A jararaca e a luz

09
MAR

"Sou um inocente com pose de saber das coisas, e sendo atropelado pelo dia-a-dia de um Brasil"

Nunca acreditei inteiramente numa frase de um político americano do século IXX: "Um político honesto é aquele que, quando comprado, permanece comprado". "Sabe de nada, inocente", penso agora em relação a mim mesmo. Sou, definitivamente, um inocente com pose de saber das coisas, e sendo atropelado pelo dia-a-dia de um Brasil "como nunca antes na história desse país". É só pensar a diferença entre Collor e Lula, dois grandes amigos de causas e efeitos. Efeitos? Não seriam defeitos?

Collor cai por um Fiat Elba - se bem que ele agora, como senador, progrediu bem com Ferrari, Lamborghini. Lula se sustenta na corda bamba com triplex na praia, sítios, garrafas de vinho de altíssimo quilate, palestras pagas por empreiteiras, Instituto Lula que contrata o filho dele, cobertura alugada ao lado da comprada em São Bernardo, ABC paulista, entre outros mimos apresentados pela Operação Lava Jato. Por sinal, pelo andar da carruagem, vai faltar água. Mas aí chama o Governador de São Paulo, Geraldo Alckimin, que, em plena seca no Estado por falta de gerenciamento, recebeu do Congresso o prêmio de excelência hídrica.

Mas voltando aos amigos Collor e Lula. Pobre Collor. Perto do que dizem ser do Lula, não passa de um trombadinha. Já foi dito que difícil na política é distinguir os homens capazes dos homens capazes de tudo. Mas nada é do Lula, assim como nada era do Collor. Collor tinha PC Farias; Lula tem o fazendeiro Bumlai, grande amigo, grande amigo. Não é um Jacó qualquer. Mas sejamos justos: num aspecto Lula ganha longe do Collor. Ambos são a elite da elite, Collor não disfarça, Lula é uma metamorfose ambulante.

Vê-lo na entrevista, depois de ser levado para depor pela Polícia Federal, era de bater palmas em pé. Deve ser difícil bater palmas algemado, mas "o futuro a Deus pertence", isso é outro assunto e nem quero me meter. Lula fez da gravidade das acusações um show para "aqueles mesmos da militância". Dia de semana, pleno horário de trabalho, essa gente trabalha em que? Falou palavrão, ameaçou a Globo, ameaçou a Veja, perpetrou a mesma cantinela de "nós pobres" contra "eles". Aí, me desculpe, ex-presidente: Você? Pobre? ... Só que não.

Mas eis que veio à minha cabeça o Barão de Itararé: "Os vivos são e serão sempre, cada vez mais, governados pelos mais vivos". Lula é mestre da vivacidade. Sempre construindo pontes onde não há rios. Falei rios? Falei e lembrei - nenhuma explicação sobre rios de dinheiro pagos por empreiteiras em palestras, sobre rios de dinheiro do Instituto Lula, sobre a surpreendente riqueza de filho (ou filhos), sobre rios de amizade transformados em favores milionários. Na aula de moral e ética do ex-presidente, Lula se comparou a uma jararaca - réptil que tem certa aversão à luz.

Ele sabe o que diz sobre a jararaca, afinal, "político profissional jamais tem medo do escuro. Tem medo é da claridade".

 

Por Marcelo Rezende

 

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Conheça um pouco sobre o apresentador

Marcelo Luiz Rezende Fernandes nasceu no Rio de Janeiro, em 12 de novembro de 1951, e inicou sua carreira como repórter nos anos 70. Com mais de 40 anos de experiência, o jornalista se destacou em matérias envolvendo tráfico de armas, corrupção no futebol, pirataria, entre outros. Atualmente, está no comando do Cidade Alerta, na Rede Record.


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