REPORTAGEM
Ana Luísa Vieira
Marta Santos
ARTE
Sabrina Cessarovice
Pedro Scavone
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Reuters
Estadão Conteúdo
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SETEMBRO 2017
R7 São Paulo

À beira da guerra: é assim que o mundo se sente na presença de Kim Jong-un, o terceiro em uma dinastia de líderes que comanda a Coreia do Norte há quase sete décadas. Aos 33 anos, ele não parece ter medo de usar mísseis balísticos e armas nucleares para se manter no poder. Para Matias Spektor, professor do Centro de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a preocupação da comunidade internacional com um conflito iminente tem fundamento.

— O Jong-un é um jovem no poder e, portanto, uma pessoa que é menos avessa ao risco de um conflito. Ou seja: ele é um líder disposto em níveis mais altos de risco [da ocorrência de uma guerra] para atingir seus objetivos em relação ao seu pai, Kim Jong-il. Desta forma, estamos mais perto hoje de uma crise nuclear do que estivemos em qualquer momento dos últimos 50 anos, desde a crise dos mísseis em Cuba de 1962.

A máquina de guerra de Jong-un é sustentada atualmente por cerca de 25 milhões de norte-coreanos — que enxergam seus líderes como verdadeiras divindades e já passaram fome enquanto o governo investia nos programas bélicos. Mas de onde vem tamanha relação de poder e submissão?

A mitologia Kim, de Il-sung a Jong-un

A dinastia Kim ascendeu ao poder em meio à própria fundação da República Democrática Popular da Coreia, em 1948, quando União Soviética e EUA concordaram em dividir a Península Coreana. Em quase 70 anos, três gerações da família passaram o governo do país de pai para filho.

Tudo começou com o “todo poderoso” Kim Il-sung. Ele lutou ao lado do Exército soviético durante a 2ª Guerra Mundial (1939 a 1945) e liderou os norte-coreanos na Guerra da Coreia (1950 a 1953). Il-sung exerceu o cargo de primeiro-ministro e foi eleito presidente em 1972. Ele também foi o precursor do culto à personalidade do líder, criando uma aura mítica em torno de sua imagem e enfraquecendo a democracia norte-coreana.

Segundo na dinastia, Kim Jong-il assumiu o poder após a morte de pai e antecessor, em 1994. Durante seu governo, a população sofreu com o desrespeito aos direitos humanos, à medida que o Estado foi se tornando ainda mais autoritário e repressivo.

O país também passou por uma grave crise econômica, quando períodos de secas comprometeram boa parte da produção agrícola nacional, já bastante pobre e com pouca tecnologia agregada. A isso, somou-se o fim da União Soviética, que sustentava os aliados comunistas. O pouco fornecimento de alimentos veio, por algum tempo, da China — que reduziu as exportações ao longo dos anos.

Jong-il também governou até sua morte, em 2011, quando Kim Jong-un, o mais jovem de seus três filhos, “herdou” o governo do país. Na época com apenas 27 anos e sem experiência militar ou política, Jong-un era visto por muitos como um governante que seria facilmente manipulado por seus conselheiros.

A visão em relação ao novo líder, no entanto, mudou rapidamente, principalmente depois que ele ordenou a execução de diversas autoridades norte-coreanas, incluindo seu tio, Jang Song-Thaek, acusado de traição e corrupção.

“Desta forma, os indivíduos relutam em desafiar as autoridades e elas punem quem o faz”

Dentro de seu país, as punições aplicadas para quem sai da linha vão do simples corte no fornecimento de energia elétrica até a execução dos transgressores, segundo Kathryn Weathersby, especialista em história norte-coreana pela Universidade de Indiana,
nos EUA.

— Boa parte dessas medidas controladoras foram típicas de sistemas soviéticos e já foram vistas em países como União Soviética, China, Vietnã e Camboja. Nesse tipo de regime, você recebe exclusivamente do Estado aquilo que é básico para viver, como alguma comida, sua casa, sua energia elétrica, seus tratamentos de saúde e seu emprego. Desta forma, os indivíduos relutam em desafiar as autoridades e elas punem quem o faz, inclusive restringindo o acesso a qualquer um desses itens básicos de sobrevivência.

Internacionalmente, Jong-un também tem se mostrado um líder agressivo e que não hesita em provocar a comunidade internacional de acordo com seus interesses, explica Alexandre Uehara, diretor acadêmico das Faculdades Integradas Rio Branco e doutor em Ásia.

— Quando chegou ao poder, pouco se sabia sobre Jong-un. Houve até um certo otimismo de que ele fosse menos radical do que o pai e que contribuísse para diminuir o distanciamento da Coreia do Norte do resto do mundo, mas o que se viu foi o contrário. Dos três irmãos que poderiam assumir, ele era o que tinha uma personalidade mais forte, menos flexível e aberto em termos de negociação.

“Você tem gerações [de norte-coreanos] que estão vivendo uma mentira”

Casado e com três filhos, Jong-un adora aparecer na frente das câmeras e usa a mídia estatal norte-coreana (formada pela agência de notícias KCNA e pela KCTV) como um serviço de propaganda de massa do governo, diz Diogo Costa, professor do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais).

— Você tem gerações [de norte-coreanos] que estão vivendo uma mentira. Quando eles entrarem em contato com as maravilhas do mundo moderno, será uma transformação cultural sem precedentes. A revelação do que é a vida fora da Coreia do Norte seria inicialmente um Armagedon bíblico [para os norte-coreanos]. Mas depois disso, eles entenderiam que estavam vivendo em uma realidade criada pelo governo.

O que mídia norte-coreana não divulga, mas que é fortemente especulado internacionalmente, é o lado excêntrico do líder.

Antes de se formar na Universidade Militar Kim Il-sung, Jong-un estudou em colégios suíços e teria adquirido o “vício” de comer queijo. Apesar das sanções impostas à Coreia do Norte, acredita-se que ele importe uma quantidade considerável da iguaria suíça para consumo próprio. O queijo, inclusive, já foi apontado como um dos maiores motivos para sua silhueta avantajada.

Apesar da aversão histórica aos EUA, Jong-un tem hobbies fortemente ligados à cultura norte-americana. O líder é fã de basquete e se tornou amigo do ex-jogador norte-americano, Dennis Rodman. Ele também teria uma coleção invejável de tênis da Nike e seria um grande admirador da Disney.

A mídia sul-coreana já chegou a dizer que ele fez operações plásticas para ficar mais parecido com o avô. Seu corte de cabelo e até mesmo o peso também são frequentemente atribuídos à busca pela imagem do fundador da dinastia Kim.










Programa nuclear, a sobrevivência do regime

Em 2002, o então presidente dos EUA, George W. Bush, colocou a Coreia do Norte, o Irã e o Iraque em um grupo que denominou de "Eixo do Mal". Acusados de patrocinar o terrorismo e de desenvolver armas de destruição em massa, os países passaram a ser considerados como ameaça e ficaram suscetíveis a intervenções internacionais, como a Guerra do Iraque.

“Ele pode ser inconsequente, mas louco não”

Assim, a Coreia do Norte deixou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e fez do desenvolvimento de mísseis o maior trunfo do regime para se manter no poder. Desde que assumiu o governo, Jong-un colocou como seu objetivo principal tornar a Coreia do Norte uma potência nuclear, diz Uehara.

— Ele pode ser inconsequente, mas louco não. Dentro da lógica militar, e até de sobrevivência dele como liderança, o que ele tem feito é racional. Depois que o Bush mencionou o Eixo do Mal, esses países foram meio que caçados e isso deve ter causado uma insegurança a ele. Então, ele viu que a única chance de se proteger no poder era ser um país nuclear, porque a Coreia do Norte é um país pobre e, com armas convencionais, a ele não poderia resistir a uma ação norte-americana.

Além disso, ressalta Kathryn, o programa nuclear ajuda o governo a conquistar apoio internamente e a manter a ordem estabelecida pelo regime.

— Os norte-coreanos pensam de fato que são ameaçados pelos EUA, foram levados a acreditar nisso a vida toda e se empolgam com um Estado forte o suficiente para conter qualquer ataque. Hoje, não há nenhuma evidência de entusiasmo especificamente em relação a Jong-un. O que é possível dizer é que os tradicionais programas nucleares e de mísseis, de certa forma, são bastante populares.

Por outro lado, Uehara afirma que, apesar de o programa nuclear ser o grande trunfo da Coreia do Norte, ele também pode ser seu fim.

— O caminho que a Coreia do Norte está caminhando é quase que para um precipício.
Ele chegou em um ponto em que tem elementos para parar e negociar um acordo.
No entanto, como ele está passando da dose, isso está se tornando um veneno contra ele.

“A tensão está tão grande que qualquer erro de cálculo, político ou de exercício militar, da Coreia do Norte ou de seus opositores, pode causar um conflito”

Somente em 2017, Jong-un ordenou o lançamento de 12 testes de mísseis, além da explosão uma bomba de hidrogênio, também chamada de bomba H, que tem um poder
de destruição mil vezes maior que os artefatos atômicos comuns.

— Nós chegamos em um ponto que é complicado, porque estamos muito no limite de um confronto. A tensão está tão grande que qualquer erro de cálculo, político ou de exercício militar, da Coreia do Norte ou de seus opositores, pode causar um conflito.

Não há dúvidas de que, nos últimos dez anos, a Coreia do Norte aumentou consideravelmente seu arsenal nuclear. Enquanto a primeira bomba testada pelo país em 2006 tinha uma capacidade de pouco mais de mil toneladas de dinamites, a última, testada no último mês de setembro, apresentou uma força explosiva cem vezes maior (ver abaixo). Em uma cidade como São Paulo, o estrago produzido pelo artefato se estenderia por até 84 km², de acordo com estimativa do site Nuclear Secrecy. “Uma das grandes preocupações em relação à explosão de um dispositivo do tipo são os efeitos que permanecem a longo prazo. Não se conhecem ao certo as consequências da radiação que permanece nos locais. Em Hiroshima, a população sofre os efeitos negativos em sua saúde até hoje, 70 anos após a tragédia”, afirma Ítalo Curcio, professor de física na Universidade Presbiteriana Mackenzie.




Cotidiano vigiado

Ainda hoje, pouco se sabe sobre o dia a dia de um cidadão comum na Coreia do Norte — as informações disponibilizadas pelo governo são escassas e a população não tem nenhum direito de se manifestar. Os relatos daqueles que já passaram pelo país, entretanto, permitem concluir que a rotina é controlada em seus mínimos detalhes, conforme explica Kathryn, que esteve em Pyongyang em 2008 e leciona hoje em Seul, na Coreia do Sul.

— Há monitores a serviço do governo em todos os edifícios residenciais. Eles reportam à polícia qualquer movimentação suspeita, relatam as visitas que vão aos apartamentos, objetos que os cidadãos compram, o que as pessoas leem e ouvem. Os monitores também circulam pelos locais de trabalho, então não há lugares onde se possa circular ou falar o que se pensa livremente.

Wilson Mendonça, professor de Relações Internacionais do Ibmec, completa que atualmente a população norte-coreana é ameaçada de forma mais rígida com três recursos: pena de morte, trabalhos forçados e privação de informação e liberdade.


— A pena capital é aplicada para quem faz tentativas de contato com a cultura ocidental ou para quem tenta fugir para a Coreia do Sul. Os cidadãos que demonstrem dentro do país qualquer movimentação que contrarie o regime, por sua vez, são submetidos a trabalhos forçados. Fora isso, há a privação da liberdade e do acesso à informação. Na internet, por exemplo, existem pouquíssimas páginas disponíveis e todas exaltando Jong-un e seus antepassados. O que existe na televisão também são canais do próprio governo.

Um exemplo clássico de controle velado que afeta o dia a dia das pessoas comuns é a questão do corte de cabelo de Jong-un, cujo estilo com a lateral raspada e o topete alinhado é obrigatório para todos os homens do país. As mulheres, por sua vez, podem escolher entre pouco mais de dez cortes aprovados pelo governo.

“Nas ruas, as pessoas são obrigadas a usar um broche que exalta o regime. Nas escolas, nenhuma aula começa antes que as crianças se curvem diante de cartazes com fotos dos líderes”, comenta a pesquisadora americana Kathryn Weathersby.

— Há também convenções absurdas: se há uma imagem de Jong-un no jornal, por exemplo, você não pode dobrar o papel sobre o rosto dele, como se aquilo fosse um objeto sagrado.

Wilson Mendonça lembra ainda um decreto curioso feito pelo governo em 2014, quando todos os cidadãos chamados Kim Jong-un foram convocados a mudar o próprio nome — carteiras de identidade, diplomas escolares e documentos oficiais tiveram de ser ajustados. Futuros batismos em homenagem ao mandante também foram vetados.

— Isso está muito relacionado ao culto da personalidade do líder, que é exigido de forma muito exacerbada na Coreia do Norte.

Esse tipo de culto — que tem como objetivo enfraquecer a democracia — é evidenciado pela quantidade de esculturas e imagens espalhadas pelo país do próprio Jong-un, de seu pai, Jong-il, e do avô, Il-sung.

— O dia da morte do avô, que é considerado o presidente eterno, é um dia em que os cidadãos devem prestar homenagens e, se não o fizerem, são punidos por isso. Tudo é exibido como um trunfo do governo, que não permite a existência de um partido de oposição organizado.

Outras perspectivas

Quase seis anos após a ascensão de Jong-un ao poder, a economia da Coreia do Norte continua essencialmente pobre e todos os meios oficiais de controle do governo — informantes, polícia secreta, etc — continuam na ativa. A população, entretanto, tem encontrado cada vez mais formas de driblar as restrições no dia a dia: “Para sobreviver, as pessoas começaram a administrar pequenos negócios. Alguns anos atrás, quem tinha alguma comida sobrando em casa montava uma banca na rua e vendia por conta própria”, comenta Kathryn. A especialista ainda explica que, com o passar do tempo, esse tipo de mercado se organizou.

“As pessoas diziam: ‘Estou na miséria, se você quer me colocar em um campo de trabalho forçado, vá em frente. É minha única alternativa’”

— Há relatos de pessoas que subornavam guardas da fronteira que estivessem passando fome para ir até a China e comprar roupas e outros produtos para revenda. Houve um tempo em que o governo tentou impedir essas atividades de forma mais intensa, especialmente no ano de 2009, mas essas medidas falharam. As pessoas diziam: ‘Estou na miséria, se você quer me colocar em um campo de trabalho forçado, vá em frente. É minha única alternativa’.

Hoje, grandes cidades como Pyongyang contam com lojas modernas. Existem, inclusive, organizações como a Choson Exchange — que apoia pequenos empreendedores na Coreia do Norte com workshops e estágios liderados por profissionais de renome no mercado internacional.

Dados da fundação apontam que, desde 2010, pelo menos 4.400 norte-coreanos com idade média de 38 anos já passaram pelo programa. Os treinamentos acontecem na capital norte-coreana e em Cingapura, para os poucos que conseguem sair do país. Embora o movimento nada tenha a ver com as políticas de Jong-un, Kathryn aponta que o líder tenta levar algum crédito por esses indícios de modernização.

— Quando ele viu que não havia meios de parar esse mercado, o governo passou a apresentar essas pequenas empresas como parte de um programa nacional. Então, quando há a inauguração de algum centro comercial, por exemplo, o Jong-un comparece, há transmissões televisivas, etc.

11 anos de sanções, nenhum resultado

O Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou novas sanções à Coreia do Norte após o país declarar que havia testado uma bomba de hidrogênio com sucesso. A medida poderá reduzir em até R$ 3,1 bilhões (US$ 1 bilhão) por ano o faturamento do país, valor que representa um terço a receita de exportação anual norte-coreana.

Segundo Yann Duzert, professor de Negociação e Resolução de Conflitos da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a mais recente sanção da ONU limitou a importação de combustíveis, como o petróleo.

— As sanções vão diminuir a possibilidade da Coreia do Norte receber combustíveis que fazem funcionar a indústria do país. Então, isso é feito tanto para atrapalhar a produção quanto para dificultar o uso militar desses combustíveis também.

Pacotes sucessivos de sanções já vêm sendo usados contra a Coreia do Norte desde 2006, quando o país realizou seu primeiro teste nuclear, mas nenhum deles conseguiu deter o desenvolvimento de seu programa armamentista.

— O problema é que, muitas vezes, velhos mecanismos de negociação coercitiva, jogo de poder, ameaça e recompensa, não funcionam mais. Dialogar com o “inimigo” pode ser muito mais eficaz do que ameaças recíprocas. É preciso entender os interesses da Coreia do Norte, a identidade ferida do país e o complexo de inferioridade. A negociação moderna requer isso, uma mentalidade que busca ganhos múltiplos e de saída honrosa.

Cada vez mais isolada nas negociações e afundada em uma crise humanitária, a Coreia do Norte tem um futuro incerto e, consequentemente, carrega junto toda a região e possivelmente até o mundo.

De acordo com Matias Skepektor, não há nenhum país que apoie a Coreia do Norte neste momento.

— Nós sabemos perfeitamente que tanto a China quanto a Coreia do Sul não querem uma ruptura no regime norte-coreano porque o efeito humanitário disso seria devastador. Poderia acontecer uma guerra civil, poderia acontecer uma saída em massa de norte-coreanos fugindo da repressão interna. A Coreia do Norte é um país muito empobrecido e, dada a oportunidade de saída, haveria um fluxo grande de pessoas atravessando a fronteira.

“A alternativa de uma guerra seria perda para todo mundo, então pensar em uma saída honrosa para Jong-un seria mais racional”

Em 2015, grandes potências mundiais conseguiram chegar a um acordo com o Irã para limitar o programa nuclear do país, fazendo com que ele fosse usado apenas para fins pacíficos. Em troca, as sanções internacionais que eram aplicadas ao país foram retiradas. No caso da Coreia do Norte, chegar a qualquer solução pacífica dependeria da atuação de EUA (visto como “inimigo” do regime) e China (como mediadora e poder regional). Mas os atores envolvidos estariam abertos a negociações?

— É de interesse de todos que haja esse diálogo. A China não quer uma troca de poder imediata, porque isso implicaria um fluxo de imigrantes. Já a Coreia do Sul, não vai querer uma desestabilização da fronteira. A alternativa de uma guerra seria perda para todo mundo, então pensar em uma saída honrosa para Jong-un seria mais racional.