PERFIL DO DESEMPREGO
Brasil ganha 4,8 milhões de
desempregados em 2 anos
A cada 4 jovens com até 24 anos, 1 está desempregado

O Brasil tem hoje 11,5 milhões de desempregados. A falta de trabalho atinge todo tipo de
profissional: homens e mulheres, jovens e experientes, com ou sem diploma universitário.
Mas em meio à recessão econômica, que já dura 18 meses, são as mulheres, jovens e fora
da universidade as mais afetadas. A partir da análise dos microdados da PNAD Contínua,
a pesquisa mais completa do IBGE sobre o desemprego, o R7 preparou uma reportagem sobre
o perfil do trabalhador sem ocupação. Entre junho de 2014 e junho de 2016, o número de
desempregados subiu 71%.

Reportagem
Análise de dados
Arte
Diego Junqueira
Álvaro Magalhães
Danilo Lataro

O SALTO DO DESEMPREGO
Brasil chega a 11,5 milhões de desempregados

Ao meio-dia de uma quinta-feira, Eliana Batista Ferreira, de 39 anos, pede dinheiro no lotado terminal da Barra Funda, em São Paulo. Com sorriso no rosto, ela se diverte junto de mais três amigas, todas empenhadas na tarefa.

— Não tem trabalho, não tem dinheiro, [então] vou pedir mesmo.

Eliana mora em São Mateus, na zona leste de São Paulo. Está desempregada há três anos, após pedir demissão de uma fábrica de material plástico, onde era operadora de máquina.

Saiu por “problemas pessoais”, mas nunca mais conseguiu voltar ao mercado de trabalho.

Quando Eliana ainda tinha um emprego fixo, em 2013, o Brasil encerrava um período de amplo crescimento econômico. Naquele ano, o PIB subiu 3%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2014, último ano positivo, a variação foi de 0,1%. Já em 2015, ano da recessão, a economia encolheu 3,8%.

Foi um baque para o trabalhador, com fechamento de vagas na indústria, no comércio e no setor de serviços.

Se o primeiro semestre de 2014 se encerrou com 6,7 milhões de desocupados, 2016 já tem mais de 11,5 milhões de pessoas que querem trabalhar, mas não acham vaga — crescimento de 71% em apenas dois anos.

Isso acontece não só pelo fechamento de vagas, mas também porque, ano após ano, a força de trabalho aumenta no Brasil. Em 2013, éramos 97,2 milhões de trabalhadores, com ou seu emprego. Hoje somos 102,3 milhões.

Esses dados fazem parte da PNAD Contínua, a mais completa pesquisa sobre emprego no Brasil. O IBGE faz esse levantamento todo mês, visitando 70,4 mil domicílios mensalmente, e cerca de 211 mil a cada trimestre.





O mais recente levantamento, divulgado na última sexta-feira (29), aponta que a taxa de desemprego atual é de 11,3%. A pesquisa, contudo, ainda não trouxe os microdados, que permite fazer a comparação por gênero, idade e instrução. Para esse efeito, a reportagem utilizou os dados da pesquisa do primeiro trimestre, quando a taxa de desemprego era de 10,9%. Esse índice, no entanto, difere para homens e mulheres: 9,5% para eles; 12,7% para elas.

“Esse é um traço histórico. Mulher, jovem e negra é o perfil mais complicado do trabalhador na ativa, seja porque o jovem não tem experiência, seja porque, de uma forma geral, existe um perfil de preconceito contra a mulher, principalmente a negra”, diz o historiador e doutor em economia Vitor Schincariol, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC).

Eliana é mãe de dois filhos, um de 20 anos e uma de 18, ambos no segundo ano do ensino médio. Toda semana ela visita os postos do CAT (Centro de Apoio ao Trabalhador), da Prefeitura de São Paulo, mas diz que ainda não foi chamada para uma entrevista sequer. Para conseguir pagar as contas, ela recebe a pensão do ex-marido e recorrer a “bicos”.

— Eu queria trabalhar na produção [de materiais plásticos], na operação de máquinas, mas não tem [vaga]. Então eu pego o que tem, como arrematadeira (em oficinas de costura) e limpeza, em casa de família.

MENOS ESTUDO, MAIS DESEMPREGO
Quase 80% dos trabalhadores jamais entraram na faculdade





As mulheres com ensino médio incompleto, como Eliana, ou completo representam o perfil de trabalhador com a maior taxa de desemprego do Brasil.

São mais de 3 milhões de mulheres nesse grupo — 27,4% de todos os desempregados brasileiros, ou um a cada quatro desocupados.

Segundo o professor Vitor Schincariol, os trabalhadores que pararam os estudos no ensino médio representam o grosso da mão de obra no Brasil. Esse profissional é o mais afetado no mercado de trabalho, seja na bonança ou na crise.

— O fundamental é entender como se deu a expansão da economia brasileira nos últimos anos e a retração. Ela se expandiu basicamente em serviços, com postos de baixa qualificação. Com a crise, esses postos são os primeiros a serem cortados. Então o desemprego aumenta em relação ao grupo de profissionais mais qualificados.

O economista Gilberto Braga, professor do Ibmec-RJ, dá outra explicação para o aumento do desemprego nesse grupo.

— Quando falta emprego, as pessoas mais qualificadas se sujeitam a ocupar funções inferiores, com remuneração menor. Então você achata a curva para baixo. Em outras palavras: o qualificado ocupa a vaga do menos qualificado, e o com menos qualificação acaba que não consegue a vaga.

Eliana até pensa em voltar a estudar, não para concluir o ensino médio, mas para realizar um curso técnico, com o qual espera ter mais chances na busca por uma vaga.

Ambição diferente de Dulcilene Dantas Marques dos Santos, de 38 anos. Moradora de Cangaíba, também na zona leste de São Paulo, ela parou os estudos na sétima série do ensino fundamental e não pensa em voltar à sala de aula.

— É muito corrido trabalhar, olhar filho e ainda estudar. Meus filhos são muito pequenos.

Ela é mãe de três crianças, de 9, 7 e 4 anos. Os empregos onde passou mais tempo foram dez anos atrás, antes de casar: ajudante de costura, estamparia, ajudante de cozinha, limpeza.

Depois do casamento e do nascimento dos filhos, passou a se dedicar à família. Mas com o fim do casamento, há cerca de dois anos, foi novamente ao mercado. Trabalhou novamente como ajudante de costureira, durante um ano, e depois mais 15 dias em uma firmeza de limpeza, de onde saiu porque “eles não pagavam a condução”. Nunca teve a carteira de trabalho assinada.

— Meus filhos moram comigo. Minha ex-sogra me ajuda com uma cesta básica, meu ex-marido dá um pouco para ajudar, porque ele faz bico também, então ajuda como pode. (...) Alguém fala de uma vaga e eu vou lá, faço a ficha. Já saí bastante, mas até agora nenhum me chamou. Minha carteira é branca. Não tenho registro.

A trajetória de Dulcilene traz outra característica da crise: a das pessoas que voltam ao mercado de trabalho.

“Em função da crise, pessoas que não estava procurando emprego, passaram a declarar na pesquisa a intenção de que está à procura de um”, explica Braga.

— Apesar do crescimento do desemprego, o número de empregos com carteira assinada se manteve relativamente estável [na PNAD Contínua] com relação ao trimestre anterior, o que denota que tem mais gente procurando emprego. Isso é uma característica da crise.

JUVENTUDE DESEMPREGADA
A cada 4 jovens com até 24 anos, 1 está desempregado


Outro recorte do desemprego no Brasil é a avaliação por idade. A cada quatro jovens com até 24 anos, um está desempregado. E mais uma vez, as mulheres enfrentam mais dificuldades que os homens.

Bruna Ribeiro, de 24 anos, e Daiane Rosa, de 21 anos, estão juntas na busca por trabalho. Elas cursam o 2º ano da faculdade de psicologia e dependem dos pais para pagar a faculdade e se manterem ao longo do mês.

“Eu já trabalhei em supermercado, como vendedora e em call center. Faz um ano que estou procurando novamente em call center”, diz Bruna.

— Eu já fiz cinco entrevistas. Dizem que vão avisar, mas até agora, nada.

Daiane também busca trabalho na área de telemarketing, um dos setores que mais contratam, mas também que mais demitem no Brasil. Para elas, por enquanto, é mais fácil encontrar um emprego nesses setores com menor qualificação do que um estágio na área delas.

“Você mexe a catraca no sentido contrário”, explica Braga. Trabalho, agora, vai priorizar quem está no topo da pirâmide: os mais qualificados e mais experientes.