jovens, ao mesmo tempo em que a economia seguirá demandando mão de obra. “Por isso, é importante manter quem está apto para trabalhar, independentemente da idade”, afirma. A grande questão, no entanto, é a qualidade dessa inserção, que ainda precisa melhorar.

Janaína observa que boa parte desses profissionais está na informalidade, o que reflete desigualdades estruturais. “A informalidade tem a característica de ser mais flexível, mas é desprotegida de garantias e direitos sociais”, lembra. Em geral, os idosos que trabalham para complementar a renda estão nesse segmento e, em média, ganham menos do que aqueles inseridos no mercado formal.

O que mudou não foi apenas o número de pessoas com mais de 60 anos no país, mas também o perfil desse grupo. A nova terceira idade já não cabe mais na imagem “tradicional” dos idosos de antigamente. Eles vêm se reinventando pessoal e profissionalmente, explorando carreiras e funções antes consideradas exclusivas dos mais jovens.

Omar Jaluul, head da geriatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, acompanha de perto essas transformações. Ele observa que as novas gerações entendem que estão envelhecendo com mais qualidade de vida e, por isso, desejam continuar participativas na sociedade.

Eles sabem que ainda têm muito a contribuir. Antigamente, quem se aposentava queria paz, sombra e água fresca. Hoje, as pessoas querem continuar ativas.

Omar Jaluul, geriatra

Com a longevidade em alta, esse desejo faz ainda mais sentido. Como a expectativa de vida se aproxima dos 80 anos, muitas pessoas passam duas décadas ou mais na terceira idade — tempo suficiente para permanecerem socialmente inseridas e reinventarem rotinas e interesses.

Viver em grandes cidades como São Paulo também influencia essa experiência. Para Jaluul, o diferencial está em como o ambiente urbano favorece a atividade e a autonomia. “Em países mais desenvolvidos, estão sendo criados cada vez mais espaços amigáveis aos idosos. Não instituições como os antigos asilos, mas lugares que promovem interação, cuidado e atividade”, explica.

No Brasil, esse ainda é um desafio. Em cidades menores, a convivência comunitária costuma ser mais próxima, os amigos aparecem com mais facilidade e há mais espaço para trabalhos voluntários. Já nos grandes centros, embora os serviços de saúde sejam mais estruturados, a vida tende a ser mais impessoal, o que pode gerar distanciamento.

As relações humanas são fundamentais ao longo de toda a vida e se tornam ainda mais importantes no envelhecimento. Para Jaluul, são elas que garantem propósito, pertencimento e cuidado com a saúde. Ele lembra que, ao envelhecer, muitas pessoas perdem o sentido que vinha do trabalho ou da criação dos filhos — e é justamente nesse momento que os vínculos fazem a diferença.

Famílias menores, perdas ao longo do tempo e filhos cada vez mais ocupados podem reduzir a rede de apoio e tornar o processo mais solitário. “É preciso construir relações ao longo da vida. Se você plantar bem, tem grandes chances de colher bem”, resume. Bons relacionamentos oferecem acolhimento e tornam o envelhecimento mais pleno.

Após perder o marido e enfrentar um período de depressão, Maria Oliveira, de 72 anos, encontrou um novo propósito ao começar a gravar vídeos no TikTok, com a ajuda da neta. Vó Maria, como ficou conhecida nas redes, publicou o primeiro vídeo em 17 de agosto de 2025, no dia de seu aniversário, e em poucas semanas já havia alcançado milhares de visualizações.

A repercussão trouxe um novo sentido à rotina. Ela conta que passou a se sentir mais amada e acolhida — algo que não imaginava viver nessa fase da vida. “Quando eu lembrava que tinha tanta gente que me amava, eu ficava mais feliz ainda”, diz. Por recomendação médica, passou a frequentar a academia e, hoje, compartilha vídeos sobre sua rotina de treinos e mensagens otimistas com mais de 40 mil seguidores.

Larissa Storino, psicóloga e neta de Maria, é quem a ajuda nas postagens. Ela conta que tudo começou de forma despretensiosa, mas acabou se transformando em um processo de cura. “É uma ressignificação do luto. É muito bonito ver minha avó desenvolvendo autonomia. Sei o quanto isso tem impactado a saúde mental dela”, afirma.

Segundo a Ipsos, empresa especializada em pesquisa de mercado e opinião pública, 57% dos brasileiros dizem estar ansiosos para chegar à terceira idade — especialmente os jovens. O dado reflete as mudanças na forma como o país enxerga a velhice. Envelhecer passou a representar uma nova etapa, cheia de possibilidades e recomeços.

Diante desse cenário, a chegada de novos integrantes à terceira idade exigirá ajustes complexos na economia, na saúde e na cultura. As mudanças não ocorrerão apenas porque a expectativa de vida aumentou, mas também porque a economia sentirá os efeitos caso os 60+ não permaneçam ou retornem ao mercado de trabalho.

Desde 2018, a jornalista e festeira de carteirinha Patrícia Parenza, de 55 anos, compartilha nas redes sociais reflexões sobre envelhecimento e autoestima. Seu lema é “envelhecer sem pirar”, que, para ela, significa autoconhecimento, autoconfiança e autocuidado — priorizar-se de fato.

A ideia surgiu quando entrou na perimenopausa, “o primeiro marco do envelhecimento feminino”, como define. “É um susto para a mulher, principalmente para a mulher ativa, que trabalha e está sempre à frente de projetos”, conta. Hoje, Patrícia se define como uma ativista do envelhecer bem e luta contra o etarismo. “As pessoas precisam começar a olhar para o velho de forma positiva. Olhar para uma mulher de 50, 60, 70 anos, com suas rugas, e dizer: ‘Nossa, que mulher bonita’.”

Ela também vê o envelhecimento como um momento de oportunidades. É a chamada economia prateada, termo usado para definir o conjunto de produtos, serviços e oportunidades voltados às pessoas com 50 anos ou mais. No Brasil, esse público deve movimentar R$ 3,8 trilhões em 2044 — o equivalente a 35% do consumo domiciliar privado, segundo o hub de pesquisa Data8.

Ainda assim, Patrícia avalia que existem poucas iniciativas voltadas a esse público. “Existe um mercado enorme que ninguém está explorando. E quem começar primeiro vai se dar muito bem.” Ela própria é um exemplo disso. Em 2024, criou a Gudinaite, festa dedicada ao público 50+, que nasceu em Porto Alegre e já passou por 12 cidades brasileiras.

Com clássicos dos anos 1970 e 1980 e um formato que respeita o ritmo de quem não quer virar a noite, o evento foi pensado especialmente para o público grisalho. “Pessoas de 60, 70 anos dançam quatro horas sem parar. Elas dizem que a festa é terapêutica”, conta.

Para Patrícia, a longevidade não representa o fim de um ciclo, mas o início de outro. “A gente está apenas começando o segundo ato. Ainda há muito o que viver e vibrar. A gente pode reinventar formatos. Só fica invisível quem se senta no sofá e passa a vida vendo TV. Quando a gente segue em frente, existe luz dentro da gente.”

  • Diretora de Conteúdo Digital e Transmídia: Bia Cioffi
  • Coordenadora de Produções Originais: Renata Garofano
  • Supervisor de Conteúdo Transmídia: Bruno dos Santos Oliveira
  • Coordenadora de Redes Sociais: Maira Pracidelli
  • Coordenadora de Arte Multiplataforma: Sabrina Cessarovice
voltar ao topo

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.