REPORTAGEM
Ana Luísa Vieira
ARTE
Danilo Lataro
FOTO
Getty Images
AGOSTO 2017
R7 São Paulo
Duas décadas da morte da princesa do povo marcam renovação da família real britânica

Morta há exatos 20 anos em um trágico acidente automobilístico, a princesa Diana ainda é considerada inigualável quando o assunto é carisma e elegância. Muito além da beleza e do sorriso afável, “a princesa do povo” envolveu-se em notáveis ações humanitárias e desempenhou um papel decisivo na modernização da família real britânica, conforme explicam especialistas ouvidos pelo R7.

Segundo o professor Estevão de Rezende Martins, especialista em história contemporânea e europeia da UnB (Universidade de Brasília), Diana ganhou a simpatia do público e um prestígio incomum principalmente por mostrar que os membros da monarquia também sofrem.

— Ela tinha uma juventude própria do século 20 que desconstruía um pouco o formalismo exacerbado da realeza. Além disso, era uma mulher muito bonita e muito ativa. Ela não tinha essa prioridade que os outros membros da família real têm que é de esconder os seus sentimentos sob uma máscara. Assim, se transformou em uma espécie de ‘xodó’ do público. O que ela fez, mais do que modernizar, foi humanizar a família real britânica.

Das origens aristocráticas à atuação como ‘outsider’

Nascida em 1º de julho de 1961 no condado de Norfolk, na Inglaterra, a aproximadamente 180 km de Londres, Diana Frances Spencer veio ao mundo como um membro da aristocracia britânica. Ela era filha de John Spencer, Visconde Althorp, e da Viscondessa Frances Ruth Burke-Roche. Foram suas raízes nobres que a permitiram conhecer e casar-se com o príncipe Charles, primeiro na linha de sucessão do trono no Reino Unido.

O par, que se conheceu ainda durante a infância de Diana, anunciou seu noivado em fevereiro de 1981 e selou o matrimônio em agosto do mesmo ano. A cerimônia foi assistida por 600 mil súditos nas ruas de Londres e mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo, pela televisão.

Para Gëzim Alpion, professor doutor no departamento de política social e sociologia da Universidade de Birmingham, da Inglaterra, mesmo a ascendência nobre de Diana não a livrou de ser considerada uma ‘estranha’ à realeza. “Ela veio de aristocracia, mas se casou com alguém da família real – que fica no topo da pirâmide. Desta forma, era tida como uma ‘outsider’, não era exatamente parte do grupo. Por conta disso também é que ela gerava um interesse incomum por parte da mídia”, explica.

“Seus filhos, os príncipes Harry e William, foram os primeiros da monarquia a estudarem em uma escola comum.”

Alpion acredita que as experiências vividas pela princesa nos primeiros anos de sua vida, longe dos holofotes e do poder, foram decisivas para sua conduta como membro da monarquia.

— Foi como se ela tivesse inventado um papel único para si mesma, e esse papel era ser um tipo de mãe diferente para um futuro rei da Inglaterra. Nesse contexto, ela foi protagonista. Ela deixou absolutamente claro que não queria que os filhos crescessem rodeados de babás, sem saber como viviam as pessoas comuns.

Não foram poucas as vezes, aliás, em que Diana quebrou o protocolo real: ela foi a primeira princesa, por exemplo, a dar à luz em uma maternidade aberta ao público — e não dentro das propriedades da realeza. Seus filhos, os príncipes Harry e William, foram os primeiros da monarquia a estudarem em uma escola comum.

Mesmo no dia de seu casamento, Diana foi pioneira ao escrever os próprios votos — fazendo questão de frisar que não se comprometeria a obedecer o marido em todas as circunstâncias. Em vez disso, prometeu ‘amá-lo, confortá-lo, honrá-lo e guardá-lo, na saúde e na doença’.

Vilões ou testemunhas do estrelato?

Paparazzi foram acusados de perseguir o carro e ter provocado a morte da princesa

Karla Dunder

Logo após o acidente de carro que matou a princesa Diana, em 31 de agosto de 1997, a primeira versão dos fatos: o motorista teria saído em alta velocidade para fugir dos fotógrafos que perseguiam a princesa e seu namorado, Dodi Al-Fayed. Os paparazzi, como são conhecidos os fotógrafos especializados em celebridades, do dia para a noite se tornaram vilões.

— É preciso dizer que ela avisava as agências e os fotógrafos do seu paradeiro, ela foi uma das personalidades mais fotografadas e sabia usar isso. Mas precisavam achar um responsável e a corda arrebentou para o lado mais frágil: dos fotógrafos – diz Francisco Cepeda, da agência AgNews.

Depois de 18 meses de investigações, a polícia francesa concluiu que o acidente foi causado pelo motorista que conduzia o carro: ele estava embriagado e fazia uso de antidepressivos.

— Os fotógrafos foram usados como bodes expiatórios, na Inglaterra houve uma repercussão muito maior que no Brasil, até endureceram as leis no que diz respeito à invasão de privacidade. É preciso dizer que houve uma baita falta de informação, precisavam culpar alguém e escolheram os fotógrafos – afirma o fotógrafo Marcelo Liso.

A opinião pública, por um período, se voltou contra os fotógrafos. Como observa Cepeda, o próprio apelido é pejorativo: “paparazzi são aquelas moscas, pequenos mosquitos, que ficam em cima das pessoas, irritando, incomodando”.

Danilo Carvalho, da agência Fio Condutor, compara o trabalho de um paparazzo ao de um jornalista investigativo.

— As pessoas têm preconceito, mas temos o trabalho de ir até a fonte, de investigar, conseguir informações. Um processo que pode levar meses atrás de uma boa foto. No exterior, o mercado de trabalho é maior. Aqui, o público vai direto ao Instagram das celebridades.

Para Liso, o Brasil tem celebridades mal assessoradas.

— Fiz fotos de celebridades reais, como Madonna e Pierce Brosnan, por exemplo. Artistas que sabem lidar com a imprensa e sabem reverter em benefício próprio esse assédio. Jornalismo é isso: você publicar o que não querem que seja publicado. Publicar o que a pessoa quer é publicidade.

Ainda de acordo com Liso, a repercussão do caso Lady Di no Brasil não foi tão intensa. Para ele, o problema maior é o mercado de trabalho:

— Aqui no Brasil não tivemos uma repercussão grande do caso. O mais difícil é encontrar veículos que queiram fazer jornalismo de verdade, que publiquem boas fotos, não apenas copiem as redes sociais das celebridades.

Casamento conturbado

À época em que Charles e Diana anunciaram seu noivado, foram questionados por jornalistas se estariam apaixonados. “É claro”, respondeu o príncipe. “Qualquer que seja o significado de ‘estar apaixonado’”, completou. A frase, que gerou polêmica no contexto em que foi dita, é encarada hoje como um prenúncio do casamento conturbado que se seguiu.

“Neste caso, repetiu-se uma situação muito tradicional: pessoas com um papel de relevância na família real eram levadas a se casar mais por conveniência do que por amor”, explica o especialista Estevão Martins. A escolha teve seu preço: logo nos primeiros anos do matrimônio, o relacionamento de Charles e Diana já deu sinais de desgaste.

“Divórcio de Diana e Charles abriu caminho para que candidatos à sucessão do trono pudessem se casar, sem grandes transtornos, com plebeus.”

Em 1985, os jornais exibiam capas com reportagens sobre a crise no casamento real. Especulava-se sobre a ligação do príncipe com Camilla Parker Bowles — que havia sido sua namorada na juventude e veio a se tornar sua mulher depois do falecimento de Diana. As publicações ainda abordavam a situação de saúde da princesa, que parecia estar desenvolvendo transtornos alimentares. As seguidas complicações culminaram na separação do casal em 1992. Durante uma entrevista em novembro de 1995 ao jornalista Martin Bashir, da rede de notícias BBC, Lady Di comentou o fim do casamento — além de confirmar que sofrera com a bulimia. "Eu não gostava de mim, sentia vergonha por não conseguir lidar com as pressões. Tive bulimia por muitos anos, e é como uma doença secreta. É um comportamento repetitivo muito destrutivo. Era uma válvula de escape", disse na ocasião. No ano seguinte, Charles e Diana formalizaram seu divórcio.

O professor da UnB lembra que esse tipo de crise conjugal teve seus precedentes história da realeza e acabou abrindo caminho para que candidatos à sucessão do trono pudessem se casar, sem grandes transtornos, com meros plebeus — a exemplo do que fez o príncipe William ao selar matrimônio com Kate Middleton.

— O comportamento do chefe da casa real — neste caso, a Rainha Elizabeth — em relação ao casamento não foi só modificado por conta da princesa Diana, mas também por conta da irmã da rainha, princesa Margareth, e de sua filha, princesa Anne. Antes do príncipe Charles, ambas essas senhoras tiveram problemas conjugais de caráter muito sério e alteraram o modo como a família real teria de considerar a vida afetiva de seus membros.

Legado humanitário

Não à toa, Diana ficou mundialmente conhecida como “a princesa do povo”. Após se casar com o príncipe da Inglaterra, ela se envolveu com mais de 100 ações humanitárias e instituições de caridade, de acordo com dados divulgados pelo próprio Buckingham Palace — residência oficial da monarquia em Londres. A filantropia, conforme explica Gëzim Alpion, é tradição entre membros da realeza — e a princesa quebrou paradigmas na forma como esses trabalhos eram feitos.

— Não é que os trabalhos de caridade envolvendo a monarquia tenham começado com a Diana. Isso já era uma tradição, de certa forma. O príncipe Phillip, que é casado com a rainha Elizabeth, se envolveu com mais de 85 tipos de filantropia ao longo de toda a vida dele. Mas com a Diana, esses trabalhos foram feitos de forma mais pública.

Nesse sentido, o professor da Universidade de Birmingham esclarece que outro diferencial significativo da princesa foi a maneira como ela sempre se mostrou acessível ao público. “Quando um membro da família real demonstra interesse genuíno em se aproximar do povo e falar com ele, a lacuna existente entre a monarquia e a população fica mais estreita”, pondera.

“Diana sentou-se numa cama onde deitava um portador do vírus HIV e segurou a mão dele. Isso contribuiu para diminuir o estigma que cercava a doença.”

Diana se mostrava aberta ao contato especialmente com os mais necessitados — lição que, conforme avalia o especialista, foi aprendida por seus filhos.

— Num tempo em que muita gente acreditava que a Aids poderia ser contraída pelo toque, Diana sentou-se numa cama onde deitava um portador do vírus HIV e segurou a mão dele. Isso contribuiu para diminuir o estigma que cercava e ainda cerca pessoas doentes. Os príncipes Harry e William continuam esse legado. Eles se mostram disponíveis ao falar com o público, independentemente da etnia e do status social das pessoas com quem falam.

Gëzim Alpion ainda destaca a campanha de Diana em prol das vítimas de minas terrestres — explosivos enterrados no Norte da África durante a Segunda Guerra Mundial e que até hoje podem ser ativados com um simples tropeço de quem caminha pela região. Estima-se que os artefatos mutilem até 20 mil pessoas a cada ano. A princesa se envolveu com o tema em janeiro de 1997, poucos meses antes de sua morte.

— Ao se envolver com esse tema, ela foi contra os interesses de quem quer que estivesse por trás da implantação dessas minas, quando foram implantadas. É de grande importância quando um membro da família real faz isso e esclarece abertamente que as minas terrestres são um legado das guerras.

Trajetória celebrada

A trágica morte de Diana em um acidente automobilístico chocou o mundo no dia 31 de agosto de 1997. O professor Alpion se recorda da tristeza sentida pela comunidade internacional — e da revolta dos britânicos pela demora da família real britânica em divulgar uma manifestação oficial: “A rainha estava na Escócia, por exemplo, e não retornou imediatamente à Inglaterra”, comenta. A nota de pesar da monarca só veio em 5 de setembro — um dia antes do funeral acompanhado por 2 milhões de pessoas nas ruas de Londres e transmitido pela televisão para mais de 60 países.

Os especialistas ouvidos pelo R7 concordam que a partida precoce da princesa, aos 37 anos de idade, contribuiu para que ela continue sendo celebrada até os dias de hoje — tanto pela beleza, como pelo engajamento social, como por mostrar sua vulnerabilidade ao público.

A trajetória de Diana é ainda homenageada de diversas formas: em um memorial no Hyde Park, em Londres; em flores, poemas, velas e fotos constantemente depositados na Ponte de l'Alma, em Paris, onde a princesa sofreu o acidente que causou sua morte; e até nas comparações com a princesa Kate Middleton, conforme lembra Gëzim Alpion.

—Eu acredito que Kate aprendeu muito a respeito de Lady Di e será capaz de aplicar esse conhecimento na criação de seus filhos, principalmente porque sua relação com William é completamente diferente daquela que Diana tinha com Charles.

O professor da Universidade de Birmingham reforça, entretanto, que a nova duquesa de Cambridge não deve contribuir de forma tão decisiva quanto Diana para a modernização da realeza.

— Isso pode não depender apenas da vontade ou visão de Kate. Apesar das mudanças que sofreu nas últimas décadas, a monarquia como uma instituição conservadora segue em seu próprio ritmo e talvez não queira sofrer novas pressões, nem mesmo de alguém como Kate. Deve-se ter em mente, de qualquer forma, que a duquesa não se compara a Diana em termos de carisma. Com todo o respeito por Kate, não consigo imaginá-la atraindo em qualquer momento de sua vida a atenção que Diana atraiu, seja por causa de seus problemas pessoais ou por causa de seu trabalho de caridade. Isso se dá, acredito, principalmente porque Diana foi uma personalidade carismática como poucas mulheres conseguiram ser nos tempos modernos.

Minha Lady Di é mais humana do que princesa


Deborah Bresser

Parecia um filme. Deitada na cama, ao lado da minha mãe, naquela vida mansa que levam os adolescentes de férias, fui uma do 1 bilhão de pessoas que acompanhou o casamento de Diana Frances Spencer com o príncipe Charles naquele 29 de julho de 1981. O casamento, com uma pompa que nunca havia sido vista antes, foi transmitido via satélite para uma plateia hipnotizada, como eu.

A carruagem, o vestido bolo de noiva, os milhares de súditos acompanhando a chegada da noiva à Catedral de Saint Paul, em Londres, e, depois, o desfile ao lado do marido, nada parecia real.

Diana era 5 anos mais velha do que eu. Com 14, minha sessão da tarde foi vê-la se enfiar no palácio, aos 19 anos, para tornar-se “Sua Alteza Real, a Princesa de Gales” e virar instantaneamente a terceira mulher mais importante da monarquia inglesa, atrás apenas da Rainha Elisabeth 2ª e da Rainha Mãe.

As cenas do casório se tornariam de fato imagens de uma trama que, ainda hoje, 20 anos após a morte de Diana, desperta a curiosidade do público, e parece não ter fim, apesar da ausência da protagonista. Em áudios, vídeos caseiros, documentários, entrevistas e milhares de fotos, Lady Di resiste.

Entre os anos 80 e 90, ninguém dominou a mídia mundial como ela. Não precisava ser fanático pela monarquia, que àquela altura andava cambaleante, para se encantar com sua figura. Como em um novelão, fomos todos acompanhando seu Truman show. A realeza nunca mais seria a mesma.

Daquela menina de carinha assustada e sem sal à mulher divorciada e segura, a trajetória de Diana marcou uma geração. Vibramos com o nascimento de seus filhos, detestamos Charles quando sua traição veio à tona, torcemos por seus romances secretos, e quando estávamos todos aliviados, certos de que Diana daria aquela volta por cima com Dodi Al Fayed, pah, veio a tragédia.

Deu nó na garganta o adeus a Lady Di. Foi uma sacanagem do destino. Justo quando ela estava plena e absoluta, estampando sua felicidade de biquíni no iate com o milionário egípcio, tivemos de suportar sua partida, ver seus meninos de luto, flores e velas na grade de seu palácio, em uma despedida precoce e inesperada.

A verdade é que a princesa do povo, idolatrada pelos ingleses, segue bem viva na memória de muitos. Lady Di marcou época pela beleza, sofisticação, benevolência, dedicação aos filhos e, não menos importante, por ser um ícone de moda. Foi também uma mulher submissa, traída, bulímica, cheia de inseguranças e medos, o que só faz dela um símbolo ainda mais forte. Lady Di foi tão princesa. E ainda assim tão humana.

A vida da Princesa Diana

1 de julho de 1961

Nascimento no condado de Norfolk, na Inglaterra, em família da aristocracia britânica

1975

Recebe o título de Lady quando seu pai se torna o oitavo Conde Spencer

1977

Encontra o príncipe Charles na casa de sua família em Althorp, na Inglaterra

1978

Forma-se em uma escola secundária na Suíça e muda-se para Londres, onde trabalha como babá e professora no jardim de infância

Fevereiro de 1981

Anúncio do noivado com o príncipe Charles

Julho de 1981

Casa-se com o príncipe Charles e recebe o título de Sua Alteza Real, a Princesa de Gales. A cerimônia é assistida por um bilhão de pessoas em todo mundo

Junho de 1982

Nascimento do primeiro filho, príncipe William

Setembro de 1984

Nascimento do segundo filho, príncipe Harry

1985

São publicados os primeiros rumores sobre a crise no casamento real

1986

Publicação dos primeiros rumores de que princesa estaria desenvolvendo transtornos alimentares

Janeiro de 1991

Abraça um paciente com Aids em um hospital da Inglaterra

Abril de 1991

Visita ao Brasil. Diana troca apertos de mão com meninos de rua, segura um bebê com Aids

Junho de 1992

Publicação do livro Diana: Her True Story, pelo jornalista Andrew Morton. A obra confirma que a princesa sofria de bulimia

Dezembro de 1992

Separação do príncipe Charles

Novembro de 1995

Concede entrevista à rede de notícias BBC, onde fala sobre fim do casamento, infidelidade, bulimia e depressão

Agosto de 1996

Formalização do divórcio. Diana perde o título de Sua Alteza Real e passa a ser chamada oficialmente de Diana, Princesa de Gales

Janeiro de 1997

Princesa Diana vai à Angola como parte de sua luta em prol das vítimas de minas terrestres

Agosto de 1997

Morte em acidente automobilístico no túnel da Ponte de l'Alma, em Paris