CAPÍTULO III
NEGRO DRAMA
Um panorama do racismo no Brasil
O R7 entrevistou 28 pessoas, entre personalidades e especialistas, e se debruçou em 22 fontes de pesquisa para discutir a situação da população negra no País.
Foto: Juca Guimarães
26/07/2017
São Paulo - Brasil
REPORTAGEM
Giorgia Cavicchioli, Juca Guimarães
e Peu Araújo
ARTE
Danilo Lataro

Com base na Convenção para a prevenção e repressão do crime de genocídio, adotada pelas Organizações das Nações Unidas em Assembleia Geral em 1948, o R7 reconheceu situações críticas em relação à população negra no Brasil em nove diferentes cenários: número de mortes, violência, educação, mercado de trabalho, saúde, habitação, família, violência contra a mulher e falta de representatividade.

O capítulo número três — serão cinco no total — apresenta números e opiniões sobre saúde e habitação para os negros no Brasil.

A pedido do R7, o Instituto Paraná Pesquisas realizou um levantamento exclusivo sobre racismo no Brasil. O relatório, realizado no final do mês de maio de 2017, fez duas perguntas para a população. Uma delas era se algum dia aquela pessoa foi racista. 93,7% afirmou que não, 5,9% disse que sim e 0,5% não respondeu.

A segunda pergunta feita foi se a pessoa tinha presenciado algum ato ou cena racista. Para essa questão, 50,3% afirmou que sim. 49,2% dos entrevistados disse que não e 0,5% não respondeu. A pesquisa ouviu 2.022 eleitores com 16 anos ou mais. O levantamento foi feito em todo o Brasil e tem 95% de confiança. A margem de erro estimada é de 2%.

O R7 recorreu ao título da música do Racionais MC’s para dar nome a essa reportagem especial. Assista a uma interpretação exclusiva de Tawane Theodoro, poeta e uma das participantes de poetry slam’s (campeonato de poesia).

A ferida, a chaga à procura da cura
A saúde da população negra no Brasil

O Brasil registrou 38.256 mortes de negros em decorrência de agressão em 2012. O número de brancos que faleceram sob as mesmas circunstâncias é de 14.350. A taxa de mortalidade geral por mil habitantes também é maior entre os negros: de 5,9 de pretos e 5,7 na pardos. A de brancos, no entanto é de 5,1. Em abril de 2016 o SUS (Sistema Único de Saúde) publicou esses e outros dados em seu décimo painel de indicadores, dedicado exclusivamente a apresentar e pontuar problemas da saúde da população negra no Brasil.

O dado, assinado pela CGIAE (Coordenação Geral de Informações e Análises Epidemiológicas), pela SVS (Secretaria de Vigilância em Saúde) e pelo Ministério da Saúde, apresenta a mortalidade geral da população brasileira e apresenta três bases de dados: 2002, 2005 e 2012. A população negra corresponde a 66,8%, 59,9% e 55% respectivamente. O número de óbitos por agressão em 2002 foi de 56,9%, em 2005 de 64,4% e em 2012 foi de 72,7%. Ou seja, enquanto a taxa de mortalidade caiu quase 12 pontos percentuais, os óbitos em decorrência de agressões cresceu mais de 15 pontos percentuais.

Já na primeira frase, o documento dá o tom da abordagem. “O Ministério da Saúde adverte: o racismo faz mal à saúde!”

O painel tem a seguinte marca: ‘reconhecimento do racismo, das desigualdades étnico-raciais e do racismo institucional como determinantes sociais e condições de saúde, com vistas à promoção da equidade em saúde’.”

Para a coordenadora adjunta do Grupo de Estudos de Direitos Humanos e Ciências Criminais do Ibccrim (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais) e cofundadora do projeto Preta e Acadêmica Amarilis Costa, “existe uma campanha no próprio governo federal contra o racismo no SUS. Ela foi lançada pelo próprio Ministério da Saúde. Se trata de um canal de denúncia para que as pessoas falassem dessas violações. Isso já denota a existência, mas também a preocupação do Estado, de minorar essas práticas”, diz.

Amarilis fez um estudo sobre o racismo no Sistema Único de Saúde e analisou as políticas públicas neste setor. Assim como o 10º painel do órgão, a professora chegou ao mesmo resultado: “há racismo no SUS.”

A acadêmica diz que a prática do racismo pelas instituições permite o racismo estrutural e institucional. Amarilis afirma que a população negra tende a residir em locais periféricos e a ter menos acesso a políticas de saneamento básico, por exemplo. Tudo isso, segundo ela, prejudica a saúde e o bem estar dos negros. “As estruturas para essa população são mais precárias. O racismo estrutural é isso. Para que a pessoa negra faça um exame, ela não tem refeição, por exemplo. Isso é consequência de uma série de fatores históricos. O acesso às instituições se dá para um determinado seguimento da sociedade. Assim, se pode pensar também na objetificação do negro. Quando o negro é visto como coisa, o tratamento é cheio de obstruções.”

A advogada ainda lembra que, no caso de o paciente ser uma mulher, o tratamento é ainda pior. Ela conta que “mulheres negras são menos examinadas e tocadas que mulheres brancas”. Isso acontece “justamente porque o corpo delas foi objetificado.”

“Existe a falácia de que as mulheres negras não sentem dor, por isso são dadas doses menores de medicamentos, a mulher negra espera mais. As pessoas que são racistas, não se afastam disso nas suas profissões. Em outra ponta, existe o senso comum. Essas questões influenciam muito. Muitas vezes, as práticas racistas não são codificadas pelo cérebro. A construção da imagem do negro foi feita de forma que as pessoas passam a replicar o racismo como um comportamento aceitável.

O estudo apresenta ainda doenças que afetam majoritariamente a população negra. Segundo o estudo, isso acontece “em virtude do condicionamento de fatores genéticos que atuariam conjuntamente com fatores ambientais e que teriam efeito direto ou indireto na mortalidade: anemia falciforme; doença hipertensiva específica da gravidez; hipertensão arterial; diabetes mellitus.”

O índice de hipertensão arterial da população branca é de 22,1%, somando pretos e pardos este número chega a exatamente o dobro: 44,2%. Em 2013, 6,2% dos casos de diabetes mellitus ocorreu em pessoas brancas. Em pessoas negras este número foi de 12,7%.

Quando se fala da saúde mental, o estudo revela que “quem sofre diretamente com o racismo tem de lidar com ameaças à autoestima, desigualdades de oportunidades e, com frequência, com a violência que atinge principalmente a juventude negra no Brasil. Todos esses são fatores que podem levar a população negra ao sofrimento psíquico, em formas e intensidades diversas.”

Para acessar o painel clique aqui:

Óbitos infantis notificados em 2012

Negros 45%

Brancos 41%

Fonte: Painel do SUS

Óbitos infantis na primeira semana de vida em 2012

Negros 47%

Brancos 38%

Fonte: Painel do SUS

Kit de esgoto a céu aberto e parede madeirite
A situação de moradia da população negra no País

Dois em cada cinco negros vivem em moradias inadequadas no Brasil. O estudo divulgado pela extinta Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), publicado em 2014, traz um levantamento com base em dados compilados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

De acordo com o estudo, com abrangência nacional, entre os moradores das áreas urbanas das regiões metropolitanas, onde se concentra a maioria da população brasileira, de cada dez famílias chefiadas por um branco, oito (77,85) viviam em moradias classificadas como adequadas. Enquanto, nas famílias cujo chefe da casa era negro, de cada dez famílias, seis (60,9%) viviam em moradias adequadas.

O critério para considerar que a moradia é adequada ou não leva em conta o seguinte conjunto de fatores: construção de alvenaria ou madeira tratada, com telhas ou lajes; acesso a água potável com canalização, coleta de esgoto e lixo; máximo de duas pessoas por dormitório com banheiro no domicílio; e acesso à telefonia e eletricidade.

O estudo da Seppir aponta, então, que de 20% das famílias chefiadas por brancos vivem em condições inadequadas no quesito moradia. Por sua vez, entre a população negra, o índice dobra. São 40% das famílias chefiadas por negros que moram em condições inadequadas (favelas, cortiços, ocupações e similares), nas regiões metropolitanas do País.

"As diferenças persistem, evidenciando que os esforços de universalização das políticas públicas não se mostram suficientes quando se trata de combate às desigualdades raciais", diz um trecho do estudo em relação à moradia.

Segundo os dados do Censo do IBGE, de 2010, cerca de 11,4 milhões de pessoas, sem recorte por cor ou etnia, vivem em favelas. O levantamento apontou que, na época, existiam 6.329 favelas em todo País.

Eu vim da selva, sou leão, sou demais pro seu quintal
Entrevista com o Akins Kintê: poeta, documentarista, compositor e criador do Sarau do Kintal

O trabalho do artista acontece na zona norte de São Paulo. Lá ele abre o quintal da casa da sua família para receber os participantes do sarau uma vez por mês. No ano passado, ele lançou o livro-CD Muzimba, de forma independente. Leia a entrevista completa:

R7: Como é acesso dos jovens negros da periferia aos equipamentos públicos e privados de cultura?
Akins Kintê: Sou um morador da zona norte e conheço bem a região. Quando comecei a me interessar por esse lance de cultura, há uns 15 anos, eu tinha que andar mais de 40 minutos para chegar lá. Eu morava perto da Divinéia, perto de Itaberaba, por ali, e a biblioteca mais próxima fica na Cruz das Almas. Atualmente tem o CCJ (Centro Cultural da Juventude), mas naquela época não tinha nada. Sempre foi muito difícil ter acesso à cultura e à produção cultural nas periferias. O que sempre fortaleceu o acesso à cultura, na real, foi o futebol de várzea, os sambas de roda improvisado dos grupos da zona Norte, alguns bailes black e os próprios jovens. Eu e uns amigos negros fundamos uma posse [coletivo de jovens envolvidos com projetos culturais] o Hatine (Homens de Atitude Negra). O nosso grande objetivo era fazer uma casa aberta de cultura na casa de um parceiro nosso. Mesmo hoje com o CCJ, os jovens que moram lá em cima na Itaberaba ainda levam uma meia hora pra chegar no único local de acesso à cultura para toda aquela região.

R7: A poesia é uma resistência da narrativa negra na cultura popular?
Akins Kintê: Eu acredito muito no poder da palavra. Se não fosse a poesia, incluindo aí a poesia do samba, a poesia dos filmes que eu gosto muito, eu não sei o que seria de mim. Foram vários “terremotos” dentro do barraco nessa vida de ser jovem negro; que é como ser um alvo constante. O ambiente é perigoso. Cercado de pobreza, de bebida alcoólica e violência. Nesse cenário, até muito caótico, a poesia me salvou. Um pouco depois eu conheci a literatura negra e me encontrei. Achei o meu mundo com os Cadernos Negros, com a arte do Cuti; ele é o cara que eu mais admiro e gosto muito da arte dele. Isso deu um outro norte para a minha vida. Foi um lance de identificação muito forte. Eu queria ser como aqueles escritores que saiam nos Cadernos Negros, como a Conceição Evaristo, a Miriam Alves, a Lia Vieira e com o próprio Cuti. É o lance da resistência e da existência.

R7: Existe um isolamento do jovem negro nas periferias quando o assunto é cultura?
Akins Kintê: Sim, tem muita opressão. O controle é a opressão. Quem dá as cartas da cultura é o playboy. A cultura da periferia é oprimida. Se tá cantando funk não serve, mas se o funk tá no comercial ajudando a vender os carros dos caras [playboys], aí serve. Começa a passar na novela e aí serve.
O jovem negro da periferia sempre foi muito criativo. Lançou tendências. Tem muita coisa que foi feito na periferia, mas que o capitalismo foi lá e tomou conta. Quando começam a surgir novas formas de culturas a prefeitura, o poder público não tá lá para apoiar. Só tem repressão e proibição. Foi assim com rap, com o funk e com o sarau também tá rolando isso. O pessoal tá brecando tudo o que é cultural e periférico. Tão acabando com tudo. Mas a luta é essa. É fazer a resistência.

R7: Como é a questão do esporte. O futebol de várzea é uma ferramenta de integração e elevação da autoestima do jovem negro?
Akins Kintê: O futebol de várzea é a autoestima do jovem negro, do jovem de periferia. É uma cultura muito forte na periferia. O futebol é muito importante. Dá uma identidade muito forte. Alí se diverte, se faz um samba. A partir dos times surgiram vários blocos carnavalescos. São ideia de progresso que vai trazendo uma identidade. É você representando a sua quebrada.

R7: A violência do Estado é tema frequente em saraus, slams e poesias periféricas. Você acha que isso pode ajudar na mobilização e engajamento da periferia como um todo?
Akins Kintê: A poesia engajada traz vários progressos. Já mobilizou várias frentes. Ajudou nos movimentos recentes de resistência política pela democracia. Lá no sarau do Binho, vários grupos de saraus se reuniram diversas vezes para falar de poesia e de política. Era verso e ideia. No sarau da Cooperifa também. No sarau da Brasa, por exemplo, já rolou de parar a parte da poesia para se começar um debate sobre questões raciais, de violência contra a mulher. Existe uma mobilização muito forte e uma rede para difundir ideia e enriquecer vários debates.

R7: A literatura negra sofre preconceito no mercado literário? Qual a alternativa para os autores e autoras negras?
Akins Kintê: A literatura é a menina dos olhos da sociedade. E quem domina não quer deixar mais ninguém chegar, principalmente se tiver que ceder espaço para os negros. Eu me lembro que quando saiu a aquela antologia com quatro livros do professor Carlos Eduardo chamada Literatura Afrodescendente no Brasil fui um evento pesado. Foi em 2011 ou 2012, no dia seguinte já tinha matéria na mídia detonando. O texto dizia: ‘Como assim uma literatura negra? Vocês negros já jogam futebol, já têm o carnaval, e ainda querem a literatura?” Era um texto extremamente racista que saiu num dos maiores jornais do país. A ideia daquele texto é que a literatura é um privilégio dos brancos. E é, né. O mercado literário é isso: Homem, branco e burguês. Então existe o lance do preconceito. Escritores como Cuti e a Conceição Evaristo, que só agora tem recebido uma atenção, deveriam ser bem mais divulgados e com mais espaço. É uma literatura que deveria ser distribuída nas escolas, mas não é.
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Ei, São Paulo, terra de arranha céu
Onde vive a população negra na maior cidade do Brasil

A população negra está concentrada nas periferias da cidade de São Paulo. O percentual de negros que moram no bairro de Parelheiros, na zona sul, é de 57,1%. Em Pinheiros, o percentual é de 7,3%. Os números são de um levantamento feito pela Secretaria Municipal de Promoção e Igualdade Racial em 2015.

O segundo bairro com maior concentração de negros é M’Boi Mirim, também na zona sul: 56% da população. Em terceiro lugar, aparecem Cidade Tiradentes (55,4%) e Guaianases (54,6%) na zona leste de São Paulo. Logo em seguida, estão Itaim Paulista e Cidade Ademar, com 54% e 52,1%, respectivamente.

A população em situação de rua, em sua maioria, é negra: 47,7% se considera pardo e 22% se auto declara preto. Brancos são 27%. Os dados são de pesquisa realizada pela Prefeitura de São Paulo em maio de 2015.

O relatório também faz um recorte de raça e gênero. Do total de mulheres que moram na rua e responderam à pesquisa, 46,3% se consideram pardas, quase 27%, brancas e 23,7% se disseram pretas. Entre os homens 48% se declararam pardos, 27%, de cor preta e 21,6% de cor branca.

A alma guarda o que a mente tenta esquecer
Uma entrevista sobre a peça que retrata memórias de homens negros da periferia brasileira

Foto: Marília Lino

A Companhia de Teatro Coletivo Negro foi fundada em 2008 e todos seus membros são negros que trazem vivências e experiências delas e de outras. Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens é o mais recente espetáculo do grupo e fala sobre a realidade de 12 homens negros da periferia e toda a apresentação tem como base sonora a obra do grupo Racionais MC’s. O R7 conversou com o ator Jé Oliveira sobre o assunto.

R7: Como surgiu o Coletivo Negro?
Jé de Oliveira: Na Escola Livre de Teatro de Santo André eu fazia um curso de Direção e, em determinado momento do curso, era preciso fazer um projeto de pesquisa. Eu decidi investigar invisibilidade social pelo ponto de vista do negro e trabalhar com artistas negros. Chamei o Jefferson Mathias e a Thais Dias, que eram da escola, ainda com aprendizes. Terminado o projeto, a gente quis continuar e chamamos outras pessoas, o Flávio Rodrigues, que chamou a Aisha e o Rafael Garcia, que é formado na Escola de Arte Dramática da USP. Com esse grupo formado começamos a pesquisar a questão racial no teatro.

R7: Qual foi a primeira montagem?
Jé de Oliveira: Se chama Movimento Número 1 — O silêncio de depois, trata-se se de uma desapropriação material e simbólica. Simbólica do ponto de vista de falar da Diáspora Negra, de se estar sendo sempre jogado de um lugar para o outro. E [desapropriação] material porque o ambiente é uma desapropriação de uma favela contemporânea, que também é a mesma coisa, catam e jogam para qualquer outro lugar. Tiram a gente sempre à força dos lugares. A peça trata disso, a relação África e Brasil.

R7: Foram quatro anos de trabalho antes da primeira montagem?
Jé de Oliveira: De 2007, quando a gente se encontra pela primeira vez, até 2012, na estreia da primeira peça, foi um exercício de formação interna do grupo.

R7: Como foi a pesquisa para incluir a obra dos Racionais MC's no trabalho atual?
Jé de Oliveira: Eu faço faculdade de Ciências Sociais e leio muito sobre Antropologia. E lendo um texto da Simone de Beauvoir, sobre a construção da mulher, ela diz que não se nasce mulher, mas que se constrói mulher. Comecei a fazer um paralelo com a questão da negritude. A sacada foi que com o negro é igual. Você não nasce negro [ativista]. Politicamente, você se torna negro. Fiquei muito curioso para descobrir como as pessoas trilham esse percurso. Aí eu entrevistei doze homens negros para entender como foi a construção da negritude deles, da masculinidade negra periférica. Foram doze homens negros da periferia. E apresentava o mesmo questionário para eles.

R7: E qual foi o resultado dessa pesquisa?
Jé de Oliveira: Para pelo menos oito, desses 12 homens, o grupo Racionais MC's foi o principal disparador de uma questão racial e social. Como para mim também tinha sido assim, eu concluí que tinha tudo a ver. Eu peguei as histórias, me inspirei em alguns trechos e escrevi as cenas. Foi um texto criado a partir do que foi dito na pesquisa. Olhando a peça, não se identifica quem disse o quê. Isso pouco importa na verdade, o que importa é que acontece, e acontece sistematicamente. A peça também é costurada por trechos das músicas dos Racionais MC's.

R7: O que mais você encontrou na pesquisa?
Jé de Oliveira: A outra unidade triste que surgiu em uns nove dos doze relatos, foi a relação com a morte. O extermínio. A morte de amigos muito próximos por assassinato. Tanto pela ação da polícia como também da criminalidade. Tem na pesquisa um sentimento muito forte de perda. Isso é muito chocante. Portanto, o primeiro ato da peça se chama: morrendo. A peça começa morrendo para depois começar a vida. Porque a gente vem morrendo há séculos. O que a gente precisa é viver, viver dignamente, se manter vivo fisicamente. Na peça, quem traz a vida, sobretudo, é a música. Então os Racionais aparecem como um sopro de vida.

R7: É um exemplo de luta?
Jé de Oliveira: Sim. Como é para essa geração e também foi para duas gerações anteriores de homens negros.

R7: Qual a percepção sobre a poesia e a sensibilidade nas músicas dos Racionais?
Jé de Oliveira: A rima é muito forte. O rap tem essa relação com a rima que, por si só, traz uma sensibilidade. E a poesia chega por muitas vias. É muito profunda a relação. Não é só o que está sendo dito, mas como está sendo dito. Você percebe nas narrativas do Mano Brown, por exemplo, muitas nuances de discurso, muitas nuances de entonação que dão a intenção do que ele quer dizer. No modo como ele canta, às vezes uma raiva se torna um processo de cura. É uma raiva colocada no simbólico para não ser colocada nas vias de fato. Eu acho que o processo de empoderamento que os Racionais faz pela poesia é justamente esse. É um processo de amizade. É como se fosse a conversa de um amigo.

R7: Como assim?
Jé de Oliveira: É como se você [ouvinte] conseguisse conversar com o grupo para entender que não precisa agir pelo viés da violência. Então é a poesia que se destaca e faz essa transformação. A conscientização.

R7: No seu caso, como foi essa conscientização pela música dos Racionais MC's?
Jé de Oliveira: A primeira vez que ouvi Racionais foi em 1995, lá na favela do Zaíra, em Mauá, numa fita K-7. O álbum era o Raio-X do Brasil. Eu tinha 12 anos. A música era Fim de Semana no Parque.

R7: O que mais te tocou no álbum?
Jé de Oliveira: Aquela abertura da primeira faixa, na voz forte do Edi Rock: “Você está entrando no mundo da informação, autoconhecimento, denúncia e diversão. Este é o Raio-X do Brasil, seja bem-vindo". Eu entrei total. É como se eles falassem de mim sem me conhecer. A sensação era essa. A música falava da quebrada, da favela, dos meus amigos, mas eles nem me conhecem. Eu nunca tinha sentido aquilo na minha vida.

R7: Qual a explicação para o título da peça Farinha com Açúcar?
Jé de Oliveira: É uma mistura feita em muitas regiões pobres do país, quando acaba toda a comida e as pessoas estão com fome. Quando não tem mais nada para comer e ainda tem um pouquinho de açúcar, se mistura com farinha para dar essa 'sustança'. É para enganar o estômago porque a farinha dá aquela inchada e o açúcar dá uma quebradinha na secura. É uma metáfora dessa vida Farinha com Açúcar. Tem um subtítulo "A Sustança de Meninos e Homens", a sustança é uma vida de farinha com açúcar, tanto na falta como nesses dribles para tentar se manter vivo. Tem esse fiozinho de açúcar nessa dureza que é a farinha sozinha, essa secura.

R7: Como faz para combater o racismo pelo teatro?
Jé de Oliveira: A nossa via é a via simbólica da arte, mas não é o único caminho. Existe a lei. O racismo é crime. As pessoas brancas que são racistas precisam entender que elas perderam o jogo.
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