CAPÍTULO V
NEGRO DRAMA
Um panorama do racismo no Brasil
O R7 entrevistou 28 pessoas, entre personalidades e especialistas, e se debruçou em 22 fontes de pesquisa para discutir a situação da população negra no País.
Foto: Juca Guimarães
28/07/2017
São Paulo - Brasil
REPORTAGEM
Giorgia Cavicchioli, Juca Guimarães
e Peu Araújo
ARTE
Danilo Lataro

Com base na Convenção para a prevenção e repressão do crime de genocídio, adotada pelas Organizações das Nações Unidas em Assembleia Geral em 1948, o R7 reconheceu situações críticas em relação à população negra no Brasil em nove diferentes cenários: número de mortes, violência, educação, mercado de trabalho, saúde, habitação, família, violência contra a mulher e falta de representatividade.

O quinto e último capítulo apresenta números e opiniões sobre representatividade da população negra no Brasil.

A pedido do R7, o Instituto Paraná Pesquisas realizou um levantamento exclusivo sobre racismo no Brasil. O relatório, realizado no final do mês de maio de 2017, fez duas perguntas para a população. Uma delas era se algum dia aquela pessoa foi racista. 93,7% afirmou que não, 5,9% disse que sim e 0,5% não respondeu.

A segunda pergunta feita foi se a pessoa tinha presenciado algum ato ou cena racista. Para essa questão, 50,3% afirmou que sim. 49,2% dos entrevistados disse que não e 0,5% não respondeu. A pesquisa ouviu 2.022 eleitores com 16 anos ou mais. O levantamento foi feito em todo o Brasil e tem 95% de confiança. A margem de erro estimada é de 2%.

O R7 recorreu ao título da música do Racionais MC’s para dar nome a essa reportagem especial. Assista a uma interpretação exclusiva de Tawane Theodoro, poeta e uma das participantes de poetry slam’s (campeonato de poesia).

Eu visto preto por dentro e por fora
Uma entrevista com um dos compositores de Negro Drama

Foto: Fabio Braga/Folhapress

A reportagem convidou um dos compositores da música Negro Drama para comentar a situação da população de pele preta e parda no Brasil e fazer uma comparação com o que mudou da época em que ele escreveu a canção em relação aos dias de hoje. Acompanhe abaixo a entrevista completa com Edi Rock, do grupo Racionais MC’s.

R7: Qual o drama do negro no Brasil hoje?
Edi Rock: Eu acho que é querer ter paz, você querer um bom emprego, um bom salário, um bom estudo e não ter.

R7: O drama do negro mudou de quando você fez a letra de “Negro Drama” há quase 20 anos?
Edi Rock: Não, só mudam as pessoas. O drama é o mesmo. Nasce, vive, morre aí o outro entra no lugar.

R7: A cada 23 minutos morre um jovem negro no Brasil. Como a morte do jovem negro impacta no País? O que o País perde o futuro, a identidade?
Edi Rock: Que pergunta complexa. Eu não sei te responder. A gente perde um ser humano, perde uma vida que poderia ser um talento, alguém que viria a salvar outra vida. É difícil falar dessa forma, mas eu vejo pelo lado espiritual e acho que depende de como essa vida foi perdida, por isso que eu falo que é complexo, não dá para resumir em uma resposta.
Na quebrada morre muita gente, tá ligado? Às vezes você tá tomando uma cerveja no bar sete horas da noite, passa uma moto e metralha todo mundo, morre quem estava devendo e quem não estava também. É muito complexo.

R7: A história dos negros de talento não é contada nas escolas, nas aulas você não costuma ouvir falar de negros que fizeram grandes feitos no Brasil e esses personagens existem. Você acha que não contar isso na escola é um jeito de esconder a História dos jovens?
Edi Rock: Sim, é esconder, é passar por cima, colocar embaixo do tapete para não ser valorizado. É como você valorizar o serviço do empregado. Você fala pra ela, mas não vai fazer propaganda dele na rua, porque senão você vai perder o seu empregado, ou ele vai pedir aumento, é mais ou menos por aí.

R7: Hoje você é um homem negro que inspira outros negros mais jovens. A molecada tá de olho no que você canta, no que você fala, na sua postura. Quem te inspirou quando você era criança? Quem era o negro que você via na TV e se reconhecia nele?
Edi Rock: Não me lembro.

R7: Não tinha, né?
Edi Rock: Pois é, se eu não me lembro. O primeiro que eu me lembro foi musical, foi o Michael Jackson. Mas o que puxou o bonde mesmo foi o break, o primeiro foi o Black Juniors e eu vi uma oportunidade. Falei. ‘C******, sou eu’. De resto eu não me recordo.

R7: Isso reflete bem na falta de representatividade da população negra, né? Os negros, por exemplo, no cinema acabam tendo papéis de empregados, periféricos. Como você vê num país em que 54% da população é negra ter tão poucos representantes nas telas?
Edi Rock: O que é não é mentira, é uma verdade. O pessoal reclama que os pretos sempre fazem papel de funcionário, de motorista, de faxineira, empregada, mas se você for ver é uma realidade também. Ela não tem que ser escondida, você não pode ignorar que é uma realidade, mas não é só isso.
Nós temos complexo de inferioridade. Eu posso ser motorista, mas posso ser o melhor motorista da frota. Eu posso ser faxineiro, mas posso ser o melhor faxineiro do prédio, e ser exemplo, abrir uma empresa de faxina. Não tem vergonha nenhuma nisso, o trabalho é digno, a questão é como você desenvolve.
Eu já fui pedreiro, aliás, auxiliar de pedreiro, porque pra ser pedreiro você tem que ter mais experiência. Não tenho vergonha nenhuma nisso, já sustentei minha família por muito tempo assim, você pode ser pedreiro, como pode ser engenheiro eletrônico, presidente da Apple no Brasil.

R7: Mas historicamente é muito mais difícil o negro chegar ao cargo de chefe pela base educacional.
Edi Rock: Isso tá mudando conforme as gerações. A gente ainda tem que brigar na base, ela é o problema de tudo. Não só no ensino, mas na família também. A gente tem uma perda na estrutura da família que ela não incentiva o estudo. Eu tive a oportunidade de estudar, mas a música falou mais alto. Meus pais falavam para eu estudar, mas tem pai que não fala assim, que não tá presente, tem mãe que não tá presente. Tem muito amigo meu que não tem mãe, que tem mãe, mas não tem o pai. Ele faz o que quer da vida, ele manda e desmanda.

R7: E como é com suas filhas?
Edi Rock: Eu incentivo as minhas filhas a estudar, porque elas têm que se formar. Elas estão quase se formando e depois vão trabalhar comigo.

R7: E a polícia, Edi. Nós temos muitas reclamações de racismo na instituição. Você sente isso, avalia que isso pode mudar?
Edi Rock: Acho que a instituição, exceto alguns, é racista e preconceituosa desde o começo dos tempos, foi criada autoridade para poder proteger as fazendas, digamos assim. Essa é a mente do senhor de engenho, para proteger os ricos, proteger a propriedade e não para proteger o povo.

R7: Hoje você é abordado pela polícia?
Edi Rock: Se eu andar com o vidro aberto sim. É lógico. Você viu meu carro?

R7: Vi sim estacionado aqui perto.
Edi Rock: Se eu ando com o vidro aberto, principalmente se tiver mais de um no carro. Sozinho nem tanto, mas se tiver duas pessoas no carro é tiro certo.

R7: Mas por que o policial para um negro dirigindo um carrão?
Edi Rock: Cara, ele vai ver qual que é. ‘Mano, mano encosta aí’. Ele não sabe o que é. Eu posso ser qualquer coisa.

R7: Mas uma pessoa branca também?
Edi Rock: Também, mas no meu caso eu sou visado. Ele imagina várias coisas, passa várias coisas pela cabeça dele, dependendo também do local que eu estiver. Se eu tiver na quebrada com esse carro os caras me param na hora, por isso que a gente anda com o vidro fechado, pra não ser visto, não ser visado.
Se eu tô naquela neurose e quero que se f***, eu ando com os vidros tudo baixos e com o som alto pra c******. Eu levo uma. Mas tem dia que eu não tô afim, tô com preguiça.

R7: O que mudou na abordagem policial de quando você era jovem para agora?
Edi Rock: Antigamente os caras perguntavam o que eu fazia e eu não falava, falava que era produtor. Não podia falar que era cantor de rap, não podia falar que era do Racionais, jamais. Hoje eu posso falar, mudou muita coisa. Eu falo e os caras e a conversa já é outra.

R7: A ONU diz que não existe genocídio contra o povo negro. Qual a sua opinião?
Edi Rock: Eu acredito que os caras escondem, porque ninguém quer assumir uma responsabilidade deste tamanho. A partir do momento que você expõe uma realidade dessa, que você acusa, você tem que provar e estamos falando de genocídio, estamos falando de morte. E quem mata? Genocídio é um crime. Quem que vai segurar essa bomba? Quem vai assumir isso? Quem vai segurar essa bandeira? Acho que é uma responsabilidade muito grande, que poucos querem, que poucos vão tentar. É a mesma coisa de conduzir um País, poucos têm coragem para isso. É crime e poucos vão querer declarar essa guerra.
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Luz, câmera e ação
Um bate papo com o ator Sidney Santiago sobre militância negra e representatividade no teatro e cinema

Foto: Juca Guimarães/R7

Em uma tarde ensolarada do mês de abril, a reportagem do R7 esteve com o ator Sidney Santiago na região do metrô Tiradentes, em frente à Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), para realizar um ensaio fotográfico representando a morte de jovens negros em decorrência de intervenções policiais.

De acordo com o ator, a imagem transmitida por ele no ensaio fotográfico faz parte do espetáculo Negro Panfletos Itinerantes. Esse espetáculo é do coletivo Selo Homens de Cor e tem como fundamento básico “denunciar o genocídio da juventude negra e fazer uma homenagem à luta que as Mães de Maio vêm realizando no Estado de São Paulo.”

Levantamento do R7 mostra que esse tipo de ocorrência mata uma pessoa a cada 19 horas em São Paulo. O número representa um aumento de 38% em relação aos primeiros dois meses de 2016.

Todos as pessoas que morreram nos casos de “resistência” em 2017 eram homens. Os negros foram os que mais morreram, representando 57,9% do total. Dos mortos, 50 tiveram a idade discriminada no Boletim de Ocorrência e a maior parte das vítimas (44) tinham de 15 a 29 anos.

O ator, que já fez 12 trabalhos no cinema, se destaca no teatro e na televisão. Também faz trabalhos como diretor e pesquisador, sempre refletindo o seu lado militante da causa negra. No ensaio, Sidney decidiu aparecer como um boxeador, um lutador ao maior estilo Muhammad Ali. Com uma bandeira do Brasil nas mãos e com sangue pelo corpo, ele trouxe uma reflexão sobre as mortes que o racismo institucional causa.

O olhar do ator nas fotos, ora combativo e ora dramático, mostra como ser negro no Brasil é sobreviver a cada dia e lutar para continuar vivo. Santiago diz se considerar um “privilegiado” por ter passado dos 30 anos no País que mata, a cada 23 minutos, um jovem negro. A seguir, a entrevista completa:

R7: Conte um pouco da sua história?
Sidney Santiago: Eu sou do litoral. Nasci no Guarujá, que, diferente de uma periferia de uma grande cidade, tem essa questão que o litoral é quase abandonado. O Estado praticamente inexiste. E você, em paralelo, o que o interior tem, por exemplo, que é a presença de um Sesc, de um Sesi, que dá uma organizada em uma vida cultural. Você não tem aparelho nenhum de cultura. Mas eu cresci indo ao circo e vendo chanchadas pela TV Cultura e comecei primeiro dançando. Com 15 anos eu vim pra São Paulo e desde os 16 eu não parei de trabalhar. Eu fiz uma novela e não parei de trabalhar. Nessa brincadeira são 16 anos aqui direto e vivendo de arte.

R7: Seu trabalho vai além da televisão...
Sidney Santiago: Em paralelo, eu sou um ator de teatro, mas sempre fiz TV e cinema. Costumo dizer que tanto a TV quanto o cinema são bicos, mas são bicos recorrentes. Nessa brincadeira eu fiz 20 filmes, com diretores importantes. E todos filmes de São Paulo, falando sobre a cidade de São Paulo de alguma forma. E aí em 2004 eu entrei na USP e fiz a escola de arte dramática, que é uma escola que existe desde 48, uma escola muito tradicional. Aí eu fiz essa escola e lá dentro eu formei com outros companheiros Os Crespos, que é uma companhia de teatro e intervenção urbana, formada por atores negros, que desde 2005 tem como perspectiva falar de uma arte negra e fazer uma pesquisa sobre o legado africano e o legado negro na arte brasileira.

R7: Qual o papel do negro na arte nacional?
Sidney Santiago: Quando a gente fala de arte brasileira, de alguma forma, a gente vê um apartamento muito grande. Os negros não estão em cena e, quando estão, é em estereótipos recorrentes. De forma muito depreciativa. Mas não estão na direção, né? E aí Os Crespos tinha essa pegada de fazer uma arte negra, um teatro negro e aí estamos aí. O teatro eu digo que é o meu carro-chefe e, em paralelo, a gente vai fazendo essas outras atividades. Mas o cinema é o lugar que eu mais fiquei. Trabalho sempre com a perspectiva de ser um ator negro, que discute o seu espaço de trabalho. Ou seja, a maioria dos personagens que eu faço, são personagens que eu faço uma análise para estar ali. A militância, para mim, está no meu campo de trabalho.

R7: Onde termina o militante e começa o ator?
Sidney Santiago: Eu sou negro antes de ser qualquer coisa. Então, o meu lugar enquanto negro no mundo vem primeiro. Eu iniciei a minha militância lá nos anos 2000 e fui entendendo que eu era uma pessoa negra e que teve privilégios.

R7: Por que você se considera um negro privilegiado?
Sidney Santiago: Porque eu não morri. Eu já passei de 30 anos e não morri. Isso é um privilégio para um homem negro. Passei de 30 anos e tenho casa própria, tenho o meu trabalho. Eu consigo viver da minha arte. Isso no Brasil é um privilégio. Reconhecendo esses privilégios, eu passei a entender, através da militância, que eu tinha uma responsabilidade social.

R7: Alguns tipos de personagens são destinados a autores negros. O que você pensa disso?
Sidney Santiago: A dramaturgia, antes de uma prerrogativa racial, é uma prerrogativa de classe. Então você tem um homem, branco, que está em uma crise existencial sobre a sua herança. Quem vai dar continuidade ao seu capitalismo? O tema central da novela, o eixo, é esse. E o resto são desdobramentos periféricos onde você insere uma ou outra personagem negra. Eu acho que esse tipo de protagonismo também não deve interessar à população negra. Eu acho que as pessoas negras não se verão no gênero teledramaturgia. Ou se verá de forma muito inoportuna. Agora, o gênero precisa ser revisado. Porque se a gente coloca um homem negra com posses e com essas crises existenciais a gente não avançou enquanto sociedade. A bobagem continua a mesma. A novela tem coisas que são incríveis. E uma coisa incrível eu acho que é a gente estender o raio de problemática. Aí sim a gente vai poder pensar.

R7: O que você pensa de não se ter muitos autores negros?
Sidney Santiago: Tem uma questão que a pena, a escrita, ainda é um lugar de poder no Brasil. Eu sempre vou ver o outro através do meu prisma e eu vou escrever sempre da minha aldeia. Pessoas escrevem sobre o outro, mas não destituindo o outro. Isso é possível com pessoas sensíveis, grandes artistas, mas isso não acontece no Brasil, definitivamente. Quando a gente pensa que as nossas histórias são escritas por meninos, em sua maioria brancos, é muito pouco. Não tem pluralidade. Então, quem escreve, ainda define o destino de todo um conjunto de pessoas. Isso é muito escravocrata. Isso é muito perigoso. Não que essas pessoas não tenham o direito de produzir, muito pelo contrário, elas têm todo o direito. Mas ao ter direito, você tem que ter responsabilidade. E esses personagens têm uma importância simbólica.

R7: Você pode dar um exemplo?
Sidney Santiago: Não é o problema ser empregada doméstica. O problema é que a empregada doméstica não tem filhos, não tem sexualidade, não tem conflitos. Ela está somente ao serviço do riso, ou só a serviço de servir uma água ali. Ela não tem importância. E ao vincular essas histórias, você está dizendo: essa pessoa não tem importância. Essa população não deve ser olhada.
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Negro drama de estilo
Rico Dalasam fala sobre o rap, sua trajetória e a solidão do homem negro gay

Foto: Bruno Poletti/Folhapress
R7: Existe racismo no Brasil?
Rico Dalasam: É muito doido pensar em respostas para perguntas como “você já sofreu algum tipo de racismo?”. É muito estranho, porque o avanço dessa discussão não é termos evidência do que passamos. O importante é o avanço desse imaginário para a etapa seguinte. A pergunta é. “E aí, como você lida? Quais são suas armas, suas ferramentas?” De início, porque isso vai mostrar que já está posto que vivemos o racismo e ele não é uma hipótese, uma possibilidade, um rolê.

R7: Infelizmente ainda tem gente que acredita que falar disso é vitimismo.
Rico Dalasam: Sim, mas até o cara que entra no debate com a ideia de que não existe racismo e de que é autocomiseração da galera, dentro dele ele sabe que é um agente da exclusão. Se alguém tá falando que tá doendo e você não se solidariza com aquela dor e desde que a vida é vida tem alguém do seu lado alegando que sente essa dor no fundo você sabe e ignora esse fato. Ou se isenta para não carregar a culpa.

R7: Muitas pessoas comentam que o racismo, muitas vezes, não está nem no que a pessoa diz, mas no olhar. Como dá para explicar essas situações?
Rico Dalasam: Eu vivo isso, mas é muito doido de explicar. Você chega num lugar com alguns amigos ou colegas brancos e você sente quando você chega que a sua presença gera em algumas pessoas um olhar estrangeiro, um olhar de questionamento. Na escola isso era muito mais latente.
Esse exemplo que eu vou dar já aconteceu comigo “n” vezes. Você fala uma coisa e uma pessoa branca a repete depois de você, mas só é validado quando a pessoa branca fala. A gente morre aí. Quando a nossa capacidade de raciocínio é colocada a prova, quando a nossa capacidade de compreensão é colocada a prova, quando se questiona se temos cérebro, quando tentam nos associar com o modo bruto e animal, como se todos nós que vivemos neste planeta não tivéssemos o lado bruto e animal dentro de nós. Na hora de matar o negro começa por aí.

R7: O que você considera mais nocivo à população negra? A violência institucionalizada ou a negação de que exista racismo?
Rico Dalasam: No caminho ou você se conforma com a proposta de derrota para esse sistema ou você burla ele até a hora que você acha um respiro. É um trabalhão, mas dá para achar esse respiro, viver com mínima dignidade, transitar, fazer com que sua fala tenha valor, fazer com que sua imagem tenha a mesma equivalência. Ninguém tem que nascer com essa função de achar a superfície, principalmente quando tem alguém empurrando a sua cabeça para baixo. E além disso, você precisa comer, trabalhar, sustentar a família, não dá tempo de ficar criando mecanismos, se munindo e buscando recursos intelectuais para poder lidar com essa parada.
Desde os 17 anos que eu acho isso. Se você quiser falar que não existe [racismo], pode falar que não existe, mas também não se mete comigo, porque se você se meter comigo eu não vou ficar te explicando o que é ou não é. Eu vou agir da maneira que eu tiver que agir, se eu achar que é uma questão mais didática eu vou educar, se é uma questão que exige mais energia serei mais enérgico. Cada situação é uma situação.

R7: No seu dia a dia o que “vem primeiro”? O racismo ou a homofobia?
Rico Dalasam: Vem o racismo. No corpo negro a homofobia é um agravante. A população LGBT que morre é negra, inclusive. É mais um fator.

R7: Qual o peso de ser uma voz para o negro e para o gay no Brasil? Como foi esse processo?
Rico Dalasam: Num primeiro instante eu pus o meu corpo na reta, porque eu só tinha o corpo para colocar. Eu não tinha voz, não tinha mecanismos, não tinha o mínimo de legitimidade com a minha arte e as pessoas não me consideravam com a imagem da moda ainda. Eu fui com o corpo, os medos, a fragilidade, o risco e a solidão. A solidão é um grande combustível para se correr riscos, ela me faz correr riscos que se eu não tivesse a carga de solidão que eu tenho eu não correria.

R7: E porque você tem essa solidão?
Rico Dalasam: O negro gay, ele vive uma solidão. Aceitando ou não ele vive isso. No aplicativo de pegação ele vive isso, na balada ele vive isso. Se ele não quiser ser um cara internado dentro de casa ele vai ter que passar por mil lugares que expõem essas mazelas. Mas se você desenvolve a capacidade de lidar com isso muito cedo, que é o meu caso, você vai chegar aqui, aos 27 anos, e não vai aceitar que isso tudo é normal ou que tenha que fazer parte da existência, da jornada, de uma pessoa. Não tem.

R7: Mas apesar da solidão do homem negro gay, há uma objetificação do corpo negro. Isso agrava a solidão?
Rico Dalasam: Pra c******, porque as pessoas querem trocar com a sua inteligência quando quer algo massa, quer saber as suas refs (referências), o que você ouve, o que você faz, o que você come, onde você gosta de estar, pra onde você foi e é natural. Agora quando a pessoa olha para você como um pedaço de alguma coisa, isso tudo f***-se. E aí, você tendo algo a oferecer ou não, você é silenciado. Aí você fica entre atender as necessidades do seu corpo, de viver, de transar e de curtir tudo o que é possível ou ser a pessoa que, mais uma vez, vai tentar legitimar o seu discurso. Ou você vira aquela pessoa altiva, que se coloca num pedestal de saber muito. Ela sabe demais, mas juntou esse negócio para ser a armadura dela. E tudo isso é peso. É o cara com o tablet e o cara com a mochila pesada.

R7: O que mudou da primeira vez que você sofreu com racismo para a última?
Rico Dalasam: O tempo em que eu saí da condição de vítima. Eu faço isso muito mais rápido e se eu não sou vítima eu boto pra f**** também.

R7: O que é essa condição de vítima?
Rico Dalasam: É se fragilizar com aquele ataque. É lamber a ferida em vez de correr e deixar arder. Eu já me abati com essas questões. Eu me abati gravemente, fiquei mal, emagreci, eu não tinha sustento, mas no outro dia tinha um jornalista aqui fazendo perguntas, no outro dia eu tinha que cantar no lugar onde os moleques fazem cartolina com minhas frases, que tatuam as frases, que me dão um abraço súbito, um abraço de vida, que dizem. ‘Cara, eu tô sobrevivendo aqui nos últimos dias por causa do que eu tô ouvindo’. Ou chega uma pessoa e fala. ‘E a primeira vez que eu venho ao show, porque nos últimos oito meses eu vivi uma depressão e saí dela ouvindo sua música, ela era meu alimento diariamente.’

R7: Você ser a força para os outros seguirem em frente fez você seguir em frente?
Rico Dalasam: Do mesmo jeito que um negro se vê em outro negro, alguém que se abate se vê no outro que tá abatido também e tenta sair dessa caverna.

R7: E o que mudou da primeira vez que foram homofóbicos com você para hoje?
Rico Dalasam: A homofobia não mudou não.

R7: E como os dois cenários se unem?
Rico Dalasam: Vou te dar um exemplo de um teste que eu já fiz várias vezes. Eu tô vindo na madruga, lá no Taboão (da Serra) de boné e moletom e tá vindo um carro de polícia na expressão de um jovem masculino, com o cabelo preso. E eu tenho certeza de que vou ser enquadrado ali. Eu tiro o boné, solto o cabelo e começo a andar “quebrando”. Eles passam reto. Vai para uma outra expressão e você vira um outro estereótipo naquele cenário. Você passa a ser mais alguém que está em risco e não quem tá colocando a vida dos outros em risco pela fragilidade que cada corpo apresenta. O corpo travestido é um corpo frágil no universo.

R7: Quais são as maiores dificuldades que você teve e tem na carreira?
Rico Dalasam: É um conjunto de coisas. O primeiro é que o cruzamento de narrativas são improváveis. Se o pensamento sobre racismo ainda é latente, pensa nos cruzamentos que a minha existência carrega pra ele ser a síntese de um produto nítido na cabeça de alguém. Preto, gay, cantando rap.

R7: O que você antes da música?
Rico Dalasam: Eu era cabeleireiro e comecei a trabalhar com 12 anos. Isso me deu uma percepção sobre não ter patrão, sobre várias coisas no caminho da vida adulta nessa época. Com 13 anos já era muito decisivo, porque tava uma coisa assim: quer bolacha? Rouba a bolacha. Quer salgadinho? Rouba o salgadinho. Quer um óculos? Vai roubar o óculos. Só que aí no óculos eu percebi que ia dar bosta. Grande parte dos caras que estavam neste episódio continuaram. Do óculos para o celular, do celular para a moto, da moto pra casa. Carreira.

R7: E como foi a sua carreira como cabeleireiro?
Rico Dalasam: Foi mágica. Eu sempre fui uma criança viada. Empinava pipa, fazias as coisas no ritmo favela, mas eu sempre fui uma criança viada. Eu não tava jogando futebol, mas eu ia buscar a bola quando caía no mato e tava ali pra isso. Eu vivi todos os cenários da vida de um moleque dentro do que a minha natureza permitia.
Aí teve um dia que eu vi um alisante da minha irmã em casa. Eu passei sozinho, enquanto não tinha ninguém em casa. Meu cabelo ficou liso, eu lavei, passei um gel e fui pra rua. Aí todos os meus amigos queriam fazer aquilo. Eu falei. ‘Lá em casa tem, mas depois tem que comprar outro, porque é da minha irmã’. Aí cobrei 50 centavos de cada, passei em todo mundo, comprei outro alisante e sobrou um dinheiro pra mim.
Eu comecei a fazer contas e vivi disso. Fiz isso, depois chegaram outros moleques e tudo era uma grande novidade. Subi o preço para dois reais, porque eu sempre desses de cobrar por qualquer coisa. Uma hora eu tinha dez reais, truta. E assim foi indo. Veio o negócio da trança de basquete, eu fui aprendendo a fazer até fazer direito e eu virei o cara do bairro.
Aí minha mãe falou. ‘É, ele sabe fazer alguma coisa que presta’ e ela deixou um cômodo lá de casa para eu fazer isso. Começou a bombar de gente em casa e eu virei o cabeleireiro mais legal do bairro. Isso aconteceu na 7ª série. Eu terminei a escola e entrei na faculdade tudo com esse dinheiro. Depois eu fui fazer cabelo de moda, trabalhei com o Max (Weber) e fui entendendo o mercado de outra forma. Lá era muito suado o trampo para a quantidade de grana, aí comecei a fazer aqui no centro umas festas, noivas, umas coisas e o entrei no game da beleza, que é incrível também. Se amanhã eu acordar mudo com dignidade eu caio pra dentro de novo.

R7: Você fez faculdade de quê?
Rico Dalasam: Eu entrei na Moda, fiquei um tempo, saí e fui para o Audiovisual. Entrei numas de ser diretor de arte e comecei a fazer umas assistências de direção de arte, umas produções de moda e fui juntando essas coisas, porque é assim que as pessoas vivem em Nova York. Eu tinha essa pira e vivia cheio de sonho. O mesmo sonho que eu tinha aos 12 quando via os clipes do B2K, do Puff Daddy eu mantenho. Todos os meus amigos perderam esses sonhos, mas eles ardem em mim até hoje e protejo eles pra c******.
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Olho pra trás, vejo a estrada que eu trilhei, mó cota
Uma entrevista com Leci Brandão (segunda parte)

Foto: Marília Lino

Em 180 anos de existência, a Assembleia Legislativa de São Paulo viu apenas duas mulheres negras andarem por aqueles corredores como deputadas estaduais. No dia 19 de abril deste ano, a reportagem do R7 esteve com uma dessas personagens históricas, não só na política brasileira como também no samba: Leci Brandão.

Durante a entrevista, ela contou como combate o racismo dentro e fora da Alesp. Pode parecer irreal que um nome e um rosto tão conhecido em todo o Brasil ainda sofra com o preconceito das pessoas. Porém, Leci contou casos antigos e recentes em que sentiu isso literalmente na pele.

A deputada também falou sobre os recentes casos de chacinas em São Paulo, como isso reflete um verdadeiro genocídio no País e o caso de um amigo negro que foi parado pela polícia por estar dirigindo um “carro bom”. Leia a entrevista na íntegra:

R7: Trabalhando como deputada, na resistência, como mulher negra. Como é o seu dia a dia na Câmara?
Leci Brandão: A gente participa da Comissão de Educação e Cultura. Eu escolhi essa porque tenho uma coisa natural com o tema. Sou artista. Eu sempre digo que não sou deputada e sim estou deputada. E assim fica mais fácil para encaminhar e pegar as demandas do povo. Eu não fiz faculdade nenhuma, a faculdade que eu fiz a Universidade da vida. A educação que a minha mãe me deu. Seis palavrinhas: bom dia, boa tarde, boa noite, com licença, por favor e muito obrigado. São com essas palavras que eu conduzo a minha vida.
Nos últimos tempos, do ano passado para cá, a demanda que está vindo aqui para o meu gabinete é muito grande. Diariamente aqui chegam e-mails e e-mails das pessoas solicitando a nossa participação, a nossa ajuda, a nossa colaboração política, enfim, e é assim. É interessante. Eu tenho explicado para as pessoas que eu não sou do executivo, eu não sou prefeita, entendeu? Eu não posso asfaltar a rua, ver a vaga na creche, ver a escola, ver isso, ver aquilo, porque não tenho esse poder. Aqui é legislativo, eu tenho é que criar projetos de lei. Mas eu também explico para as pessoas que a sociedade civil pode mandar projetos para cá. Existe essa prerrogativa para o deputado. Às vezes chegam coisas, ideias e enfim. Paralelamente a isso, eu não sei o que o pessoal vê na gente (…) tem hora que eu sei, mas tem hora que eu não sei (...) e penso meu Deus, que missão é essa?

R7: A senhora criou a medalha Theodosina Ribeiro, para homenagear mulheres que fazem trabalhos importantes na sociedade. Qual a importância da medalha?
Leci Brandão: Essa assembleia tem 180 anos de existência e eu sou a segunda mulher negra que entrou aqui. A primeira foi a doutora Theodosina, nos anos 1970. A gente até criou a medalha Theodosina. É uma medalha para mulheres, negras ou não, mas mulheres que lutam. De movimentos sociais, mulheres que, de alguma forma, fazem a diferença. Pode ser médica, pode ser uma trans, uma artista, assistente social, mas tem um recorte muito forte na história dessa mulher em defesa dos menos favorecidos. Sou a segunda mulher negra eleita deputada estadual por São Paulo. Quando eu entrei aqui, em 2010, e soube da história da Theodosina.

R7: O que a senhora pensa de sempre ter que estar provando muito que é merecedora de estar em determinada função? Seja aqui ou na rua.
Leci Brandão: Não é questão de provar não. Eu construo as minhas coisas do jeito que eu sei.

R7: Na assembleia, a senhora catalisa e dá voz para as denúncias de racismo.
Leci Brandão: Quanto tem chacinas e gente fala e vai. Nós fomos lá na quebrada para ver. Teve uma comissão de Brasília, com o deputado Orlando Silva, que também é do PCdoB. Essa coisa do genocídio é real.

R7: Nos dois mandatos da senhora deu para perceber que o número de denúncias de racismo aumentou?
Leci Brandão: Há um aumento. Infelizmente, a questão do racismo está viva. E tem um outro detalhe: tem que acontecer alguma coisa com celebridade para acontecer alguma coisa nesse País. Eu fui para a tribuna falar do Zé Mayer. Ele cometeu crime. Aquilo é crime. Assédio sexual é crime. Eu lamento muito isso. As atrizes colocaram camiseta e tal, mas isso acontece todos os dias e em todos os lugares. Com milhares de mulheres e ninguém se importa. Toda vez que tem celebridade envolvida é que repercute. Não devia ser assim.

R7: A senhora sente que, de quando a senhora era adolescente para cá, a resistência do povo negro aumentou, porém, a contrapartida não vem?
Leci Brandão: Quando eu era jovem, eu não via tanta favela, tanta gente sem teto como eu vejo hoje. Tanta gente morando na rua. As pessoas eram pobres, mas conseguiam trabalhar e tinha comida na mesa. Hoje tem muita gente com fome. Houve um momento, quando o metalúrgico analfabeto entrou, (...) que foi uma época com algum respiro. As universidades têm mais negros, em vários lugares... quantas políticas públicas, quantas iniciativas públicas foram feitas? Para que as pessoas pudessem se for formar e ter mais oportunidades, pudessem se formar. Isso é inegável.

R7: A senhora poderia dar um exemplo?
Leci Brandão: Empregada doméstica, por exemplo, antes era de qualquer jeito. Agora tem que registrar, tem que pagar. Tem que ter hora para almoçar. Antes era uma coisa parecida com a escravidão. Tinha muito desrespeito. Aquele horror do assédio sexual do filho da patroa para cima da empregada que não tinha punição nenhuma.

R7: Como a senhora tem acompanhado as denúncias de genocídio da população negra desde que assumiu o cargo?
Leci Brandão: As denúncias de racismo no Estado de São Paulo tem aumentado sim. Essa coisa está viva, infelizmente. Essa questão do racismo está aí. Com a popularização das redes sociais dão a oportunidade das pessoas se manifestarem com denúncias de racismo e reverberar essas manifestações. O racismo velado, infelizmente, acaba ficando restrito a vítima e ao agressor. Mas quando você espalha isso na rede social, outras pessoas se sentem mais seguras para se manifestarem.

R7: A senhora é uma das responsáveis por um dos maiores hinos de exaltação do povo negro que tem no rap que é o "Sou Negrão", com o Rappin Hood. Como aconteceu essa parceria e como foi esse seu flerte com o rap?
Leci Brandão: Eu era da gravadora Trama, em 1998, e ele já era de lá também. E um dia teve uma festa da gravadora e eu chamei ele e disse: 'Eu queria falar com você depois'. Ele até ficou preocupado, disse que achou que fosse uma bronca ou que eu não tinha gostado de alguma coisa que ele cantou. Mas eu queria justamente dizer que gostava do trabalho dele. Um dia eu estava em Santos, fazendo um show de Verão, e ele disse que queria me fazer um pedido. Ele falou que ia gravar um CD e queria que eu cantasse com ele. Eu falei lógico, até porque eu já tinha gravado um rap-samba, o Atitude, em 1993, e gravei no CD Anjos da Guarda uma música chamada Rio Sangue Bom. Porque nessa época estava tendo muita briga de turmas de funk e gangue. E o Atitude, foi porque um amigo meu fotógrafo chamado Januário Garcia, que é do Movimento Negro também do Rio de Janeiro, ele me deu um toque, disse que era uma boa fazer uma ligação entre o rap e samba que ia ser legal. Então chamei o meu parceiro Zé Maurício e a gente fez a música Atitude, que é um rap feito por uma sambista.

R7: Como a senhora vê essa postura da polícia em relação ao foco dela. De quem ela procura como suspeito. Isso é problemático?
Leci Brandão: Sim, existe sim e é muito problemático. Nós trouxemos aqui para a casa, a questão de um oficial de Campinas que deu ordem para a tropa que homem negro ou pardo em princípio é suspeito. Foi uma coisa assim terrível porque tenho vários amigos que me relatam isso. Comigo já aconteceu. Tenho amigo no Rio que me levava para shows, no carro dele, entendeu e a polícia mandava sempre parar. Era um carro bacaninha e ele negro. Uma vez, polícia parou e, com hostilidade, já foi gritando: 'Saí, mão na cabeça, abre a perna, não sei o que' e já faz aquela revista agressiva, daquele jeito que a gente sabe como é. Eu estava sentada no banco de trás, daí abri o vidro e falei 'O que está acontecendo?'. Aí, a polícia mudou o tom. "Leci Brandão, a gente tá aqui cumprindo a norma'. Eu retruquei, mas espera aí gente o carro é dele. Vocês não viram aí no documento que pediram que é ele o dono do carro. Por que você acha que ele é suspeito? Por causa do carro, por causa da cor. Isso é racismo, olha o que vocês estão fazendo como procedimento padrão. Viram um carro bom com um negro dirigindo e já consideram ele como ladrão. Ele não pode ter um carro bom? Eles ficaram sem resposta.

R7: O que isso causa?
Leci Brandão: Isso desencadeia várias outras coisas. Aconteceu na semana passada. Uma chacina no Jaçanã. E no CD novo eu tenho uma música que fala 'Deixa Viver quem mora no Jaçanã', que é uma música antiga que é do mesmo álbum Atitude que era maracanã a rima, mas o Maracanã deixou de ser do povo depois que reformou, só vejo a elite lá, não vejo mais a cara de ninguém que se identifique comigo. Então eu falei deixa eu tirar o Maracanã e colocar Jaçanã que é Zona Norte aqui e tal. E acabou acontecendo essa história.
Vou te dar um exemplo bem recente aqui. Quem sabe que eu estou deputada tudo bem. Mas eu ando no elevador comum, tem um só para os deputados, mas eu uso o que é dos funcionários e visitantes. Tem gente lá que entra e pergunta pra mim 'você sabe onde fica tal lugar' e eu digo 'não é perto do meu gabinete' e a pessoa já olha assim.
O tratamento é diferente. A mulher negra em qualquer espaço que ela esteja é vista de forma diferente com preconceito. Vou te dar um outro exemplo. Há dois anos, na sexta eu ando de branco. Eu sempre coloco alguma peça branca porque é bom para a nossa energia. Eu estava no aeroporto de Congonhas na fila. Na minha frente tem um casal de brancos. A moça com com carrinho de bebê desmontado, uma criança e o marido. E eu sempre levo a minha bolsa e uma outra bolsinha maior para colocar alguma coisa se precisar. Aí a moça da companhia aérea falou assim quando estava recolhendo os documentos 'e você está com eles?'. Eu disse então: 'Não, não sou babá. Sou deputada estadual. Estou de branco porque hoje é dia de Oxalá', disse séria, assertiva. E ela disse: 'desculpa, desculpa'. Você entende...

R7: É bom saber que a senhora tem respostas para isso e se posiciona na hora. As pessoas assim entendem que estão sendo racistas.
Leci Brandão: Sim é necessário questionar. E em outras esferas também. Eu nem era deputada ainda e escrevi uma carta para a Tam, porque eu viajava muito de Tam. Eu não via comissária ou comissário negros na Tam. Tinha um ou outro trabalhando em terra, mas dificilmente você vê voando. Não é que elas não têm competência. Elas são competentes, passam nos concursos entendeu, mas eles não contratam. Eu tenho uma amiga que é aqui de São Paulo que trabalhou numa multinacional. Ela fez comércio exterior. A empresa dela dizia para o RH 'Não contrate Negros'. Tinha essa ordem lá. A pessoa podia ir até fazer o teste, mas não podia contratar. É aquela história. Não podia contratar. O tal não passou no teste psicotécnico.
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Histórias, escritos, registros
“Até brancos reacionários reconhecem a existência dessa doença social (racismo), embora não se reconheçam como doentes”, diz o escritor Cuti

O escritor Cuti é um dos intelectuais mais importantes e atuantes na militância do Movimento Negro nas últimas décadas. Nascido em Ourinhos, no interior de São Paulo, em 1951, Luiz Silva produziu contos, peças de teatro, ensaios, poesias, entre outros textos que formam um dos conjuntos mais completos de obras sobre a resistência dos negros no Brasil.

Mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira, Cuti também foi um dos criadores do Jornegro (jornal literário) e da série Cadernos Negros; fundamental para o lançamento de diversas gerações de escritores negros.

Cuti também foi importante no resgate e na conexão entre as diversas tentativas de se criar uma imprensa antirracista no país. Ele escreveu a biografia do ativista José Correia Leite, fundador do jornal o Clarim; que foi rebatizado como Clarim da Alvorada, circulando entre 1924 e 1932. Um jornal pioneiro feito por negros e para a comunidade negra. Em 1960, Leite criou a revista Niger.

No livro E disse o Velho Militante..., Cuti narra a trajetória de Correia Leite e sua contribuição para a criação da resistência contra o racismo: A Frente Negra (em 1931), O Clube Negro de Cultura Social (em 1932), Associação dos Negros Brasileiros (na década de 1930) e a Associação Cultural dos Negros (em 1956).

Em sua produção autoral, Cuti conta com títulos como: Poemas da Carapinha (1978), Suspensão (peça de 1983) Negros em contos (1996), Negroesia (em 2007), Contos Crespos (em 2008), Literatura Negro-Brasileira (2010), entre outros.

R7: Quando você começou no Movimento Negro?
Cuti: Por volta dos 16 anos.

R7: Naquela época, quais eram as principais bandeiras da luta anti-racismo?
Cuti: Havia um apelo mais pelo respeito de associação e um empenho para se compreender mais o funcionamento do racismo enquanto discriminação e preconceito. Um pouco mais tarde a questão da identidade tornou-se o fator principal e, posteriormente a ação afirmativa.

R7: Qual foi a importância da Imprensa Negra Paulista na luta pela democracia racial no Brasil? Como ela surgiu?
Cuti: Ainda que poucas pessoas tenham o hábito da leitura, incluindo uma parcela semialfabetizada ou mesmo analfabeta, disseminar ideias sempre foi o propósito da Imprensa Negra Paulista, além de contribuir para manter e reforçar o vínculo étnico-afetivo. Sem dúvida, a exclusão que o racismo impõe foi o mote para o seu surgimento. Pessoas em ascensão social ou que sonhavam com ela foram os artífices das primeiras manifestações. As veleidades intelectuais atuaram também como motivador pessoal para se escrever de forma direcionada. Isso assegurava um certo reconhecimento e prestígio no meio negro.

R7: Como você conheceu o José Correa Leite?
Cuti: Creio que foi em uma exposição realizada por Eduardo de Oliveira e Oliveira, exatamente sobre os jornais negros. Isso na década de 1970.

R7: Você acha que a dificuldade de se fazer hoje (2017) um movimento e caracterizá-lo como movimento de negros é maior que na época de atividade do José Correia Leite na imprensa negra? E por que seria?
Cuti: Não. Hoje contamos com um debate maduro sobre o racismo. Até brancos reacionários reconhecem a existência dessa doença social, embora não se reconheçam como doentes. Está cada vez mais difícil para os negros domesticados pela ilusão da democracia racial ficarem se escondendo em seus sorrisos e trejeitos para obter aceitação do branco. Por outro lado, todo o movimento Hip Hop trouxe consigo uma consciência racial que atinge e mobiliza a juventude. Ainda que as pessoas morem longe umas das outras, elas estão mais interessadas em se juntar quando possível. A presença da militância feminina conta hoje com a empatia de pessoas que têm visibilidade na mídia, ainda que não sejam militantes de entidades. Por outro lado, as redes sociais, mesmo com a manipulação do algoritmo, possibilitam um estreitamento entre pessoas com anseio, senso crítico e desejos semelhantes. Também, as formas de organização mais eficientes estão sendo aprendidas. Há uma conscientização, inclusive entre jovens, a respeito da necessidade de maior disciplina e da crítica a respeito de hábitos que destroem as pessoas, em especial nós negros, tais como as drogas. O passo seguinte será a disseminação maior da necessidade de se pensar economicamente as entidades negras, bem como a vida pessoal.

R7: Diante e tudo que você passou na vida, qual o futuro que você vê em termos da questão racial no Brasil?
Cuti: Teremos uma presidenta ou um presidente negro. Quando? É preciso lembrar que a história não desliza sempre do mesmo jeito. Ela dá saltos, tem avanços e recuos. E o movimento negro vem produzindo um conhecimento importantíssimo para se vislumbrar um país muito melhor do que o conhecimento produzido pelos brancos. A história da escravidão, do ponto de vista do escravizado, não é aproveitada pelo branco para gestar ideologia. Mesmo os de esquerda. Afinal, o branco do passado e o de hoje se identifica com o dono da casa grande. Acaba tendo um olhar limitado para o futuro. Nós negros estamos ainda vendo o conhecimento que produzimos ser vítima do epistemicídio, mas essa situação não durará para sempre. Muitos professores e comunicadores têm aproveitado essa produção de ideias disponibilizando-a para um número maior de pessoas de todos os segmentos étnicos. Nesse sentido, o 20 de Novembro enquanto data comemorativa da militância quilombola do passado engendra e reforça a militância de hoje e do futuro. Evidentemente que em termos de luta pelo poder não há milagres. Além do que, os negros anti-negros aí estão para fazer o servicinho sujo da classe dominante. Mas, felizmente, a maioria deles é burra e iletrada. Falam besteira e não tem fundamentos sólidos em seus argumentos. É preciso salientar também a contradição maior do sistema capitalista: o racismo dá prejuízo para as empresas. A inclusão é mais lucrativa. Falta essa constatação ser ampliada nas corporações e assumida em termos de política de estado. O Brasil perde muito com o racismo, pois uma gama imensa de pessoas com grande potencial não encontra espaço para exercer os seus talentos.

R7: Para você, Cuti, ainda existe um entendimento geral do racismo invisível. Da determinação em se dizer que não é racismo, mas apenas brincadeiras e mal-entendidos?
Cuti: Não há mais lugar para tal compreensão dos fatos. Só os completamente imbecis acreditam nisso. O que é preciso é ver o racismo onde a mídia tenta esconder. Por exemplo: quatro jovens negros são assassinados por policiais com mais de 100 tiros. A mídia exclui a expressão “negros”. Assim, toda injustiça contra a população negra cai na generalidade. Esse é o jogo da informação racista para não reconhecer a prática do racismo.

R7: Na sua obra de teatro, você se preocupa em abordar as questões pessoais e íntimas sobre o racismo?
Cuti: No meu trabalho literário como um todo o que me preocupa é buscar a humanidade do ser negro que os brancos tentam negar e também desvendar o universo preconceituoso do branco, por onde ele se dá e se desenvolve. A anterioridade africana enquanto princípio do que é humano e o recente surgimento, em termos antropológicos, dos brancos não são questões simples. Há um desenvolvimento humano por detrás de toda essa concepção vigente do mundo. Esse desenvolvimento precisa ser pensado também em termos de literatura. E é na vida individual e dos grupos que vou buscar as contradições e questionar os princípios que fizeram das relações humanas uma senda para o elogio da crueldade, o que, em outros termos significa um enorme medo de amar. O racismo aí se enquadra. Alé, lógico, de permanecer como ideologia de dominação e exploração.

R7: Quais os caminhos para o empoderamento e a retomada do orgulho negro? Como se dá a construção de uma imagem autoafirmativa e positiva?
Cuti: É preciso não confundir empoderamento com “empobreramento”. Muitas pessoas ao vestirem uma roupa africana, deixarem o cabelo crespo crescer e adentrarem as entidades negras tornam-se extremamente exclusivistas e acabam por desenvolver uma concepção muito empobrecida da sua herança histórica e cultural. Enquanto negros precisamos pensar o Brasil e o mundo.
A maior fortuna que temos enquanto herança cultural desenvolvida por nossos ancestrais no solo brasileiro é a generosidade e a capacidade de resistir e persistir. Empoderar-se é assumir isso e visar o horizonte próximo e o distante. A ideia de poder em nossas reflexões necessita considerar que o que está posto não serve, está podre, só pode levar o ser humano à sua própria autodestruição. O egoísmo que embasa a acumulação de capital foi gerado em diversos contextos, mas com uma base comum: uma mísera ideia da evolução humana e uma paupérrima noção do universo. A todo momento uma enxurrada disso é despejada nos meios de comunicação para manter as pessoas distraídas. Não pensar o racismo – uma das modalidades da crueldade institucionalizada – é uma das formas de manter o mundo com a premissa de fuga e pavor do nosso entorno cósmico e de nós mesmos.
Acumular e ser egoísta são coisas diferentes. Por exemplo, não se deve acreditar que negro não deva pensar em propriedade. Sim, deve, pois sem ela ficamos à mercê dos outros segmentos, inclusive no que é básico: o abrigo. Contudo, funcionalidade é o sentido que nos deve ligar à nossa experiência histórica e cultural. Não podemos nos esquecer que tudo passa pela linguagem, por seu conhecimento e por sua transformação. Nela estão as ideias e as concepções de mundo.
Autoarfirmar e positivar a nossa imagem coletiva e individual exige profunda alteração da linguagem do dia a dia e também dos mais variados discursos que permeiam nossa vida. E a linguagem que aqui estou usando não deixa de ter a sua falha, principalmente pela desconsideração didática de toda a variedade de coloração epidérmica e psicológica que há na sociedade brasileira. Há infinitas nuanças que não devemos desconsiderar. Elas acabam redundando em identidades complexas e muitas vezes confusas.
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Que sobrevivem em meio a zorras e covardias
O Geledés Instituto da Mulher Negra luta há 29 anos contra o racismo no Brasil

Criado em abril de 1988, o Geledés Instituto da Mulher Negra se firmou como uma das mais importantes entidades de confronto direto contra o racismo no Brasil. Por mês, o portal do Instituto da Mulher Negra Geledés na internet recebe 1,7 milhão de visitantes, em média. O Geledés é um dos fóruns mais importantes na luta contra o racismo no Brasil e no mundo. A advogada Maria Sylvia de Oliveira, presidente do instituto conta como é embate contra a discriminação, as bandeiras e reivindicações do negro brasileiro. “A violência racial mata”, diz Maria Sylvia.

R7: Como surgiu o Instituto da Mulher Negra Geledés, em 1988?
Maria Sylvia: O Geledes-Instituto da Mulher Negra foi fundado em 30 de abril de 1988, por um grupo de mulheres negras dentre elas Sueli Carneiro e a Dra. Sonia Maria Nascimento, que atuando no movimento negro e no movimento feminista não encontravam respostas para as questões específicas da existência e experiência de mulheres negras. Somos uma organização da sociedade civil criada e dirigida por mulheres negras e que se posiciona em defesa de negras e negros em razão das desvantagens e discriminações no acesso às oportunidades sociais em função do racismo e do sexismo vigentes na sociedade brasileira.
O Geledés nasceu estruturado em três eixos de atuação: Direitos Humanos, saúde e comunicação. E de forma pioneira em 1992/1993 o Geledés criou seu departamento jurídico, o SOS Racismo - Assessoria Jurídica em Casos de Discriminação Racial, que originou-se como a Seção Brasileira do SOS Racisme da França.
Em quase 30 anos de existência o Geledés vem consolidando as discussões sobre a problemática da mulher negra na sociedade brasileira mas, também, impulsionando o debate sobre a necessidade de adoção de políticas públicas inclusivas, como a que hoje estamos presenciando aqui, para a realização do princípio da igualdade de oportunidades para todos.

R7: Quais eram as bandeiras e principais reivindicações do movimento negro naquela época?
Maria Sylvia: Uma das bandeiras do movimento negro era desmistificar essa história de democracia racial, que mantinha uma cortina de fumaça sobre os graves problemas sociais enfrentados pela população negra, como o assassinato de homens e jovens negros. Veja o MNU surge oficialmente em 1978, numa manifestação em frente ao Teatro Municipal denunciando o assassinato de homens negros em delegacias; a péssima qualidade da educação pública, que ainda é uma questão; os temas de saúde da população negra; a baixíssima inserção de negros e negras no mercado de trabalho. As mulheres negras são as mais afetadas por essas questões, porque sofrem com o racismo e o sexismo que afetam nossa sociedade.

R7: No ano que vem, o instituto completará 30 anos. Qual a avaliação que você faz dessas três décadas de luta contra o racismo?
Maria Sylvia: Não podemos negar que avançamos, hoje temos negros e negras nas universidades, o PROUNI foi uma política pública importante para esse avanço. Uma conquista muito importante foi o histórico julgamento da ADPF – 186 pelo STF que decidiu pela constitucionalidade do sistema de cotas, para negros nas universidades federais. A votação se deu por 10 votos a 0, ou seja, por unanimidade e resultou na Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012 que dispõe sobre o sistema de cotas para o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio. No entanto ainda temos muito que alcançar, o racismo é um mal que tem que ser extirpado da sociedade.
A violência racial mata. Só para trazer alguns dados que fundamentam essa afirmação: “de cada 100 pessoas que sofrem homicídio no Brasil, 71 são negras. Jovens e negros do sexo masculino continuam sendo assassinados todos os anos como se vivessem em situação de guerra; 65,3% das mulheres assassinadas no Brasil no último ano (2016) eram negras, na evidência de que a combinação entre desigualdade de gênero e racismo é extremamente perversa e configura variável fundamental para compreendermos a violência letal contra a mulher no país”. (Dados do Atlas da Violência 2017 – IPEA). Portanto, apesar dos avanços, ainda não temos muito a comemorar.

R7: O Instituto Geledés é uma referência para repercussão, divulgação, denúncia e cobrança de punição contra o racismo. De que modo a internet ajuda nessa luta?
Maria Sylvia: Há algum tempo eu li um artigo que dizia que a internet revolucionou os meios de comunicação porque conjuga interatividade com a massividade. O Geledés é a primeira organização do movimento negro a colocar uma página na internet, em 30 de abril de 1993, que acabou por se transformar no Portal Geledés, a configuração que conhecemos hoje foi ao ar em 20 de novembro de 2009. Esse Portal é espaço de expressão pública das ações realizadas pela organização no passado e no presente, e de seus compromissos políticos com a defesa intransigente da cidadania e dos direitos humanos, a denúncia, permanente dos entraves que persistem para a concretização da justiça social, a igualdade de direitos e oportunidades para a população negra. Atualmente o Portal Geledés tem a média de 1.700.000 (um milhão e setecentos mil) acessos por mês. É essa a ajuda que a internet pode dar na luta contra o racismo, possibilitar o debate sobre a questão racial de forma massiva e interativa.

R7: A militância negra no Brasil passou por um movimento de renovação, mais jovens, e sobretudo mulheres, estão se engajando na resistência. Qual o perfil deles e que tipo de contribuição eles podem dar à luta que a geração anterior iniciou?
Maria Sylvia: Sim , é certo que o movimento passa por um momento que considero importante de renovação e não surpreende que esses jovens sejam em sua maioria mulheres. As mulheres sempre estiveram na vanguarda da luta dos movimentos sociais mas, também, sempre estiveram invisibilizadas. O perfil é o mais diverso. São jovens negras, muitas que saíram das academias e colocaram o conhecimento que adquiriram a serviço da causa anti-racista. Trabalham com a música, o teatro. O grupo Balé das Yabás, no Rio de Janeiro e Levante Mulher em São Paulo fazem um trabalho fantástico com música, dança, teatro. Elas estão em todas as áreas de atuação: filósofas, cineastas, jornalistas, sociólogas, psicólogas, pedagogas, médicas, para citar as que conheço mais de perto. E, mais uma vez, voltando à revolução na comunicação pela internet , as novas mídias sociais (Youtube, facebook, etc ) são os grandes instrumentos de visibilidade dessas novas vozes da militância negra. A contribuição que essas multiplas vozes podem dar para a luta anti-racista é o que elas estão fazendo com maestria: dizer para a sociedade que temos que trabalhar para a construção de um novo pacto civilizatório, para uma sociedade onde todas e todos possam viver plenamente a igualdade de direitos e oportunidades.
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Pesadelo é um elogio
Uma conversa sobre racismo estrutural com Alexandra Loras

Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

A escritora, jornalista e ex-consulesa da França (casada com o ex-cônsul Damien Loras) Alexandra Loras fala sobre a situação da população negra no Brasil. Ela se tornou grande referência ao falar sobre empoderamento em entrevistas e palestras e recentemente lançou o livro Gênios da Humanidade ao lado do professor mestre Carlos Eduardo Dias Machado. A publicação ganhou destaque por trazer contribuições dos negros no desenvolvimento social, filosófico e tecnológico da humidade. Confira abaixo a entrevista completa com a ex-consulesa.

R7: Qual é a principal diferença do racismo no Brasil para o racismo em outras partes do mundo?
Alexandra Loras: Eu acho que o problema do racismo é um problema global, mundial, com um planejamento muito bem feito de inferiorizar tudo o que não é eurocêntrico. Hoje, estamos chegando em uma época que não dá mais, através do digital, de continuar a estigmatizar povos que têm tanto para agregar ao mundo. Se olhamos o racismo nos Estados Unidos, onde eu morei em Washington D.C., Texas e Los Angeles, não sofri racismo como passo aqui no Brasil. Por que? Lá me vi representada em um monte de coisas. Tem oito canais de televisão para negros, com programas, produção de novelas, desenhos animados com negros.
Lá nos Estados Unidos tem 13% de negros, comparado com o Brasil, que tem 54%. Olhamos sempre os Estados Unidos como um país muito racista, claro que ainda sobrevive racismo, mas eu acho que os Estados Unidos, que parece muito mais racista que os outros, está olhando o seu próprio racismo no espelho. Através das cotas, os negros conseguiram ascender em todos os espectros da sociedade. Eles hoje têm poder econômico e poder na mídia, que faz com que, quando um policial mata um negro, a repercussão é mundial. Se fala disso no mundo inteiro. e eles têm coragem de sair na rua para lutar contra esse racismo. Só que no Brasil temos tanto medo da polícia, que é morto um negro a cada sete minutos no Brasil, e a verdade é que não acontece nada. Não se fala muito na mídia e a maioria das pessoas pensa que, se for um negro, deve ter sido um traficante. Então, já tem uma culpabilidade por meio do estereótipo e das formas estigmatizantes que as novelas e a mídia relatam o negro no Brasil. Como é o lugar desse bandido, ele nem tem a possibilidade de se defender. É de fato, culpado.
E se olharmos a construção da polícia do Brasil, ela era no início para ir atrás dos escravos que fugiam. Não mudou muito hoje. 56 mil pessoas que são mortas a cada ano, tem mesmo um genocídio acontecendo. Só que o marketing brasileiro é de falar só de carnaval, de samba, de alegria, de praias... quando, na verdade, tem uma guerra silenciosa acontecendo, um embranquecimento planejado.
O que acontece na Europa é continuar a teoria da eugenia. Essa teoria científica falsa, que foi usada pelos nazistas, mas que até 1945, era uma ciência exata, de uma superioridade do ariano, do branco, loiro, de olhos claros. Essa manipulação de nomenclatura das raças sobrevive mesmo sendo uma bobagem comprovada cientificamente. Porque era em uma época que houve uma produção imensa de conteúdo que acreditava nisso e a repercussão era mundial.
Ainda estamos nessa dinâmica e podemos também não enxergar que demora para uma sociedade se reinventar, demora para uma sociedade enxergar seu erro. Hoje, a Europa não consegue enxergar o erro que fez com os judeus e que ela através do racismo está reproduzindo esse racismo agora com os muçulmanos e colocando todos os maus em cima da comunidade muçulmana. O racismo gera terrorismo. Mas até onde os europeus não são os próprios terroristas? Que invadiram terras que não eram deles, criaram genocídios de população indígena, apagaram civilizações, culturas, e hoje estamos pagando uma consequência de episódios que temos colocados no passado e agora queremos a paz quando estamos deixando o resto do mundo sofrer por nossas regras impostas. Precisamos redefinir os valores das nossas civilizações.

R7: Quais fatos incontestáveis você observa no Brasil para chegarmos à conclusão do genocídio?
Alexandra Loras: Essa inferiorização é tão violenta que ela traz transtornos psicológicos, mentais e físicos. Como a anorexia. Ninguém fala das meninas se tornarem anoréxicas, só que a linguagem subliminar dessas imagens através da mídia, traz uma consequência nessas meninas. Quer dizer que a nossa mídia é capaz de gerar transtornos. É igual com o povo negro. As consequências dessa violência são, justamente, inferiorização e “macaquização”. O problema é essa inferiorização planejada.
O racismo está presente em cada esquina. Não é velado de jeito nenhum. Entrar em uma loja de brinquedos, em qualquer lugar do Brasil, e ver só duas bonecas negras no meio de milhares de brinquedos eurocêntricos, isso é um racismo violento. Tem muitas mentiras na construção brasileira, muitas crenças limitantes que não deixa as pessoas enxergarem que o Brasil foi construído por negros. Só que a narrativa do negro sempre no esporte, na dança, na sexualidade, isso traz uma violência de não pertencer. Se perde muito potencial do povo negro brasileiro que tem tanto para agregar. Porque nunca vemos uma família negra feliz promovendo margarina? Ou pasta de dente, ou absorvente? Não menstruamos? Não escovamos o dente? Não consumimos margarina? E é isso o problema do Brasil: é não enxergar o monstro no espelho. De ter totalmente colocado uma dinâmica de vitimização, apagando também o espaço de fala do negro no congresso, no senado, na política, falando que estamos de mimimi, de vitimização. E invalidando nosso discurso, quando, na verdade, os privilegiados têm privilégios por uma errância suja de colonização e escravidão. Achando que ia resolver tudo só com uma lei áurea.
Precisamos reparar o povo negro. Precisamos reparar através de resgatar a autoestima do negro e o meu trabalho é esse. Eu vou dedicar a minha vida a resgatar a autoestima do negro. Fazer de minha energia, de meu tempo, e de minha delegacia, tentar criar passarelas. Eu sei bem que o branco de hoje, não é responsável pela escravidão de ontem. Como o alemão da minha geração, não é responsável pelo o que aconteceu ontem com Hitler. Só que somos todos responsáveis por reequilibrar. Eu quero poder conscientizar a consciência humana branca e negra o quanto somos irmãos, o quanto somos parecidos...

R7: Você poderia comentar sobre a ideia de democracia racial. O que você pensa disso?
Alexandra Loras: A democracia racial brasileira é uma farsa. Mas como as farsas de muitos países. Como a França, que promove a liberdade de expressão, quando também uma farsa. O Charlie Hebdo pode dar sua opinião, mas os muçulmanos não. Eles podem ser humilhados, mas eles não podem responder. É igual. Esse lema de liberdade, igualdade e fraternidade também é uma farsa. A revolução francesa não aconteceu como povo. Aconteceu como burguesia. Então, é igual.
Quando eu cheguei no Brasil, eu esperava ver 54% de negros em tudo, até por mesmo escutar sobre essa democracia racial. E a verdade é que liguei a televisão e não vi 54% de negros em cargos de liderança, que seja na narrativa da novela, mas tampouco na narrativa da sociedade. Nunca vi um protagonista negro nos desenhos animados. Essa democracia racial é uma farsa muito bem planejada, contada por um intelectual da elite brasileira. É muito gostoso poder falar sobre isso quando você não experimenta a inferiorização. Eu vejo isso como experiência antropológica.
Eu dei luz a um menino que é branco e loiro, de olhos claros e na elite. Aos quatro anos e meio, ele já tem uma atitude de pertencimento, ele se vê representado em tudo, ele se sente forte, ele se sente super-herói da vida dele. Ele abre um livro e ele está lá, entra em uma loja e está lá, ele se vê em desenhos animados, ele se vê em todos os espaços. E as pessoas incentivam, de maneira muito real, o dia todo, “ai, anjinho”, “ai, lindinho”, “ai, pequeno príncipe”.
A narrativa que meu filho recebe todos os dias, é muito diferente daquela que eu recebi e que recebo como negra no Brasil. É bem interessante de eu passar por isso. Quando entro em uma fila de aeroporto em prioridade, porque tenho passaporte diplomático, a pessoa que vai me atender, questiona sempre. Quando chego em Guarulhos, vou ter sempre minha mala revisada. Por ser negra. Não importa se tenho passaporte diplomático. Não tenho nada para esconder, mas não deveria ter que abrir minha mala. O branco não passa por essas humilhações cotidianas.

O R7 também conversou com o professor Carlos Eduardo, que fez parte da produção do livro ao lado da ex-consulesa, para falar sobre a situação do povo negro no Brasil. Veja a seguir.

R7: Por que a criação intelectual e filosófica dos negros foi diminuída ao longo do tempo? Quais os impactos dessa “revelação” que o livro traz na autoestima dos afrodescendentes?
Alexandra Loras: Os brancos quando chegaram na África viram um continente com reinos, impérios, cidades-Estados autossuficientes. Para se criar a escravidão e uma Nova Ordem Mundial, os brancos europeus criaram um sistema de repressão cultural onde os povos negros deveriam ser inferiorizados, tratados como mercadoria, se sentindo menores e desvalorizados. Como dizia o ministro da informação nazista Goebbels “uma mentira dita mil vezes se torna verdade”. A autoestima do branco neste sistema resulta na inferiorização do negro.
O impacto deste livro é que a mentira e a ocultação abre espaço para a revelação de uma história que nos enche de orgulho. Fomos ensinados que colaboramos para o entretenimento como música e esporte, não há porque desmerecer essas áreas, mas foi negado o conhecimento do legado científico e tecnológico, que é coisa nossa e é milenar. Geralmente se pensa que o amarelo (japonês, coreano e chinês) são naturalmente inteligentes, assim como os brancos, mas negros e indígenas não são vistos assim. Só que esse desconhecimento tem motivações ideológicas de manutenção do negro e o indígena no mesmo lugar. Ao saber dessas informações sentimos que podemos ser o que quisermos ser.
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Não foi sempre dito que preto não tem vez?
O começo, ainda muito embrionário, de uma representatividade negra

Atualmente artistas negros estão se posicionando contra o racismo e ecoando a voz de muitos outros. Em fevereiro do ano passado, a cantora Beyoncé fez uma apresentação histórica no Super Bowl. A diva pop levou um verdadeiro esquadrão de dançarinas negras vestidas como representantes do partido Panteras Negras.

Ainda em 2016, Beyoncé também lançou a canção Formation, que foi considerada um grande hino de exaltação, empoderamento e encorajamento negro. Em um dos trechos, a cantora diz: “Eu gosto do meu nariz negro com narinas Jackson Five.”

No mundo do cinema, a atriz Viola Davis foi a primeira mulher negra a ganhar Oscar, Emmy e Tony de atuação. Em seu discurso quando ganhou o Oscar, a artista disse: “Existe um lugar em que se reúnem todas as pessoas que tem grande talento. E é no túmulo. As pessoas me perguntam o tempo todo: ‘Que tipo de histórias você quer contar Viola?’. E eu respondo: ‘Vocês têm que exumar esses corpos, essas histórias, as pessoas que quiseram e nunca conseguiram conquistar seus sonhos’. Eu consegui. Eu me tornei uma artista. E esta é a única profissão que celebra o que significa viver uma vida.”

No Brasil, a cantora Karol Conka estourou nas paradas de sucesso exaltando mulheres negras. Hoje, ela tem, além de uma agenda cheia de shows, um programa de beleza na TV por assinatura. A entrada da artista para o programa revolucionou ao tratar de empoderamento negro com pautas e convidados nunca antes levados para programas de beleza.

Sente o negro drama
O R7 sugere 10 discos nacionais, 10 filmes e séries e 10 livros para o internauta que quiser se aprofundar no assunto:

Discos
Aláfia - Corpura
Elza Soares - Mulher do Fim do Mundo
Emicida - Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa
Gerônimo - Eu Sou Negão
Gilberto Gil - Refavela
Lazzo - Atrás do Pôr do Sol
Leci Brandão - Canções Afirmativas
Racionais MC’s - Cores e Valores
Rico Dalasam - Orgunga
Rincon Sapiência - Galanga Livre

Filmes e séries
12 anos de escravidão (12 Years a Slave)
Adivinha Quem Vem Para Jantar? (Guess Who's Coming to Dinner)
Cara Gente Branca (Dear White People)
Décima Terceira Emenda (The Thirteenth Amendment to the United States Constitution)
Eu não sou seu negro (I Am Not Your Negro)
Faça a coisa certa (Do the Right Thing)
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Os Donos da rua (Boyz n The Hood)
Quilombo (Cacá Diegues)
The Get Down

Livros
A Cor Púrpura - Alice Walker
A Vida Secreta das Abelhas - Sue Monk Kidd
As Lendas de Dandara – Jarid Arraes
Gênios da Humanidade: Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente - Carlos Machado e Alexandra Loras
Jazz - Toni Morrison
Muzimba - Na Humildade Sem Maldade - Akins Kintê
O Genocídio do Negro Brasileiro - Abdias Nascimento
Ponciá Vicêncio - Conceição Evaristo
Quarto de despejo – Carolina de Jesus
Só as mulheres sangram - Lia Vieira
Mulheres, raça e classe — Angela Davis
O Sol é Para Todos - Harper Lee

Guerreiro, poeta, entre o tempo e a memória
A sensibilidade do escritor Sérgio Vaz ao retratar o extermínio do povo negro

“O sangue que escorre diante do genocídio da população negra é o mesmo que afoga a ordem e o progresso na bandeira do País. O racismo no Brasil impede que a gente tenha sonhos de pátria. Silenciar é a mesma coisa que apertar o gatilho”.