CAPÍTULO II
NEGRO DRAMA
Um panorama do racismo no Brasil
O R7 entrevistou 28 pessoas, entre personalidades e especialistas, e se debruçou em 22 fontes de pesquisa para discutir a situação da população negra no País.
Foto: Juca Guimarães
25/07/2017
São Paulo - Brasil
REPORTAGEM
Giorgia Cavicchioli, Juca Guimarães
e Peu Araújo
ARTE
Danilo Lataro

Com base na Convenção para a prevenção e repressão do crime de genocídio, adotada pelas Organizações das Nações Unidas em Assembleia Geral em 1948, o R7 reconheceu situações críticas em relação à população negra no Brasil em nove diferentes cenários: número de mortes, violência, educação, mercado de trabalho, saúde, habitação, família, violência contra a mulher e falta de representatividade.

O capítulo número dois — serão cinco no total — apresenta números e opiniões sobre educação e mercado de trabalho para os negros no Brasil

A pedido do R7, o Instituto Paraná Pesquisas realizou um levantamento exclusivo sobre racismo no Brasil. O relatório, realizado no final do mês de maio de 2017, fez duas perguntas para a população. Uma delas era se algum dia aquela pessoa foi racista. 93,7% afirmou que não, 5,9% disse que sim e 0,5% não respondeu.

A segunda pergunta feita foi se a pessoa tinha presenciado algum ato ou cena racista. Para essa questão, 50,3% afirmou que sim. 49,2% dos entrevistados disse que não e 0,5% não respondeu. A pesquisa ouviu 2.022 eleitores com 16 anos ou mais. O levantamento foi feito em todo o Brasil e tem 95% de confiança. A margem de erro estimada é de 2%.

O R7 recorreu ao título da música do Racionais MC’s para dar nome a essa reportagem especial. Assista a uma interpretação exclusiva de Tawane Theodoro, poeta e uma das participantes de poetry slam’s (campeonato de poesia).

Problema com escola eu tenho mil, mil fitas
A situação dos negros nas escolas brasileiras

De cada dez brasileiros com mais de 15 anos idade que não saber ler ou escrever, sete são negros. Das 12.771.640 pessoas analfabetas, 9.161.529 são pretas e pardas, 71,7% do total, segundo o dado mais recente disponível na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2014, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Na região Norte esse percentual salta para 83,2%.

Mesmo ultrapassando a barreira do analfabetismo, com um indíce 2,3 vezes maior que o dos brancos, os negros enfrentam uma grande desigualdade no acesso aos estudos.

Em 2015, sem considerar o recorte de raça, a média do tempo de estudos do brasileiro estava em oito anos, dois meses e 12 dias.

O negro, porém, tinha, em média, sete anos, quatro meses e 24 dias de tempo na escola, ou seja, 9,75% abaixo da média. Os brancos, por sua vez, tiveram oito anos, dez meses e 24 dias de estudos (8,53% de tempo acima da média).

A diferença entre o tempo total de estudos na comparação da população branca com a população negra é de um ano e meio.

Em 1995 apenas 2% da população negra tinha acesso ao ensino superior. Vinte anos depois este número saltou para 12,5%, um avanço de 10,5 pontos percentuais. Entre a população branca, em 1995 apenas 9,1% estava nas cadeiras das universidades. Em 2015 são 25%, um avanço de 15,9% pontos percentuais.

A escolaridade reflete também no mercado de trabalho. Segundo o Laeser (Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais), 69,1% dos empregadores são brancos e 62% das pessoas que têm empregos domésticos sem carteiras assinadas são negras.

Jovens entre 18 e 24 anos que chegaram no nível superior em 2015

Negros 12,8%

Brancos 26,5%

Fonte: IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

“Após a criação da Lei de Cotas, em 2012, 150 mil estudantes negros ingressaram em instituições de ensino superior no País entre 2013 e 2015”
Fonte: MEC (Ministério da Educação)
Cê disse que era bom e as ‘favela ouviu’
O negro na universidade brasileira depois do sistema de cotas

As cotas foram criadas para tentar equilibrar as chances de jovens negros e brancos entrarem em uma universidade. Quando existe um débito de mais de 400 anos de uma sociedade para com um grupo de pessoas, é preciso que se pense em soluções para diminuir essa desigualdade. Mesmo assim, a branquitude insiste em perpetuar seus privilégios e isso causa fraudes no sistema.

O caso mais recente aconteceu UFPel (Universidade Federal de Pelotas). Estudantes brancos foram investigados depois de se passarem por negros para conseguir ingressar no curso de medicina da instituição. A comissão que investigou o caso recomendou o desligamento de 24 alunos dos 27 que foram analisados.

Depois das denúncias, os estudantes foram expulsos. Porém, sete alunos conseguiram voltar para as aulas por meio de mandados de segurança. As fraudes na instituição também atingiram três pessoas que concorreram a vagas de servidores. O R7 noticiou o caso desde a primeira denúncia e continua acompanhando todas as movimentações dentro da universidade.

A seguir, você vê o depoimento de uma mulher negra, estudante de medicina da UFPel que acompanhou todo o andamento das investigações sobre a fraude nas cotas. Por motivos de segurança, ela teve seu nome preservado.

“Lembro de na infância ter muitas fantasias com ‘ser médica’ e aos 12/13 anos estar decidida a seguir essa profissão. Com 15/16 anos iniciei o curso técnico em enfermagem e me chamou a atenção que, nos lugares que frequentava, não haviam pessoas negras médicas ou ocupando cargos de gestão. Tive, então, certeza de que seria médica um dia. Foram 13 anos entre a minha convicção e a matrícula. Ouço muita gente dizer ‘faço medicina pra ajudar as pessoas’ e acho curiosa essa relação. Ninguém precisa ser médico pra ajudar, não. Não precisa nem de graduação. Faço porque gosto. O contato com os pacientes, neste papel, é algo que me gratifica. Quando as cotas surgiram, já era universitária. É preciso reconhecer que parti de uma situação com algumas vantagens em relação aos demais, meus pais eram ‘graduados e concursados’. Minha mãe, principalmente, fazia um esforço significativo pra que tivéssemos a melhor educação formal possível (educação de branco, dizia Oliveira Silveira).

Ainda que nossa formação humana fosse fortemente vinculada ao movimento negro, as cotas inicialmente me causaram estranheza. Sabia que era ‘uma das únicas’ na universidade, reconhecia minhas vantagens, mas confesso que tive um momento de dúvida e frequentemente as defendia (as cotas) sem muita convicção. Em 2003, entrei em contato com o sistema de cotas para hipossuficientes. E ficou evidente que promover o ingresso baseado em renda não mudava a cara da universidade de forma significativa: o recorte de raça precisava ser feito. Quando ingressei na UFPel, elas não existiam. Foi a partir de 2014 que iniciou o ingresso de cotistas nesta universidade. Fiquei imensamente feliz quando anunciaram a adesão à política (ainda que o percentual reservado à negros seja baixo, na minha opinião. É baseado nos dados censitários, mas as pessoas nunca ‘gostaram’ de se identificar como pretas ou pardas...). Imaginei negros em todas as ATMs e sonhei em contribuir, de alguma forma, com a trajetória deles na instituição.

Foi um choque perceber que as turmas não tinham sido escurecidas na proporção mínima que as cotas propunham. A justificativa era de que os negros não estavam requerendo essas vagas, que precisávamos de mais trabalho de base pra que as pessoas soubessem que tinham direito a elas. Hoje percebo que fui ingênua ao considerar possível essa explicação, afinal, as cotas já eram uma realidade, a UnB for a pioneira entre as públicas em 2004... era óbvio que não era falta de informação nossa, tinha algo por trás disso. É sempre cômodo responsabilizar um grupo que não poderia ser identificado de fato, não poderia responder aos comentários. Como não haviam negros o bastante nas turmas, acreditava que as vagas tinham sido redistribuídas com base em algum critério que desconhecia. Era decepcionante. A primeira vez que me falaram sobre a possibilidade de fraude, foi uma surpresa. Como alguém poderia fingir ser negro? E como isso fora aceito com tamanha passividade?

Foi realmente um choque porém não sabia a quem recorrer. E, principalmente, não imaginava que eram tantos. A participação dos estudantes negros foi essencial nesse processo. A notícia ganhou notoriedade e grande parte dos colegas também ficou revoltada. 30/12/2016 foi um dia histórico. Colocou a UFPel no centro das conquistas do movimento negro. Chorei ao ler que os 24 alunos que haviam se valido da autodeclaração para obter ‘sua vaga’ estavam expulsos. E pensei em todos as pessoas que conheci, principalmente pacientes e familiares destes, que me diziam ‘é tão bom ver uma médica que é negra como eu’. Pensei na história do menino que diz ‘não posso ser médico porque sou negro’. Pensei nas 24 pessoas que originalmente tiveram seu direito negado. Que possivelmente haviam abandonado um sonho, o mesmo que por tanto tempo carreguei. Nos devaneios de uma pessoa irremediavelmente otimista, vislumbrei a chegada de 24 estudantes negros na Faculdade de Medicina. Com quase três anos de atraso, mas todos lá. Iríamos escurecer aquele lugar.

Fico impressionada com a sensação de pertencimento dos fraudadores. É tanta que sequer questionam seu direito às vagas. São tão iguais que se misturam aos demais. Suas ‘avós índias’ seguem vivas e não consideram que ‘pretos e pardos’ constituem a população negra. A justiça não se faz presente. Somos pontos fora da curva, violados pelo sistema que enaltece a branquitude. Que reconhece no indivíduo branco uma pertença negra construída no imaginário e que, todavia, trata como ‘mania de vitimismo’ a violência sofrida por uma pessoa como eu. Sou extremamente otimista. Acredito tanto nos valores morais, no bom senso, que jamais pensei que eles poderiam tentar voltar. São evidentemente não negros!

É difícil descrever o que me causa essa situação. Me sinto agredida toda a vez que ouço ‘voltou mais um’. Costumo dizer que é fácil aliar-se a dor de quem se conhece, de quem tem face. Quando serão ouvidos todos os que deixaram de entrar na medicina em vista das fraudes? Ou quando darão ouvidos aos negros que lá estão? Não existe um sentir-se negro que só é expresso quando a discriminação é positiva. Algum deles pensou que seria ‘suspeito’ por ter um antepassado negro? Tiveram o segurança do supermercado no seu encalço porque ele ‘sentiu’ que aquela pessoa tem uma avó negra? Minha mãe sempre diz ‘o branco sempre sabe quem é negro’. Quando saio na rua, ninguém pergunta se minha avó é branca. E se digo isso, pensam que é deboche. Nosso vínculo não me embranqueceu aos olhos do mundo. Em nenhum momento que possa lembrar, alguém me disse ‘mas tu tem um pezinho nas regiões de colonização europeia, né?’. Não houve um único dia da minha vida que precisei ‘explicar’ minha negritude. Foi estabelecido socialmente que eu jamais seria igual. Está marcado em meu corpo que não sou igual. Em que momento esses colegas enfrentarão qualquer das situações pelas quais passei durante minha formação médica? Em que momento passaram por qualquer situação de racismo com base, exclusivamente, em sua ancestralidade?

Desde o primeiro dia, a medicina foi definida como meu “não lugar”. A cor, o cabelo, o biotipo, a roupa, o tênis... nada me aproxima do ‘padrão médico’ e então o, digamos ‘desconforto’ dos agentes do racismo, precisa ser expresso. E agride. Já teve professor que duvidou que eu era acadêmica, porteiro que proibiu minha circulação (porque ‘não tinha nada que me identificasse’. Meus colegas brancos também não tinham, mas não foram barrados). Quando reclamei disso, a primeira pergunta que me fizeram foi ‘porque vocês tão com essa mania de achar que tudo é racismo?’. Ouvi, em outra oportunidade, que ‘seria divertido’ fantasiar o namorado negro de escravo e açoitá-lo durante uma festa. Nas consultas, sempre me identifico e é frequente as pessoas imediatamente dizerem ‘então tu é enfermeira’, ‘secretária do médico’ ou mesmo ‘quando vem o estudante de medicina?’. Uma vez, depois de explicar com detalhes ‘o que’ eu era, a paciente ficou tão surpresa que mudou de atitude e me deu os parabéns. Ela realmente não tinha conseguido acreditar que esta pessoa também poderia ser médica. E claro que isso não é uma questão de classe, gênero ou gordofobia. Racismo adoece, brutaliza, mata. Estar nesses espaços ditos de elite, exige que façamos escolhas que muitas vezes nos causam sofrimento. Frequentemente alguém diz como devo me vestir ou andar, pra quais pessoas não posso sorrir, a quem devo lançar olhares de superioridade, ‘mostrar quem manda’. É uma ilusão acreditar que sofreremos menos assim. Não assumirei essa personagem. Prefiro continuar sendo eu, enquanto me for possível”.

Essa estrada é venenosa e cheia de morteiro
O racismo nas escolas

Pesquisa sobre preconceito e discriminação no ambiente escolar de 2009, realizada pelo MEC (Ministério da Educação) e a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) da USP (Universidade de São Paulo), mostrou que o principal alvo de bullying dentro das escolas são as crianças negras.

A característica foi a mais citada entre mais de 18 mil pessoas (entre alunos, professores e funcionários) ouvidas em 501 escolas de todo o País. Em seguida, vem o fato de a pessoa “ser pobre.”

O estudo também faz uma relação entre discriminação e desempenho escolar. Nas escolas em que os alunos apresentaram maiores níveis de preconceito, as avaliações da Prova Brasil (Avaliação Nacional do Rendimento Escolar) foram menores. O texto do levantamento chega, portanto, à conclusão: “estes resultados indicam a existência de correlação entre preconceito/discriminação e as médias.”

Solitária na floresta de concreto e aço
Uma entrevista com Leci Brandão (primeira parte)

Foto: Divulgação

A sambista e deputada estadual nasceu em setembro de 1944, 56 anos após a abolição da escravidão no Brasil. A sua avó foi cozinheira e copeira em casa de família. A mãe dela, que também se chama Leci, foi servente de escola pública, mas também trabalhou em “casa de madame” como babá para sustentar as duas filhas.

Desde de muito cedo, Leci se esforçou para conseguir uma condição melhor de trabalho e tirar a mãe da rotina pesada. A cantora viu o seu sonho parar várias vezes por uma questão: a cor da pele.

R7: Como foi o começo da sua vida profissional?
Leci Brandão: Eu tenho muito orgulho da minha história de vida. Já fui várias coisas na vida: servente de escola, telefonista, ajudante da minha mãe que era servente em escola, depois passei a pegar no pesado mesmo. Nós moramos em três escolas públicas no Rio de Janeiro. A escola Equador, na Vila Isabel; a escola Artur Azevedo, na Pavuna e a escola Nicarágua, em Realengo.
Eu tirei minha mãe de escola quando eu comecei a trabalhar. Quanto tive o meu primeiro emprego tirei ela porque era um trabalho muito pesado. Imagina ter que varrer quase 30 salas de aula, duas vezes por dia. É pesado.
Nessa coisa de ir trabalhar fora, eu estava na Companhia Telefônica Brasileira e fui cantar no programa do Flávio Cavalcanti, na televisão, chamado “A Grande Chance”. No dia em que eu cantei, ganhei o programa como compositora. Só que a Telefônica me prometeu várias coisas, disse que ia me promover, que ia melhorar, mas não fez absolutamente nada. Então pedi demissão.
Daí fiz concurso e passei para uma vaga numa fábrica, em Realengo, que fazia balas de festim do Exército. Era um serviço pesado também. Você tinha que pegar a bala na mão e examinar para saber se a bala tem isso ou aquilo e, com isso, eu adquiri cinco calos em cada mão.
Depois, eu me inscrevi no sindicato dos comerciários e consegui um apartamento no BNH, em Pilares, que era perto da universidade.
Então eu montei um apartamento para a minha mãe e comprei tudo novinho. Comprei fogão, comprei não sei o quê, enfim, eu tive a minha primeira moradia minha, pagando as prestações a perder de vista.

R7: E como era procurar emprego sendo uma mulher negra? Você teve que largar os estudos para trabalhar?
Leci Brandão: Não consegui [continuar os estudos] porque tinha que fazer muita coisa. Por exemplo, eu trabalhava na Piedade e morava em Senador Camará, tinha que pegar trem e ônibus. Não dava condição para mim porque a minha mãe dependia também de mim, tinha a minha irmã. Tinha a minha família toda. Eu sempre ajudei, tia, prima, primo, não sei o quê. A partir daí que a minha vida começou a mudar, e eu tive condições de ganhar um pouco mais, isso nunca foi para mim. Sempre foi para cuidar dos meus.
Tem também um outro detalhe. A mãe da minha mãe foi cozinheira, trabalhou em casa de família. A minha mãe foi babá, tomava conta das crianças. A minha mãe foi copeira junto com a minha avó. A minha família é uma família de mulheres negras trabalhadoras. Ou era operária de fábrica ou era trabalhar em casa de madame.
Eu fazia as provas nos lugares para trabalhar e eu era sempre reprovada num tal de psicotécnico. Eu dizia ‘Gente, eu fiz as coisas direito, eu acertei as perguntas, tinha certeza absoluta que tinha feito tudo direitinho, mas eu nunca era chamada... depois é que eu fui entender.

R7: Foi entender o quê?
Leci Brandão: Nos anúncios de emprego da minha época, era assim: precisa-se de moça de boa aparência. Então, eu ia arrumada, direitinha, não ia chique, mas eu ia limpa e bem arrumada. Mas eu era negra e, por isso, não conseguia emprego. Demorei para conseguir um emprego. E só consegui o primeiro emprego por causa da influência de um menino branco, amigo de uma amiga minha de colégio [não para ser aprovada no teste, mas para ser aceita depois de aprovada no teste.

R7: Então existe uma dificuldade de inserção da população negra no mercado de trabalho. Nas funções de melhor remuneração. Os dados apontam que o número de empregadas domésticas, principalmente no Nordeste, é maior de mulheres negras do que mulheres brancas. Ou seja, há um afunilamento, um muro, que impõe para as mulheres negras as funções mais braçais e com renda menor. Você passou por isso?
Leci Brandão: Eu passei por isso, e aí ninguém consegue entender porque é que eu gosto tanto dessas pessoas que são ligadas aos movimentos progressistas. Foi com eles que comecei a entender que apareceu também um povo nesse país que resolveu brigar pelos nossos direitos. Então, a partir do momento que eu, sabe, vi a sensibilidade, nem é questão de boa vontade, de algumas pessoas que estavam no poder executivo e que começaram a dar uma oportunidade para um povo que faz parte da minha história, eu imediatamente comecei a ter mais condições de escrever coisas mais fortes. Eu tive música censurada por causa disso.
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Empregador

Brancos 69,4%

Negros 28,1%

Emprego doméstico sem carteira

Brancos 37,9%

Negros 62%

Fonte: Laeser (Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais)

Ei, Senhor de engenho eu sei bem quem você é
Uma entrevista com Joyce Fernandes, criadora da campanha “Eu Empregada Doméstica” sobre a profissão

Foto: Juh Guedes
R7: Como surgiu a ideia do “Eu Empregada Doméstica” e o que motivou o seu primeiro relato?
Joyce Fernandes: A ideia da página não foi programada. Em julho de 2016 eu estava em casa num momento de férias da escola, então estava no ócio criativo, um momento sem fazer nada, pensando na vida, pensando nas coisas que eu já tinha conquistado. E com isso vieram algumas lembranças de quando eu era empregada doméstica. Comecei a escrever algumas lembranças com a hashtag #euempregadadoméstica e coloquei o primeiro relato referente ao meu último emprego, em 2009, quando eu fui contratada para ser cozinheira e eu não podia comer da comida que eu fazia e não podia utilizar os banheiros da casa. Depois disso, eu recebi vários relatos e decidi criar a página. Do momento em que eu escrevi o relato até a criação da página durou menos de 24 horas. Foi tudo muito rápido. Depois de três dias de criação da página saiu uma matéria na BBC de Londres, depois na DW, que é uma TV alemã e só depois os veículos brasileiros foram procurar entender o que estava acontecendo.

R7: O quanto você se calou antes do primeiro relato? Quantas vezes você foi assediada antes de falar sobre o assunto?
Joyce Fernandes: Nossa, diversas vezes. São coisas que a gente naturaliza. Naturaliza, porque precisa do emprego. Naturaliza, porque falta informação e conhecimento. Eu contava para os meus pais as coisas mais superficiais e tentava aturar tudo aquilo, a outra opção era explodir e perder o emprego. Mas em alguns momentos eu não consegui aturar, como uma vez em que um patrão pediu para eu comprar um leite, e na minha casa a gente tinha o hábito de comprar tudo mais barato por conta dos custos. Eu comprei um leite barato e quando cheguei na casa dele ele ficou super com raiva, dando tapa na mesa e falando que jamais iria tomar aquele leite, que se no moquifo, na favela em que eu morava a gente estava acostumado a tomar aquele leite eu deveria levar pra minha família. Aí eu peguei o leite e joguei na pia e falei.
— Não, se não serve pra sua família não vai servir pra minha também.
Foram poucas vezes que eu consegui ter essas ações, porque na maioria das vezes eu ouvia calada, ia ao banheiro chorar, lavava o rosto e continuava trabalhando. É o que eu recebo também de relatos das trabalhadoras domésticas.

R7: Você falou que os depoimentos começaram a chegar muito rápido, em menos de 24 horas?
Joyce Fernandes: Sim, o meu primeiro relato viralizou, ele teve mais de 5.000 compartilhamentos, mais de 10.000 curtidas e eu recebi um monte de relatos, até pelo WhatsApp. Hoje a página tem mais de 140.000 seguidores e já recebemos mais de 4.000 relatos. E todo dia eu posto de forma anônima para que as domésticas não sofram retaliação.

R7: Por que é mais comum ver uma mulher negra como empregada doméstica do que como executiva ou médica, por exemplo?
Joyce Fernandes: Por conta do racismo estrutural, do racismo velado, que não é velado. Isso já começa na educação básica com a professora não percebendo o racismo dentro da sala de aula. Quando a gente fala passamos por vitimistas e isso causa uma grande evasão da população preta na escola. Baixa escolaridade é uma questão, mas mesmo quando a pessoa consegue terminar o ensino médio, ela não consegue se colocar no mercado de trabalho. A gente tem que provar tudo o que a gente sabe. Eu achava que ia ser só ingressar na universidade para ser respeitada. ‘Ah, agora sou uma preta universitária’. Muito pelo contrário, a população preta tem que provar o que ela é e o que ela sabe.

R7: Quando você entendeu que o seu caso não era pontual e que muitas outras mulheres sofriam com a mesma coisa?
Joyce Fernandes: Quando eu comecei a escrever pedi para a galera utilizar a hashtag para que eu pudesse acompanhar. Mas eu sempre falava no passado, porque o meu último trabalho como doméstica foi em 2009, eu não tinha mais contato com outras domésticas. Eu sabia que chegariam relatos, mas não tão atuais. Eu comecei a receber coisas assim.
— Ontem o meu patrão passou a mão em mim.
— Ontem a minha patroa me pediu para ficar até mais tarde no trabalho, mas não vai me pagar.

R7: Qual a importância de ter um espaço em que as pessoas possam contar seus casos de assédio?
Joyce Fernandes: O mais importante é que são mulheres falando em primeira pessoa, são mulheres sendo protagonistas de sua própria história. Não é uma pessoa contando a história de outra e como é anônimo, elas ficam à vontade de contar os seus relatos. Elas escrevem, eu posto e essas mulheres ficam esperando os comentários e muita gente dá força, sugerem coisas, advogadas mostram que aquilo está errado e vira um grande fórum de discussões em cima daquela história, em cima daquilo que ela tá vivendo.

R7: Quais relatos que mais te marcaram desde o início da campanha?
Joyce Fernandes: Eu leio esses relatos todos os dias, mas o que mais me chamou atenção foi de uma senhora de 73 anos. Ela ainda é trabalhadora doméstica e contou que um dia ela foi trabalhar e o elevador de serviço estava quebrado e o porteiro, a mando dos moradores do condomínio de luxo, falou que ela não poderia utilizar o elevador social, que ele era só para visitantes e moradores. Ela e as demais domésticas tiveram que subir de escada e ela foi até o oitavo andar pelo simples capricho de não poder usar o elevador social. Isso me deixou bem chateada.

R7: No site tem muitos relatos que envolvem, inclusive, violência. Você acha que a gente banaliza a violência contra a mulher, principalmente contra a mulher negra, e isso acaba se tornando uma prática cotidiana?
Joyce Fernandes: As pessoas têm que entender o que é empatia. Só acontece mudança quando você se coloca no lugar do outro. Essas opressões estão muito naturalizadas, inclusive a cultura do estupro. Ninguém se escandaliza mais com nada. Está tão naturalizada a morte, são tantos casos que não temos mais empatia. Essa violência existe há muito tempo, mas com a internet elas surgem mais rápido e em maior quantidade. Porém, essa enxurrada de violência as pessoas naturalizam e é como se não tivesse acontecido ou ficam apáticas esperando acontecer na família ou com alguém próximo para se posicionar.

R7: Você acredita que os patrões, ou pelo menos alguns deles, se conscientizaram a partir dos relatos na página?
Joyce Fernandes: Sim, sem dúvida. Principalmente na palestra que eu dei no TED.
Ali é uma conferência internacional com um valor caro para assistir. Posso arriscar falar que quase 90% das pessoas que assistiram àquela palestra na Sala São Paulo lotada eram de patrões. Eu já recebi vários e-mails, várias mensagens de gente falando que mudou a conduta. Recebi relatos de patrões dizendo que em suas vivências foram criados para tratar as domésticas com rigidez.
— A minha avó tratava a empregada assim, a minha mãe tratava a empregada assim e eu cresci ouvindo que eu não posso dar mole pra empregada não montar nas minhas costas, que tenho que segurar com rédea curta, porque esse povo pobre é abusado.
Eu recebi relatos desse nível de pessoas que vivem num mundo totalmente diferente do meu e não têm contato com pessoas iguais a mim. E quando me escutaram, ou viram a página, perceberam que o mundo é mais real. Que não é assim que se trata as pessoas, que não é assim que se deve conduzir uma relação entre patroa e empregado.

R7: A partir do momento em que você virou historiadora você chegou em um ponto escolar que em alguns momentos você deve ter estado em posição para discutir de igual pra igual com o patrão. Como eles te encararam, você sofreu preconceito?
Joyce Fernandes: Sempre, porque se eu fosse branca seria mais tranquilo para as pessoas ficarem menos assustadas. Uma pessoa branca, pobre e que estudou é normal. Agora não esperam isso de uma mulher preta. É difícil para eles que a gente tenha informações e fale de igual, olhando nos olhos. Você é testada sempre. Te fazem perguntas para que você não saiba responder e quando você responde eles ficam surpresos.
— Caramba, e você já foi empregada doméstica. Que avanço.
A gente não pode cair na questão da meritocracia, porque as pessoas querem me utilizar como exemplo.
— Olha a Preta Rara, ela era trabalhadora doméstica, fez faculdade e conseguiu.
Mas não é só você querer, ter força de vontade que você vai conseguir. É preciso entender que no Brasil os caminhos são totalmente diferentes, são várias coisas que temos que passar e vários obstáculos e em todos eles têm questões raciais. Não é só um problema social, porque se fosse assim o Lázaro Ramos e a Thaís Araújo não sofreriam racismo como eles sofrem em diversos lugares mesmo sendo famosos.

R7: Por que a gente fala tão pouco nas escolas dos escravos que vieram ao Brasil e da cultura africana?
Joyce Fernandes: O embranquecimento deu certo no Brasil. Sempre colocaram a imagem do negro como uma imagem errada e tem ainda a miscigenação do quanto mais claro melhor. O Brasil tem um modelo eurocêntrico, sempre vemos o lado dos opressores. Fica difícil mesmo o País entender a sua história quando tem professores reforçando que a população preta é descendente de escravos, sendo que na realidade somos descendentes de povos que foram escravizados, que vieram a força da África. Com isso não há uma representatividade na sala de aula. Ainda falamos da escravidão tendo a Princesa Isabel como a rainha da libertação e nunca vamos mais a fundo para saber o porquê da Abolição e o que os negros fizeram no dia 14 de maio de 1888, um dia após a Abolição. Tava todo mundo comemorando, mas e aí? Pra onde foram? São essas reparações que o Brasil nos deve ainda e isso reflete muito nas condições de trabalho do negro hoje em dia. Por que que a grande maioria das empregadas domésticas são mulheres pretas? É resquício ainda dessa escravidão, onde as mulheres ficavam na casa grande servindo, a família sendo açoitada, estuprada. É muito parecido com os relatos que eu recebo na página. Por isso eu falo que a situação dessas trabalhadoras é análoga da escravidão.

R7: Quais são os próximos passos?
Joyce Fernandes: Eu tenho um plano de trabalho para 2017. O meu interesse é que a página continue na Internet, mas que tenham ações fora dela. Eu percebi, em pouco mais de seis meses de páginas, que não dá para atingir todas as domésticas, que nem todas têm acesso fácil à Internet, que sabem manusear. Temos ainda um índice muito grande de analfabetismo, por isso é importante fazermos ações fora da página.
Recentemente fizemos o lançamento do Guia de Direitos das Trabalhadoras Domésticas, lá em Cubatão, no Sindicato da Limpeza. Esse guia foi escrito por dois coletivos: o Comuna Deusa, de São Paulo, e também pelo Observatório de Direito e Cidadania da Mulher, também de São Paulo. É o escritório de duas advogadas que trabalha com o direito das mulheres, violência contra a mulher, entre várias outras questões. A intenção é fazer vários lançamentos como esse pelo Brasil tentando apoio em editais públicos e empresas para difundir essa ideia.
Estamos também fazendo a nossa campanha para lançarmos o livro “Eu empregada doméstica: a nossa voz ecoa”. Virá com relato dessas trabalhadoras domésticas entrelaçando com as minhas histórias, as histórias da minha mãe, da minha avó sempre trazendo essa narrativa em primeira pessoa.
Eu tô gravando uma websérie com 10 episódios chamada “Nossa voz ecoa” e vamos abordar vários temas que eu abordo na internet, como feminismo negro, racismo na escola, gordofobia e dentro dessa websérie, teremos um episódio dedicado à página “Eu Empregada Doméstica” e isso será o embrião de algo maior que nós temos interesse de fazer.
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O que cê fez por mim?
Entrevista com o presidente da Bayer do Brasil, Theo van der Loo, que denunciou recentemente o racismo no mundo corporativo brasileiro
R7: Recentemente você veio a público para denunciar um caso de racismo em uma grande empresa do Brasil. Você já presenciou situações racistas outras vezes neste universo?
Theo van der Loo: É importante esclarecer que existe a discriminação ativa (que é ilegal), porém normalmente ela é velada. Já preconceito é inconsciente. Achamos que não “discriminamos” mas não nos damos conta que o fazemos. Presenciei a discriminação, no sentido das pessoas comentarem “que não gostam de negros” ou quando contam piadinhas. Na nossa sociedade acredito que o preconceito e discriminação é muito mais frequente do que imaginamos.

R7: Foi a primeira denúncia de racismo que você recebeu de um executivo?
Theo van der Loo: Não. Mas nunca ouvi algo tão agressivo. Por isso, resolvi falar sobre o assunto e estimular o debate sobre o tema. O texto reflete a minha preocupação, pessoal e profissional, com a promoção da igualdade racial e social e também a inclusão de outras minorias.

R7: Para o especial que estamos fazendo nós falamos com a Leci Brandão e ela nos revelou que quando fazia entrevistas de emprego nunca passava no exame psicotécnico e nunca conseguia a vaga. Segundo ela, este era o método racista de não a contratarem. O que mudou dos anos 50, 60 para agora?
Theo van der Loo: Hoje muitas multinacionais têm uma política global de diversidade. Estas medidas ajudam a estimular um ambiente de trabalho mais inclusivo, mas é preciso estar atento às necessidades individuais e promover condições igualitárias de desenvolvimento. É fundamental, ainda, que todo o ambiente corporativo seja estimulado a valorizar a diversidade.
Desde 2016, a Bayer possui um comitê de diversidade nas questões: LGBT, Racial, Gênero e PCD. Nós nos preocupamos muito com estes aspectos, e por este motivo, criamos um Comitê de Diversidade que se divide nos quatro subtemas comentados acima. No ambiente são promovidos, por exemplo, discussões de campanhas para o público interno para conscientização de demais colaboradores e também medidas a serem aplicadas durante o ano.
Em 2015 fomos premiados pela Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR) e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no 1º Prêmio São Paulo Diverso, que celebra esforços corporativos, individuais e coletivos no campo das ações afirmativas dentro do mercado de trabalho.

R7: Por que vemos tão poucos negros em posições de destaque no mundo corporativo? O que essa ausência quer dizer na sua opinião?
Theo van der Loo: Acredito que isso ocorra por vários motivos. Um deles é o preconceito, o outro é a baixa oferta de candidatos preparados. Os que discriminam normalmente tiveram acesso às escolas melhores, inclusive no exterior, enquanto os negros já começam com uma desvantagem enorme – precisam se esforçar muito mais para serem reconhecidos.
Felizmente, isto vem mudando: devido ao sistema de cota nas faculdades, a cada ano existem mais afro-brasileiros se formando. Mesmo assim, pessoalmente eu não tenho dúvidas que se as empresas não forem mais proativas a situação vai piorar e a desigualdade social irá aumentar, gerando mais desemprego e sobretudo, violência. O Brasil somente pode avançar se começamos a encarar está situação abertamente.

R7: Entre os estagiários é comum termos jovens negros? O que é preciso fazermos para que o racismo deixe de estar presente no ambiente corporativo?
Theo van der Loo: Sim. Por meio, principalmente, das ações do comitê de diversidade, nós temos buscado estimular cada vez mais condutas responsáveis de estimulo à igualdade na companhia, colocando o tema como central dentro da estratégia de gestão de pessoas.
Em nosso último censo, realizado em 2014, indicou que entre os 4 mil funcionários no Brasil, 14% são negros, alguns deles, inclusive, em cargos expressivos e postos no exterior. Porém estamos longe do ideal – lembro que mais de 50% da população brasileira é afrodescendente. Portanto temos muito a fazer ainda. Um caminho seria uma meta para ter negros entre os estagiários.

R7: O seu descontentamento fica muito evidente com o seu texto de desabafo. O que aconteceu depois disso, você recebeu outras denúncias?
Theo van der Loo: Em duas semanas a postagem teve mais de 500.000 views, 4.000 likes e 1.500 comentários. Por meio dos comentários, tive contato com muita gente passou pela mesma coisa. Essa repercussão com certeza foi inesperada e nos mostrou como é importante estimular o debate sobre o tema. Recebi muitas mensagens “em off” de pessoas que tinham medo de se expor publicamente, com medo de perder o emprego.

R7: Como a pessoa que fez a denúncia ficou com o seu texto? Você acha que sua ação pode prejudicá-la de alguma forma?
Theo van der Loo: Fui cauteloso para que isso não o prejudicasse. Eu compartilhei meu post com ele, antes de colocar online. Além de não falar seu nome, não dei detalhes do processo e nem mesmo o nome da empresa que o realizou.
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