REPORTAGEM
Dinalva Fernandes
EDIÇÃO
Vanessa Sulina
ARTE
Danilo Lataro
OUTUBRO 2017
R7 São Paulo

A dor pela morte de um filho é descrita pelos pais como a pior, não importa a idade. Nem mesmo se é um recém-nascido ou um bebê ainda no ventre. Nestes dois últimos casos, muitas vezes, o sofrimento de quem sofreu a perda é menosprezado pela família, amigos e pela sociedade, com uma crença preconceituosa de que facilmente o casal poderá “substituir” o vazio com um “novo” filho. Não é bem assim. São casos em que o sentimento de maternidade e paternidade existem com a mesma força, independentemente do tempo de convivência.

Em 2014 e 2015, quase 400 mil mulheres sofreram perdas gestacionais no Brasil. Outras 50 mil não viram seus bebês completarem nem um mês de vida. O R7 entrevistou especialistas e mães que vivenciaram o drama da perda. Elas ensinam a superar a tristeza, resgatar a esperança e seguir a vida, como no caso da Rafaela França, de 30 anos.

Após perder a filha Clarice, aos seis meses de gravidez, Rafaela teve que lidar com mais uma perda: a morte de seu marido e pai da menina, Francenildo Santos. Ele sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) aos 26 anos de idade, após a partida da criança. Dois anos depois das tragédias, a vendedora mostra que é possível voltar a ver sentido na vida. "A gente não acredita, mas a dor passa."

“Perdi a conexÃo com a vida”

“Eu sempre sonhei em ser mãe e era a única certeza da minha vida. Em setembro de 2014, engravidei de forma natural e não planejada.

A gravidez foi relativamente tranquila, porém, com 20 semanas, tive um pequeno descolamento de placenta, que foi descoberto em uma ultrassonografia. Tomei remédio e fiquei alguns dias em repouso até a situação se normalizar.

Com 24 semanas (cerca de cinco meses), todo mundo começou a falar que a minha barriga era grande demais para a idade gestacional que eu tinha. Continuei normalmente o meu pré-natal, que não demonstrava nada de anormal na gravidez. Por razões do plano de saúde, a minha médica me abandonou dizendo que não poderia continuar me atendendo.

Quem percebeu que havia algo errado foi um médico que fez um ultrassom no hospital em Natal (RN), onde moro. Ele disse que a quantidade de líquido amniótico estava acima do limite normal e que seria impossível fazer parto normal, que era meu sonho. Eu já sofria bastante com as dores nas costas devido ao peso da barriga. Por não ser meu médico, ele não me deu mais informações sobre os riscos do excesso de líquido amniótico.

Consegui uma nova médica em caráter de urgência. Depois de fazer uma ultrassonografia, ela solicitou outros exames porque suspeitava de que o excesso de líquido amniótico era consequência de diabetes gestacional, o que foi descartado posteriormente. Quando eu já me encaminhava para o terceiro trimestre de gravidez, a médica disse que a bebê estava praticamente se afogando no líquido: ela tinha um edema no couro cabeludo, derrame na parede abdominal e na pleura [membrana que recobre o pulmão], e uma cardiopatia [doença no coração]. No entanto, não tinha como saber se o excesso de líquido era a causa dessas complicações na bebê. Eu estava com 31 semanas.

Tive que correr para a maternidade. Fiz um exame ecocardiograma fetal (ou ecofetal), que é o exame que mostra como está o coração do bebê. Precisei tomar uma injeção para acelerar o desenvolvimento do pulmão dela antes do parto. Horas depois, tomei a segunda dose, mas a minha bolsa já havia estourado. Então, não era possível mantê-la por mais tempo na minha barriga. Precisei fazer uma cesárea de urgência. Minha filha nasceu no dia 24 de março de 2015 e, 1 hora depois, ela morreu.

Durante o parto, fiquei muito dopada porque aplicaram um medicamento que me deu alergia. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Só vi que chamaram meu marido e a equipe de canto, retornaram e levaram a minha filha para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Sentia que havia algo errado e apaguei.

Não sei quanto tempo fiquei apagada, mas perguntei sobre a minha filha assim que acordei. Me levaram para um quarto em outra ala do hospital, longe das mães que estavam com seus filhos. Fiquei sozinha esperando alguém da minha família. A pediatra chegou acompanhada do meu marido e da minha cunhada. Pelo semblante deles eu percebi que algo errado tinha acontecido. A médica disse que tinham feito tudo para salvar a minha filha, reanimando-a diversas vezes, mas não obtiveram sucesso.

Na hora, não captei o que estavam falando. Só conseguia negar e fiquei muito tempo dizendo que não era verdade e que eles estavam enganados. Não acreditava no que tinha acontecido.

A médica perguntou se queria ver a minha filha para me despedir. Por insistência da pediatra, escolhi uma roupinha para ela e fui vê-la. Meu mundo caiu e fiquei arrasada. Queria que tudo aquilo fosse mentira e esperava que um milagre acontecesse para que ela voltasse à vida. Quando entendi que ela realmente estava morta, senti impotência e quis morrer. Foram oito meses de expectativa de uma vida e, de repente, não tinha mais nada.

A pediatra insistiu para que estudassem o caso dela para descobrir a verdadeira causa da morte da Clarice. Aceitei. Não obtiveram uma resposta concreta, pois o laudo não foi conclusivo. Disseram que ela tinha uma cardiopatia. No entanto, a médica que me atendeu falou que se a doença fosse diagnosticada com antecedência, a vida dela poderia ter sido salva. Hoje em dia, evito pensar nisso porque não vai trazê-la de volta.

Tatuagem e uma nova perda

Fiquei dois dias na maternidade passando pelo sofrimento do pós-operatório e da falta de amamentação. Tive apoio de todo mundo, já que todos sabiam que ser mãe era o meu sonho. Eu e meu marido decidimos fazer uma tatuagem em homenagem à Clarice, mas ele não teve tempo.

O meu marido ficou bem reservado após a perda da nossa filha. Todo mundo ficava muito em cima de mim e esqueciam dele, mas ele era pai e também estava sofrendo muito com aquilo. Não conseguiu lidar com a situação. Deveríamos pensar em ter outro filho e em planos para o futuro.

Na manhã seguinte, enquanto se arrumava para o trabalho, ele disse que estava com uma dor de cabeça muito forte e não conseguia enxergar nada. Ele foi piorando e ficando agressivo. Ele já não conseguia mais se comunicar nem beber água.

Levaram o Fran para o hospital por volta das 7h30. Às 10h30 foi decretada a morte cerebral dele. Foi tudo muito rápido e não tinha mais o que fazer. O Fran tinha um aneurisma cerebral, mas poderia viver com aquilo por anos. Porém, a perda da nossa filha foi o gatilho para que aneurisma estourasse. Ele só tinha 26 anos.

A única coisa que passou pela minha cabeça durante um ano foi que eu queria morrer. Eu perdi toda a minha conexão com a vida, que não fazia mais sentido. A minha família e meus amigos me deram todo o apoio, mas nada parecia ter sentido para mim. Eu estava construindo uma família com milhões de planos e tive duas perdas uma atrás da outra. Fiquei sem chão e, em muitos momentos, pensei que iria enlouquecer.

O Recomeço

O primeiro ano foi de luto bem fechado. É complicado passar por todas as datas dos momentos planejados com o bebê, como o primeiro Natal e o aniversário, pensar em como ela estaria aos seis meses, com um ano etc.

Pensei em procurar pessoas que tivessem passado pelo mesmo que eu passei porque tinha essa necessidade de encontrar alguém que me entendesse. Nessas horas, a gente se sente a pior pessoa, que não foi capaz de perceber que havia algo errado, acha que tem culpa, que por ser mãe tem a obrigação de saber o que acontece com o filho.

Pesquisando sites, eu encontrei uma mãe e ela me falou do grupo Mães de Estrelas, que foi muito importante para mim, porque criaram uma rede de apoio para me ajudar quando perdi meu marido. O grupo cresceu e está dividido em várias partes pelo País. Hoje, eu sou a responsável pela região Nordeste.

Também procurei ajuda profissional de psicólogo e psiquiatra para voltar à terapia, além de me apegar muito à fé. Passei bastante tempo na casa do meu irmão para não ficar sozinha. Em muitos momentos, pensei em fazer uma besteira.

Larguei a licença-maternidade antes do tempo porque não aguentava mais ficar dentro de casa e precisava ocupar a cabeça, e também voltei a estudar. Aos poucos, a vida voltou a se encaixar e a ganhar um novo significado.

Ainda tenho as coisas da Clarice em casa. Me disseram para doar, mas não consegui me desfazer de tudo. Tenho saudade e meus momentos de tristeza, mas tive bons motivos para recomeçar a viver. Não penso mais ao longo prazo. Aprendi a viver um dia após o outro, da melhor forma possível.”

*Depoimento de Rafaela França, 30 anos.

o que pode levar o bebê à morte

As causas que podem levar bebês à morte ainda na gestação ou logo após o parto são várias, como más-formações congênitas, pré-eclâmpsia — condição que provoca aumento de pressão arterial durante a gravidez —, diabetes, desnutrição materna, gestação prolongada, problemas uterinos e tabagismo.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) considera como óbito fetal aquele ocorrido em qualquer momento da gravidez. Segundo o Ministério da Saúde, em 2015, foram 192.239 perdas gestacionais (aborto espontâneo) no Brasil. No ano anterior, o número foi de 206.230.

Quando a expulsão do feto não ocorre espontaneamente, os médicos indicam a indução do parto, conforme condições clínicas da mulher e do tempo de gravidez.

Já as perdas neonatais são aquelas ocorridas entre 0 e 27 dias de vida do bebê. O número foi de 25.500 óbitos de recém-nascidos em 2015 e 26.746 em 2014. As regiões com maiores taxas de mortalidade neonatal são Norte e Nordeste.

Caso o bebê tenha nascido ainda com vida e morrido em seguida, deve-se preencher a DNV (Declaração de Nascido Vivo) e depois a declaração de óbito. O corpo da criança é encaminhado para uma área específica do hospital até que seja levado para enterro.

A família não é obrigada a sepultar o bebê. O Ministério da Saúde afirma que todo hospital tem serviço de apoio para enterrar essas crianças, se os familiares não tiverem condições financeiras ou interesse. Nestes casos, o corpo é encaminhado para o IML (Instituto Médico Legal).

No caso de morte fetal, registra-se apenas o atestado de óbito. A obrigatoriedade de enterro só ocorre em fetos com peso acima de 500g, com mais de 22 semanas e medindo mais que 25 cm. Os fetos que não se encaixam nesses critérios podem ser descartados como lixo hospitalar.

ALEGRIA NA PAREDE


Eugenio Goussinsky

Os primeiros raios de sol surgem entre as frestas do quarto da maternidade. Noite mal dormida, de pensamentos e pesadelos sugados pela escuridão, pelo frio barulho dos corredores, de onde conversas remotas entre enfermeiras davam uma sensação de solidão. A cada instante os pesadelos eram renovados neste ciclo insone.

A mãe acabou de perder seu filho, com cerca de seis meses de gestação. Seu ventre não está mais vazio do que sua alma. Ela precisa de carinho. Necessita de um apoio que acaricie sua dor por entre aquelas paredes claras e impessoais. O marido, também muito abalado, está tratando de questões burocráticas.

A auxiliar de enfermagem entra sem bater no quarto, sem dizer bom dia e a trata com frieza, aniquilando qualquer esperança dela ouvir uma boa notícia, um alento pelo menos.

Neste momento, qualquer gesto brusco fere de maneira profunda o íntimo da mãe sofrida, aumentando a dor de sua perda precoce. Então ela chorou. Por si e por seu filho. Chorou de forma silenciosa. Sabia que de outra forma não adiantaria. Ninguém naquele local a estava escutando.

Situações como esta são cada vez mais comuns nas maternidades brasileiras. O caso citado é verídico, acrescido de outras atitudes vistas como desconsideração. A própria irmã da mãe (tia do bebê) notou isso nas conversas com a equipe. Observou a insensibilidade com que a mãe, no pós-operatório e já consciente, era deixada, de cadeira de rodas, ao lado de cartazes de mães com bebês no colo, sorrindo de alegria.

Até mesmo o corpo da criança, que formalmente nasceu e foi enterrada, foi retirado de uma urna funerária de maneira quase banal, na frente da tia. Ela conta que, pega de surpresa, imaginou que esperariam que saísse da sala e a poupassem da cena dramática.

Durante a recuperação, a mãe foi internada em ala próxima de onde se ouvia a legítima festa dos familiares recebendo os recém-nascidos. Para a tia, que é ginecologista, essa situação é comum e precisa ser revista.

Boa parte dos hospitais e maternidades, segundo ela, tem feito pouco para dar amparo emocional às mães que acabaram de perder filhos na gestação ou recém-nascidos. Não as separam em alas mais discretas, para que elas lidem com sua dor de maneira mais serena, respeitosa.

Não se preocupam em preparar seus profissionais, entre eles médicos, enfermeiras e auxiliares, para serem delicados e generosos ao entrarem no quarto da paciente emocionalmente afetada.

— A sensação que passa, muitas vezes, é de que as pessoas não querem participar da dor, mas elas precisam estar preparadas para isso. Existe esse constrangimento, mas não pode ser assim em um local onde o profissionalismo deve prevalecer. E nesse caso ter empatia também é ser profissional.

Mães que não são mães

A tia fala das necessidades urgentes da remodelação desses locais para atender com mais eficiência essas mães tão vulneráveis.

— Empatia é algo vital, mas simples. Basta chegar de forma amistosa, orientar, dar boa noite, falar com licença. É importante se criar alas reservadas, com decoração adequada, que não remeta às perdas, separadas da paciente que deu à luz. Era triste demais ouvir festa do lado de fora, não é pelas pessoas, mas era pela dor que sentíamos.

Mas além das reformas concretas, a reforma de conceitos, bem mais profunda e transformadora, é o passo decisivo para fazer as pessoas entenderem o quanto sofre uma mãe que perdeu um filho, conhecendo-o tão profundamente e para sempre, sem mesmo nunca ter ouvido sua voz.

— O mais importante do luto é que ele tem de ser evidenciado e respeitado pelos outros. Independentemente da idade do filho, isso é muito negligenciado, porque as pessoas não as consideram mães. Esse é o problema, a perda gestacional é desconsiderada. As mães, perante a sociedade não são vistas como mães.

O preconceito, nesses casos, encontra mais uma forma de se manifestar.

— Já ouvi de médicos colegas a seguinte frase: “Ela nem teve filho”. Mas o ponto é, independentemente de ser a partir da 20ª semana ou com o feto tendo 500 g, a partir de quando a pessoa vai se sentir mãe. E isso é algo íntimo de cada um, que tem de ser extremamente respeitado.

A tia contou que escreveu um longo e-mail para a ouvidoria da maternidade e, até hoje, passados mais de seis meses do ocorrido, não recebeu nenhuma resposta. Sentiu isso como mais uma demonstração de insensibilidade. Ela viu de perto que um bebê, mesmo morrendo antes do parto, merece uma reverência sublime, por ser uma fonte de amor, ternura e sabedoria. Na plenitude de seu silêncio. No colo eterno de sua mãe.

"sem pernas" para fiscalizar


Eugenio Goussinsky

Questões relacionadas à falta de acolhimento das mães que perderam seus filhos durante a gestação, ou recém-nascidos, dizem respeito à administração do hospital e não a uma fiscalização do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), segundo a ginecologista e obstetra Silvana Morandini, conselheira e segunda secretária da diretoria da entidade.

— Esta não é uma situação em que o Cremesp pode se envolver, é uma questão administrativa e educacional, a ser trabalhada pela organização do hospital. O conselho só atuaria se houvesse uma denúncia. Poderia se fazer um artigo a respeito, na parte de bioética, tentando mostrar que um bom atendimento não deixa de ser até um tratamento na dor, uma dor espiritual. Mas não tem ação a ser feita [pelo Cremesp].

A médica afirma que para um hospital nem sempre é fácil criar uma ala separada para as mães que perderam seus bebês. “O Cremesp não age com enfermagem, só age com médicos. Independentemente do bebê, a mãe tem de estar lá, não pode ir para outro setor do hospital porque ela tem de receber os cuidados”, explica.

— A administração hospitalar vai determinar se essa paciente precisa do acolhimento, de um quarto para ficar sozinha e, muitas vezes, não há condições administrativas para isso.

Ela garante que há uma preocupação do conselho em relação à conduta dos médicos, e diz que a entidade faz palestras e estudos sobre a necessidade do respeito ao código de ética médica. O tratamento adequado em situações de perda gestacional faz parte desse código, entregue, segundo ela, no início do curso de medicina.

A representante do CREMESP diz que sabe da importância do acolhimento à mãe que perdeu seu filho na gestação. E que o conselho busca dar essa orientação também para o médico recém-formado.

— Quando se forma o médico, entregamos a carteira e também um código de ética em que em um dos artigos está escrito sobre a importância da humanização. Mas não há possibilidade de fiscalizar a humanização. O Cremesp não tem pernas para fazer.

O direito de ser mãe

Lidar com a perda de um ente querido não é uma das tarefas mais fáceis, especialmente na nossa cultura em que o luto ainda é considerado tabu. Nos casos de pais que perderam filhos durante a gravidez ou logo após o parto, muitas vezes, o sofrimento é negligenciado pela falta de empatia da sociedade diante da perda de alguém que “não foi apresentado” a ela, como explica a psicóloga e psicoterapeuta do luto Priscila Morozetti Jarró.

— Temos uma sociedade com muitas dificuldades em lidar com as perdas e com os sentimentos que dela suscitam. O luto após a perda gestacional ou neonatal é muito específico, porque a morte acontece no momento de vida, de nascimento. É uma total contradição. Há uma enorme dificuldade social de validar essa perda, pelo pouco tempo de vida ou por meses de gestação. Como se isso significasse uma não-vinculação.

A vinculação se dá muito antes da concepção. Ela começa no desejo e nos sonhos da maternidade. A mulher se torna mãe antes de o bebê nascer, mas não é reconhecida desta forma, segundo a especialista. “É como se o fato de perder um filho não a validasse como mãe, mas ela teve esse bebê. Há formação de um vínculo, independentemente do tempo e do tamanho deste filho”.

— Essas mães precisam saber que elas têm voz e que podem falar para os outros que foram mães porque esse filho existiu. Pode ter sido por um mês, dois meses, seja lá o tempo que for.

Mesmo com o vínculo com o bebê, a mãe que perdeu o filho cedo sofre por não ter recordações da criança, diferentemente de quem perdeu filhos mais velhos, afirma a psicóloga especialista em psicologia hospitalar e em luto Vanessa Abreu.

— A dificuldade maior é que, muitas vezes, ela não tem nada para recordar. Não teve tempo com a criança que ela desejava pegar no colo, fazer carinho, sentir o cheirinho. Ela se sente frustrada por não ter conseguido fazer algo que acha que poderia ter feito, ou que não deveria fazer, mas fez.

O homem fica um pouco de lado. Não temos espaço para conversar sobre o assunto, só quando a saudade aperta.

A frustração também acontece pelo fato de ela se sentir fracassada, incapaz de gerar um filho e carrega esse medo para outras gestações. Já o pai se coloca como coadjuvante e abafa sua dor com a intenção de não aumentar o sofrimento da companheira, complementa Priscila.

— Embora seja a mulher que está intimamente ligada a este filho, o pai também fez seus investimentos, construindo sonhos e planos para a vivência com essa criança. Dar espaço, validar e tornar possível a comunicação entre esse casal sobre essa perda é muito importante. Muitas vezes, a mulher se sente incomodada, inadequada diante de sua dor e da falta de expressão do marido, o que provoca um distanciamento entre o casal.

O assessor técnico administrativo Rodrigo Castanheira Santos, de 36 anos, quase se separou de sua mulher após perder os filhos Davi e Bento, em 2011 e 2014, respectivamente, com cerca de seis meses de gestação. Ele acredita que ter se voltado para a religião ajudou a salvar a relação. “Depois disso nos unimos e passei a respeitar o luto. Muitos casais se separaram por um não conseguir respeitar a dor alheia ou mesmo culpar o outro”.

— Eu vivenciei o luto com a minha mulher, mas não respeitava a forma como ela lidava com a perda. Sempre a questionava do porquê de ela estar chorando. Eu não vivia esse sentimento porque não queria sofrer e nem passar por aquilo. Eu fingia que pegava a minha dor e colocava em uma caixinha em cima do armário. Eu sabia que ela estava li, mas não a incomodava.

Para Santos, a sociedade não dá espaço para que o homem se sinta à vontade em desabafar sobre a perda de um filho nestas condições, ainda mais pela cultura machista.

— O homem fica um pouco de lado. Não temos espaço para conversar sobre o assunto, só quando a saudade aperta que a gente fala com um amigo mais próximo.

Um filho não substitui outro

Após a perda, é comum que mulheres corram atrás para ter outro bebê a fim de aliviar a dor da perda. Porém, a psicóloga e psicoterapeuta do luto Priscila Morozetti Jarró ressalta que essa atitude pode ser prejudicial.

Ter outro filho depende de vários fatores, inclusive físicos. Algumas mulheres não podem engravidar logo em seguida. E, mesmo se puderem, precisam estar bem física e emocionalmente, alerta a especialista. “Tudo vai depender de como ela se sente fortalecida e segura para ter outro bebê, se vai conseguir superar as dúvidas, as inseguranças e as angústias. Ter um filho para aliviar a dor da morte de outra criança não dá certo”.

De acordo com Priscila, “uma hora o buraco aparece e pode trazer diversos prejuízos na relação do casal, se a perda anterior não tiver sido valorizada”.

— O luto é uma condição normal a todos nós. Alguns precisam de ajuda para passar e outros, não. Se eles se sentirem seguros para passar por esse processo sem ajuda profissional, tudo bem. Mas se quiserem, a terapia pode ajudá-los a construir um significado para essa perda, validar que foram pais e que tiveram a morte de um filho.

Para a psicóloga, o objetivo dos pais não deve ser superar a dor, mas aprender a lidar com ela.

— A primeira coisa é não se falar em superação. Superar é deixar para trás e não se deixa um filho para trás ou alguém que a gente ama. A gente aprende a dar um significado para essa história, para essa perda, para essa morte e a conviver com a dor.

Alguns pais preferem procurar grupos de ajuda para compartilhar suas histórias com quem vive o mesmo drama que eles, completa Vanessa.

COMO AJUDAR PAIS QUE
PERDERAM FILHOS

A psicoterapeuta do luto Priscila Morozetti Jarró explica que a sociedade costuma menosprezar a dor de quem passou pela perda de um filho ainda na fase gestacional ou neonatal. Por isso, “evite dizer qualquer coisa no sentido de abafar ou minimizar a dor dos pais. Isso só vai aumentar o sofrimento porque se está deixando de dar importância para a relação que eles tinham com o bebê”.

Não dizer frases como: “Daqui a pouco você tem outro filho”, “Você vai engravidar de novo”, “Isso acontece com todo mundo”, “As pessoas abortam toda hora”, “Ah, deixa para lá, logo você vai ter outro”; “Deus quis assim”, e assim por diante.

O principal é ouvir e se colocar à disposição para que o precisarem, explica a psicóloga especialista em luto Vanessa Abreu. “As pessoas também se preocupam muito em ter sempre uma resposta ou uma palavra de conforto. O melhor é não falar nada. O próprio casal vai se manifestar sobre o que eles precisam. Tem que se mostrar disponível e deixar que o pedido de ajuda parta deles”.

Desabafo em diário vira livro

Muitos pais e mães que sofrem perdas gestacionais ou neonatais procuram ajuda de profissionais para lidar com a questão. Outros conseguem vivenciar e sair do luto buscando forças apenas em si mesmos, como aconteceu com a farmacêutica Patricia Bellas, de 31 anos, que escreveu o livro Ele se foi, e agora?, após a morte do primeiro filho, Bento. Na época, Patricia estava grávida de sete meses e meio.

Desde o início da gravidez, Patricia tomava injeções diárias por causa da trombofilia, que havia descoberto fazia pouco tempo. Mulheres portadoras dessa condição genética têm mais chances de sofrerem abortos porque o sangue fica mais espesso, aumentando a possibilidade de entupimento das veias da mãe, o que obstrui a circulação sanguínea para a placenta.

A farmacêutica foi alertada do risco por uma parente, que havia perdido um bebê em decorrência do problema. Mas o que causou a morte de seu bebê foi outra situação bastante perigosa para as grávidas: a pré-eclâmpsia — condição que provoca aumento de pressão durante a gravidez.

A médica que acompanhava Patricia percebeu um aumento de pressão e solicitou exames. No dia do procedimento, ela acordou se sentindo muito mal, com inchaço e dor de cabeça.

— Os médicos acreditam que eu tive um pico de pressão muito rápido durante a noite, horas antes de acordar. Quando cheguei ao laboratório descobriram que o coração do Bento havia parado de bater. Não deu tempo de fazer nada porque ele já tinha morrido. Meu mundo desabou e o chão se abriu. Fiquei sem norte, sem saber o que fazer.

Patricia conta que optou por uma cesárea marcada para o dia seguinte, uma vez que o parto induzido poderia durar até uma semana: “Escolhi a cesárea porque iria doer menos para mim. Não tive condições de pegá-lo no colo. No dia seguinte, fizemos um enterro simples, somente com eu, meu marido, meu pai e minha madrasta”.



o bento tinha uma missão

Como havia retornado havia pouco tempo ao Rio de Janeiro, Patricia ficava bastante tempo sozinha em casa, pois não tinha conseguido trabalho, e começou a escrever um diário para desabafar.

— Eu não queria atrapalhar as pessoas. Eu escrevia a primeira página, mas ficava mal e apagava tudo. Fazia isso todos os dias até perceber que estava sofrendo com a minha leitura. Aí decidi começar a fazer coisas que me faziam bem. Assim, consegui me recuperar muito rápido.

A farmacêutica chegou a cogitar procurar um psicólogo, mas desistiu. Porém, a escrita se tornou sua terapia.

— Comecei a mudar realmente o meu jeito de pensar e de agir, a pensar de forma positiva. Antes, escrevia sobre os fatos que me machucavam. Até que decidi que para cada coisa ruim que viesse à minha cabeça, eu iria pensar em outras três coisas boas. A ideia era transformar a dor em lembrança.

Quando o material alcançou um volume considerável, Patricia deixou o marido lê-lo para saber se valeria a pena publicá-lo. Ela queria saber se o livro poderia ajudar alguma mãe. Com o sinal positivo, a farmacêutica decidiu publicar o trabalho, que possibilitou a oportunidade de conhecer outras mulheres que passaram pelo mesmo drama.

“O Bento se foi porque ele tinha uma missão. Eu acredito que nada é por acaso”

De acordo com Patricia, chorar a ajudou a lidar com a perda, diferentemente do marido, que não gostava de vê-la chorando. No entanto, após o período de turbulência, os dois se fortaleceram como casal.

— Eu tive que entender que a forma dele de lidar era diferente. Ele não queria lembrar do que aconteceu, e não falava para esquecer. É nesse momento que muitos casais de separam. No nosso caso, nos unimos. O Bento se foi porque ele tinha uma missão. Eu acredito que nada é por acaso.

Mesmo liberada pela médica para tentar engravidar novamente, Patricia prefere adiar o sonho mais um pouco.

— Tudo está muito recente e tenho muito cuidado para que um filho não substitua o outro. Quero esperar um tempo para ficar mais tranquila e não levar o trauma para outra gravidez.

Do luto à luta

“Vocês são novos, depois engravidam de novo”, “Vocês já têm um filho e precisam ficar bem para ele”. Essas frases aparentemente inofensivas foram ouvidas diversas vezes pela psicóloga Larissa Rosa, de 33 anos, depois de perder o segundo filho durante a gravidez. Para ela, a falta de apoio da sociedade para com mães e pais que sofreram perdas gestacionais ou neonatais foi um dos motivos que a levaram a criar um grupo de apoio a fim de ajudar outras pessoas que passam pelo mesmo drama.

— Pelo fato de o bebê não ter nascido, as pessoas acham que não faz sentido passar por aquilo. Ninguém permitia que eu vivesse meu luto e desqualificavam a minha dor.

Antes de se engajar na luta por um atendimento mais humano e empático para mães e pais que perdem filhos nestas condições, Larissa se viu em meio a uma crise de consciência com a irmã gêmea, Clarissa.

— A minha irmã, que também já tinha um filho, havia perdido um bebê em março de 2015, depois de várias tentativas. Ela passou por um luto muito profundo. Na época, implorou para que eu não engravidasse antes dela e, na hora do desespero, eu prometi. Dois meses depois me vi grávida.

Larissa afirma não ter contado a novidade de imediato até que a irmã engravidasse novamente, o que aconteceu um mês depois. Juntas e grávidas, elas compartilharam sonhos e planos durante as compras de enxoval, até que uma nova perda as abalou novamente: a psicóloga perdeu seu bebê aos cinco meses de gravidez.

— Quando perdi meu bebê, a minha irmã reviveu o luto. Como isso mexeu muito com ela, o bebê dela nasceu prematuro e ainda tem problemas de saúde.

"eu me senti uma cobaia"

Era outubro de 2015. Na época, o primeiro filho de Larissa tinha quase dois anos. Durante uma ultrassonografia de emergência após um sangramento, a psicóloga descobriu que a gravidez era molar — condição rara que ocorre quando o feto não recebe os cromossomos da mãe durante a fecundação. Desta forma, o feto cresce como um emaranhado de células, sem formar um bebê.

— Eu fiquei sabendo da pior maneira possível. Como não se parecia com um bebê, [os médicos] ficavam perguntando se eu realmente estava grávida e se eu tinha algum exame para provar. Achavam que eu estava louca. Eles alegavam que o bebê parecia totalmente sem forma.

O atendimento continuou com frieza e sem nenhuma empatia por parte dos profissionais de saúde, segundo Larissa. O médico chamou um colega para me examinar novamente.

— Eu me senti uma cobaia. Os dois ficavam conversando na minha frente, como se eu não estivesse ali. Depois, ainda chamaram uma terceira pessoa. Isso aconteceu em uma clínica particular do Rio de Janeiro, mas percebo pelos relatos de outras mulheres que isso ocorre em vários lugares. Já nas maternidades, os funcionários te dão parabéns, te dão lembrancinhas, ficam perguntando pelo bebê, sem saber que nasceram mortos. Esses equívocos só aumentam a nossa dor naquele momento de vulnerabilidade.

“Ninguém permitia que eu vivesse meu luto e desqualificavam a minha dor”

Na hora do parto, os profissionais ficaram discutindo qual procedimento seria melhor para retirar o bebê, sem consultar a gestante, além de não permitir a entrada do marido dela na sala de cirurgia.

— Eu nem sabia o sexo do meu bebê porque queria que fosse surpresa, e ninguém perguntou se eu queria vê-lo. Quando eu acordei, estava em um lugar asséptico [limpo]. Como não concretizei o meu luto, fiquei semanas colocando a mão na barriga e sentindo o meu filho se mexer. Era como se tudo não tivesse tido um fim.

Diante de toda essa dor, Larissa, a irmã gêmea e o marido fizeram um abaixo-assinado pedindo maiores cuidados por parte dos profissionais de saúde nos casos de perda gestacional e neonatal, e criaram a página do grupo “Do Luto à Luta: Apoio à Perda Gestacional e Neonatal”.

— A gente sabia que o nosso maior desejo era evitar que outras famílias vivessem o mesmo drama. Eu e minha irmã tínhamos certeza de que queríamos uma sociedade mais acolhedora e empática.

Atualmente, os encontros presenciais do grupo acontecem todo mês no Rio de Janeiro, com cerca de 15 pessoas, e as mães podem relatar suas perdas na página do blog.

Da tempestade ao arco-íris

Hoje, Larissa tem um filho de quatro anos e uma menina de um ano. A menina é a “bebê arco-íris” dela, como são chamadas as crianças nascidas após perdas gestacionais ou neonatais. O bebê arco-íris simboliza a esperança depois da tempestade.

— Muita gente veicula a minha superação à nova gestação, mas, na verdade, eu acredito que a minha superação veio antes da gravidez. Eu só consegui engravidar justamente porque elaborei o luto por meio do grupo. No início, eu misturava as coisas e me emocionava com aquelas pessoas. Isso foi extremamente terapêutico e benéfico para mim. Depois, consegui me distanciar e ficar no lugar mais de psicóloga do que de mãe em luto. Se não fosse eles, não conseguíamos superar. Sou muito grata.

“Sempre falamos do filho que a gente perdeu, não necessariamente com tristeza e pesar. Existe uma linda história de amor por trás, contada com leveza e poesia”

O grupo cria várias frentes de trabalho, como campanhas fotográficas, por exemplo. O último projeto teve a temática arco-íris, mas não necessariamente ligada ao nascimento de crianças. "A ideia é mostrar que o arco-íris nem sempre é um bebê. Pode ser a fotografia, um livro, o blog, o Direito. Existem várias outras formas de encontrar esse novo colorido, que pode surgir com toda a força".

Depois de aprender a lidar com o luto pela perda do filho, Larissa fala sobre desejo de ajudar outras famílias. "Sempre falamos do filho que a gente perdeu, não necessariamente com tristeza e pesar. Existe uma linda história de amor por trás, contada com leveza e poesia".